Cultura

Um Sérgio com M maiúsculo – e que a história não há de esquecer

Ator Sérgio Mamberti, homenageado pelos 80 anos no Grande Prêmio da Crítica APCA, mescla longa carreira artística com a militância política

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Aos 80 anos, o ator Sérgio Mamberti está preocupado com a aposentadoria. Não a sua, já que está a mil, em cartaz em São Paulo pela quinta temporada com Visitando o Senhor Green, peça que acabou de representar o Brasil no prestigiado Festival Tchecov, no Teatro Maiakovski, em Moscou. Ele está também preparando duas novas peças para 2020, uma exposição de colagens e terá uma biografia sobre sua carreira lançada pela Edições Sesc. Mas o que lhe tem perturbado é o destino de milhões de brasileiros pela acelerada destruição das políticas públicas, a Previdência inclusive, em prol de um projeto liberal de governo. “Existe uma política de extermínio cultural, de fazer com que a cultura perca seu papel de agente transformador, sendo que há um desmonte sistemático de todas as conquistas dos últimos anos, e não só as do nosso governo”, aflige-se Mamberti, em entrevista a CartaCapital.

Nascidos em Santos, filhos de pais agitadores culturais, Sérgio e o irmão Cláudio Mamberti construíram carreiras artísticas ligadas à política. Os dois ajudaram a fundar o PT e participaram ativamente da elaboração dos planos de cultura do partido. Cláudio, falecido em 2001, não chegou a ver Luiz Inácio Lula da Silva chegar à Presidência, mas o caçula dos Mamberti ficou por 12 anos em Brasília, em funções-chave do Ministério da Cultura, e não hesita um segundo em clamar por “Lula Livre”, como o fez na homenagem do Grande Prêmio da Crítica APCA 2018. “Falei dos meus filhos, que estão, de certa maneira, continuando meu trabalho, falei da Cacilda, que assumiu uma liderança de classe, de consciência, e falei de outro homem que foi meu grande inspirador e hoje está privado de sua liberdade.” O custo do posicionamento é um tipo de degredo conhecido: no jornal do dia seguinte, seu nome não aparecia entre os premiados.

Com seu jeito aparentemente tímido, Mamberti fala sem parar sobre política e cultura. Em 63 anos de carreira, consegue fazer um balanço repleto de histórias que parecem fruto da imaginação. Lembra, por exemplo, da “Patinha”, uma vizinha com quem ia a pé para o cineclube de Santos. Ela já era uma “senhora” aos olhos do menino cinéfilo, e uma comunista então casada com um crítico literário do jornal A Tribuna, de Santos. “Patinha”, que apresentou o teatro a ele e ao irmão, era ninguém menos que Patrícia Galvão, a Pagu, escritora e musa dos modernistas. Desde pequeno, Mamberti aprendeu a falar inglês e francês, servindo de intérprete para o pai, Ítalo, ex-revolucionário de 1932. Eram ele e a mulher, Maria José, que traziam artistas renomados para o Clube Internacional de Santos, como Procópio Ferreira ou Glenn Ford, que esteve no Brasil para filmar O Americano, em 1953.

Contemporâneos de Plínio Marcos, outro santista, os irmãos Mamberti entraram para o Partido Comunista e decidiram seguir a carreira artística. Fã do cineasta russo Sergei Eisenstein, Sérgio Mamberti imaginava que poderia ser um diretor teatral ou de cinema, mas isso até sua estreia amadora na Aliança Francesa, de Santos, com uma comédia do francês Tristan Bernard. Antes de entrar no palco, ele ficou paralisado na coxia. “Travei, mas o diretor me deu um pontapé na bunda e me jogou em cena. Fui aplaudido e pensei: ‘Não, gente, eu sou ator mesmo’.”

A primeira peça serviu de impulso para que Mamberti tentasse ingressar na célebre Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, fundada em 1948 por Alfredo Mesquita. Eram cerca de 500 candidatos para 50 vagas. Teve a ajuda de Myriam Muniz, já veterana, que o ajudou com a prova de mímica. Mamberti tinha ainda de apresentar a cena de um texto e escrever uma redação. Passou entre os dez primeiros. Foi nessa escola que conviveu com mestres como Gianni Rato, Alberto D’Aversa, Décio de Almeida Prado, Gilda de Melo e Souza e Sábato Magaldi. Ficou amigo de alguns professores, como Maria José de Carvalho, que ensinava canto e dicção e era casada com Diogo Pacheco, o maestro. Na casa deles, pôde apreciar as canções da Renascença espanhola. Frequentava ainda o Theatro Municipal, onde via apresentações de Marcel Marceau e do Piccolo Teatro de Milão, notável grupo italiano criado em 1947 por Giorgio Strehler e Paolo Grassi, como contraponto ao fascismo.

