Toninho Geraes: “Samba tradicional é diferente do que acham ser samba”

Compositor referência do gênero lança DVD gravado no emblemático Cacique de Ramos, no Rio

(Foto: Cris Gomes/Divulgação)

(Foto: Cris Gomes/Divulgação)

Cultura

Toninho Geraes não é um sambista de araque. Chegou lá fazendo samba de verdade em 35 anos de carreira.

Este ano ele lança seu sexto álbum solo, que vem na forma de um DVD gravado em 2018 no emblemático Cacique de Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A direção musical é de Alessandro Cardozo.

O trabalho tem músicas de Toninho registradas principalmente nos seus três últimos CDs e conta com a participação dos cantores Xande de Pilares, Marcelle Motta e Ana Clara.

O DVD Tudo que sou tem o mesmo nome de um CD apresentado em 2015 pelo cantor-compositor. “São músicas que gostaria de gravar ao vivo”, diz.

Deixou de fora a clássica Mulheres, sucesso na voz de Martinho da Vila. Aliás, segundo ele, jamais teria composto a música se fosse hoje.

“Teria outra ideia no tipo de abordagem, poesia, harmonia, melodia. Não que ela seja ruim. Mas porque não combina mais o estilo melódico e a forma de tratar o tema como na época”.

300 composições gravadas

Toninho Geraes tem cerca de 300 composições suas gravadas por outros intérpretes, que vão desde Agepê a Zeca Pagodinho. Parte dessa obra virou sucesso, como Pago pra Ver (com Nelson Rufino), Se a Fila Andar e Seu Balancê (ambas com Paulinho Rezende) – as duas últimas estão no DVD.

Com bom momento na carreira, afirma que passou a viver mais de shows. “Me considero um compositor que canta e não um cantor que compõe”.

O sambista compunha muito para o mercado fonográfico. Mas quando a pirataria veio, atingindo a arrecadação de direitos dos compositores, começou a escrever música mais para seu trabalho autoral.

“Foi aí a grande transformação e evolução. Comecei a fazer o samba que eu gostava”.

A partir desse momento, se aproximou de parceiros musicais de peso, como Roque Ferreira e Toninho Nascimento.

“Minha maneira de compor mudou. Passei a usar o assovio, a melodia musicada como é, sem interferência harmônica. Meus parceiros incorporaram”.

Morou na rua

Toninho passou muitas dificuldades ao chegar ao Rio de Janeiro em 1982.

“Vim para o Rio fugindo de casa. Não tinha onde morar e fui viver nas ruas. Pô, mas se vou morar na rua, vou viver em Ipanema”, lembra num misto de risos e amargor nas palavras dos maus bocados que passou naquele período.

Conta ter sofrido preconceito no samba: “Imagina, um mineiro, com sotaque caipira e branco. Fui muito desacreditado”.

Mas antes, em Belo Horizonte, sua cidade natal, ele já trabalhava com música.

“Comecei imitando Luiz Américo (cantor da clássica ‘O gás acabou, tem pouca comida…’) com bonezinho em um programa de calouro. Depois que fui compor”.

A escolha de gravar o DVD no Cacique de Ramos não foi à toa.

“Beto sem Braço (lendário sambista) me levou no Cacique na quarta (quando tinha as famosas rodas) e aprendi a força do samba”.

Nome dado por Zeca

Segundo ele, Zeca Pagodinho é que deu seu nome artístico lá no Cacique.

“Meu nome era Toninho Ribeiro. Mas quando fui gravar um pau de sebo (sua primeira gravação foi em 1986, num disco com a participação de vários artistas), não pude usar o nome. Aí lembrei de Toninho Geraes”.

O último “e” em Geraes é porque seu estado de origem já foi Minas Geraes quando província. “Ficava mais bonito usá-lo”.

O músico diz que gostaria de reviver a grande magia do afro-samba de Baden Powell e Vinicius de Moraes. “Estou compondo com Chico Alves (sambista) para realizar um projeto para dar seguimento ao que Baden e Vinicius fizeram”.

Os sambas de Toninho Geraes – que tem muito da matriz afro – têm o mérito de transcender as rodas, reduto de gente já convertida ao gênero, mantendo a tradição na letra e melodia dos grandes mestres.

“Fico feliz quando uma pessoa diz que passou a gostar de samba por minha causa. É impagável. Foram várias que fizeram isso”.

Toninho ressalta que não optou em chegar mais rápido ao apogeu fazendo outra coisa que não fosse o samba de verdade.

“O samba tradicional é muito diferente do que acham ser samba. Usam elementos do samba, mas não é samba”, explica sobre a diferença com o famigerado pagode, com a autoridade de quem ganhou o status de carioca pela incorporação e respeito às raízes musicais do Rio, mais do que muita gente que nasceu na cidade.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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