Tinhorão relatou o negro nos festejos em Portugal para explicar o Brasil

Não foi só o resgate da história da cultura brasileira que o pesquisador estudou, mas a procedência no país que colonizou este território

Foto:  Fotos Públicas/GESP

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Cultura

Além dos livros que fez com relatos da música, da dança e outros expressões da arte desde a formação do Brasil, José Ramos Tinhorão, falecido no último dia 3 de agosto, escreveu sobre a presença dos negros nos círios e romarias populares em Portugal no passado, que caracteriza exatamente o que aconteceu por aqui.

Festa de Negro em Devoção de Branco: do Carnaval na Procissão ao Teatro no Círio (editora Unesp), livro do pesquisador, é um dos tratam da questão. Corpus Christi, marcado por procissões e festejos, remonta do século XIII em Portugal.

A teatralização do culto, saindo do interior dos templos para as ruas, significou a participação de várias camadas da sociedade. A presença de São Jorge na procissão, uma determinação Real em deferência à Inglaterra, onde o santo é padroeiro, é emblemática.

 

 

O relato de Tinhorão segue com a festa-popular religiosa de evoluções coreográficas, cantos, música e exibição de alegorias, ainda no século XVI, divididos em blocos, que antecipariam as chamadas alas das escolas de samba na procissão carnavalesca para se contar um enredo.

Os negros provenientes da África escravizados em Portugal se reuniam em entidades religiosas católicas diferentes dos brancos. A reverência do povo negro a São Jorge, empunhando a espada semelhante ao orixá ogum (divindade ioruba), já vem daquela época.

Na obra do pesquisador, a realeza de Portugal resolvia impasses entre brancos e negros. Nas decisões de forte influência da Igreja de Roma, usava o conceito de conciliação do material ao espiritual, do sagrado ao profano.

José Ramos Tinhorão explica em detalhes a comunhão dos interesses entre Portugal e a Igreja Católica, notadamente nos festejos. Não há como dissociar o tema à festa do Divino Espírito Santo, integrada a solenidade de Corpus Christi, que no Brasil se celebra em demonstrações sincréticas, com congada e moçambique, duas manifestações afro-brasileiras.

A presença do atabaque e outras indumentárias e simbologias africanas nos cortejos cristãos no país que colonizou o Brasil, ao longo dos séculos, daria forma a fusão de diversos cultos religiosos e festas pagãs amplamente difundidas por aqui.

Tinhorão foi mais do que um crítico de música. Foi um contextualizador profundo da cultura brasileira. O legado é irretocável, como se lê nesse livro citado.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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