Mamberti estreou em 1961 com Antigone America, com Ruth Escobar e direção de Antônio Abujamra, o Abu. A montagem refazia o mito de Antígona na América do Sul, uma obra de contestação do poder. Nos anos 1960, a capital paulista vivia a efervescência da vanguarda, com o fortalecimento ou surgimento de grupos politizados, como o Arena de Augusto Boal, o Oficina de José Celso Martinez, e o Decisão, comandado por Abu. Mamberti logo se integrou a este último grupo, que nasceu em 1963 para popularizar o teatro artístico. Era um dos principais intérpretes do Decisão, onde fez Os Fuzis da Senhora Carrar. Em O Inoportuno, texto de Harold Pinter e dirigido por Fauzi Arap, não se esquece da dificuldade em fazer o papel de um caminhoneiro. Pegou até carona na estrada. Com a peça levou todos os prêmios daquele ano.

Em 1967, recebeu o convite para fazer O Rei da Vela, no Teatro Oficina. Por não ser integrante do grupo, iria receber um salário de 400 cruzeiros. Acabou trocando papéis com Edgar Gurgel Aranha, que havia criado o personagem Veludo, de Navalha na Carne, nas leituras na casa de Cacilda Becker, mas acabou cedendo o personagem para Mamberti. “As pessoas falaram: como eu, que tinha acabado de ganhar o Saci, iria fazer um viado e ficar 15 minutos em cena? Aí falei: ‘Mas é o Veludo’. E era uma honra fazer o Plínio”, lembra. A peça, com Paulo Villaça e Ruthinéa de Moraes, ficou dois anos em cartaz e rendeu polpudos 3 mil cruzeiros por mês a Mamberti.

Três anos depois, a consagração pessoal veio quando o francês Jean Genet, autor de O Balcão, veio ver a montagem brasileira dirigida por Victor Garcia. Na casa de Ruth Escobar, Genet o elogiou. “Ele me disse que o ator que interpretou o juiz do jeito que imaginava tinha sido eu. Agora não tenho mais nenhuma testemunha, porque um outro amigo que estava lá e a Ruth já morreram, então posso contar qualquer mentira”, diz, rindo.

São histórias improváveis como essas que marcam a trajetória de Mamberti. Como foi o encontro que teve com Jean-Paul Sartre, em visita ao País, e com quem ficou conversando horas ao lado da Biblioteca Mário de Andrade; a façanha de ter hospedado em sua casa os jovens Baby Consuelo e Pepeu Gomes, na época na gravação de Acabou Chorare, dos Novos Baianos, ou os integrantes do Living Theatre, expoente grupo teatral nova-iorquino da contracultura. Sua residência, ao lado do Teatro Ruth Escobar, era uma espécie de embaixada dos artistas. 

Pai de três filhos, a quem chama pelos nomes (Fabricio, Duda e Carlos), e não por números como 01, 02 e 03, Mamberti tem no currículo mais de 80 peças teatrais, quase 50 longas-metragens e 30 telenovelas, com participações desde a época das tevês Excelsior e Tupi e depois na Globo e Cultura. É lembrado por personagens que roubam a cena, literalmente, como o do copeiro Eugênio, da novela Vale Tudo, o sábio Doutor Victor, do programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, e o vilão Dionísio Albuquerque, da novela Flor do Caribe. Quase todos personagens que se tornaram seu alter ego. Frequentemente confundido nas ruas por esses papéis, ele viu a cena repetir-se com o senhor Green, em cartaz no Teatro Renaissance, e o advogado Alfieri, em Um Panorama Visto da Ponte, texto de Arthur Miller, montagem vencedora dos prêmios APCA e Shell. “Para mim, não existem pequenos papéis,  tudo depende de como você se coloca no processo de criação.”

Multiversátil, Mamberti foi ainda de dirigente artístico do Teatro Crowne Plaza, uma extravagante sala que, nos anos 1990, chegava a ter cinco espetáculos num único dia, aos cargos de secretário de Música e Artes Cênicas, da Identidade e da Diversidade Cultural, de presidente da Fundação Nacional de Artes, e, por fim, de secretário de Políticas Culturais. Atuou nos governos de Lula e Dilma Rousseff. É com essa experiência que se diz atônito com o que vê ao seu redor: “Para destruir é muito rápido. Isso é chocante para mim, porque trabalhamos o tempo inteiro no fortalecimento da institucionalização de um projeto cultural brasileiro. Esses movimentos liberais são uma contraposição a todas as conquistas históricas e uma reação às mudanças. Mas eu não sou pessimista, estou com 80 anos. Isso é luta, é conscientização, é processo, que devemos construir”, finaliza. 

Eduardo Nunomura
Editor de Cultura de CartaCapital.

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