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Um filme sobre a capacidade de ouvir

Sob a aparência de drama psicológico, sempre em frente toca numa ferida contemporânea: a falta de atenção

Um filme sobre a capacidade de ouvir
Um filme sobre a capacidade de ouvir
No primeiro papel após o triunfo de Coringa, Joaquin Phoenix surge mais suave – Imagem: Julieta Cervantes/A24
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As crianças do passado ouviram muito a pergunta “o que você vai ser quando crescer?” No presente, é mais comum querer saber em que mundo elas viverão.

A questão move Sempre em Frente, filme que conecta o presente ao futuro próximo, em vez de especular sobre um tempo além da imaginação.

O longa-metragem, que estreou nos cinemas na quinta-feira 10, chama atenção, em primeiro lugar, por ser o primeiro de Joaquin Phoenix depois do triunfo de Coringa.

O ator retorna com uma interpretação em vários tons abaixo. Se, em ­Coringa, seu trabalho poderia ser qualificado como “grandiloquente”, aqui o termo mais justo seria “murmurante”.

Sempre em Frente também é um filme diferente sob outros aspectos. As imagens em um preto e branco sóbrio expressam o estado emocional dos personagens, pontuado por expectativas discretas e algumas frustrações.

A sucessão de reencontros e desencontros dispensa momentos esfuziantes assim como recusa instantes dolorosos demais.

Phoenix faz o papel de Johnny, um jornalista que entrevista crianças e adolescentes para traçar retratos dos EUA hoje e esboçar a sociedade que eles desejam construir.

No meio de seu percurso nômade, ele reencontra a irmã Viv, da qual estava afastado. E embarca numa viagem inesperada com Jesse, o sobrinho de 9 anos.

A situação é, à primeira vista, de descobertas. Johnny é surpreendido mais de uma vez por perguntas, revelações e comportamentos insólitos do menino. Jesse, do seu lado, experimenta o mundo liberado das preocupações da mãe. A interação entre o adulto e a criança é de aprendizado mútuo.

Para que isso aconteça, é preciso que haja, da parte de ambos, atenção. E a atenção é um aspecto no qual o filme insiste da primeira à última cena.

O microfone, ferramenta do trabalho de Johnny, passa para as mãos de Jesse, quando este se torna uma espécie de assistente do tio. O instrumento é também símbolo da escuta, situação que o filme replica de múltiplas formas.

Sempre em Frente começa com Johnny gravando um áudio. Durante os créditos finais, escutamos, sem imagens, uma série de falas de jovens.

Viv irrita-se com o irmão por ele dar ouvidos à mãe que sofre de Alzheimer e delira. Já o distúrbio psíquico do pai de Jesse manifesta-se na forma de incapacidade de ouvir os outros.

Assim, sob a aparência de drama psicológico, Sempre em Frente revela uma mutação contemporânea quase imperceptível. Agora, todo mundo tem espaços onde fala, escreve, opina, publica e se exibe pelos cotovelos. No entanto, sem o outro lado, sem a atenção, a leitura e a escuta, de que serve tanta expressão? •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1195 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE FEVEREIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Um filme sobre a capacidade de ouvir”

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