Cultura
Uma Amazônia cosmopolita
Ensaios de Benedito Nunes e Milton Hatoum sobre Belém e Manaus, escritos há 20 anos, ganham nova edição
Após Belém do Pará, ano passado, transformar seus motéis em hotéis para comportar toda a gente que chegava à COP30, o chanceler alemão Friedrich Merz afirmou que ele e seus patrícios ficaram contentes em voltar para casa, “sobretudo daquele local onde estávamos”.
Não foi o primeiro visitante a se incomodar nessas bandas. Em Crônica de Duas Cidades: Belém e Manaus, o paraense Benedito Nunes, morto em 2011, e o manauara Milton Hatoum recorrem a uma série de escritores, locais e estrangeiros, para refletir sobre suas cidades natais. Euclides da Cunha, citado por Hatoum, reclamou que a capital do Amazonas era “ruidosa (…), mal-arranjada, monstruosa e opulenta”.
Crônica de Duas Cidades não é bem um livro de crônicas. Constitui-se de dois ensaios que contam a história de urbanização de Belém e Manaus. Elucida arquitetura, política e o que mais estivesse em jogo em momentos cruciais dos séculos XVIII, XIX e XX, oferecendo uma linha do tempo que dá sentido histórico às duas cidades.
Pode-se entender como se originou um dos maiores eventos religiosos do mundo, o Círio de Nazaré. Ou descobrir que a palavra “bonde” vem de um mister inglês chamado James Bond, xará do herói 007 dos filmes, que foi o primeiro, em Belém, a obter concessão para prestar o serviço de disponibilizar carros puxados a burro.
CRÔNICA DE DUAS CIDADES: BELÉM E MANAUS. Benedito Nunes e Milton Hatoum. Companhia das Letras (144 págs., 89,90 reais)
A libra esterlina, que circulava na cidade devido à presença dos ingleses, passou a ser chamada localmente pela corruptela “pichilinga”. Belém, em períodos distintos, tentou imitar a aparência de Liverpool, pela conexão comercial entre as duas cidades portuárias; de Lisboa, pela colonização; de Veneza, pelo volume de água; de Paris, devido à influência cultural. Nunes lembra que Haroldo de Campos lhe disse que “Belém do Pará tornava-se Belém de Paris”.
Hatoum também descreve uma Manaus afrancesada e corrobora a intenção geral do livro: mostrar as capitais amazônicas como metrópoles cosmopolitas. Isso não o impede, no entanto, de compreender as particularidades: “O espaço urbano de Manaus foi (e continua sendo) um espaço misturado, onde o palacete do passado e a mansão burguesa do presente não conseguem isolar-se totalmente das casas populares. É como se a periferia com seus marginalizados teimasse em permanecer no centro”.
Crônica de Duas Cidades foi lançado em 2006 em edição de luxo. A nova versão, em formato mais prático, permite que os textos, de leitura agradável, sejam lidos sem dificuldades de manuseio e portabilidade. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma Amazônia cosmopolita’
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