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T2 Trainspotting: quando o lema "Escolha a Vida" escapa à ironia

por Miguel Martins publicado 23/03/2017 01h00, última modificação 23/03/2017 19h07
Na sequência do filme de 1996, Renton e seus velhos companheiros põem a limpo suas relações, que vão além de agulhas compartilhadas
Divulgação
Trainspotting 2

Antes tratada como uma dama de “grande personalidade”, a heroína surge como coadjuvante

Em um momento, você tem tudo ("you've got it"), depois perde para sempre. O craque norte-irlandês George Best tinha, perdeu. Os ídolos do rock David Bowie, Lou Reed, Malcolm McLaren e Elvis Presley também. Há 20 anos, o personagem de Trainspotting Sick Boy tentava convencer o amigo Mark Renton, vivido por Ewan McGregor, de sua “teoria unificadora da vida”: quando ficamos velhos, não damos mais conta e ponto final.  

Na sequência T2 Trainspotting, que estreia nesta quinta-feira 23 no Brasil, Sick Boy, novamente interpretado por Jonny Lee Miller, é obrigado a pôr a teoria à prova na pele de um envelhecido Simon. Seus planos de se firmar como um traficante e cafetão seguem no horizonte. Com sua parceira de negócios, Veronika (Anjela Nedyalkova), sonha em erguer um controverso empreendimento em Leith, região portuária de Edimburgo.

Simon pouco se arrisca com as agulhas. Tampouco Renton, com quem se reencontra 20 anos depois de o amigo o trapacear em um operação amadora de tráfico. Ao menos em relação ao abuso de drogas, a dupla parece confirmar a velha teoria: ambos velhos, não parecem dar mais conta. 

Na sequência do filme original, um picante retrato dos usuários de substâncias injetáveis também dirigido por Danny Boyle, a heroína, antes tratada como uma dama de “grande personalidade”, surge como coadjuvante. Um reflexo do amadurecimento dos personagens e dos temas nesta sequência, mas também da perda relativa de espaço do opiáceo no universo das drogas ilícitas.

Quando o primeiro Trainspotting foi lançado, em 1996, o consumo de heroína era um notório problema de saúde pública na Europa e nos Estados Unidos. No Reino Unido, eram mais de 350 mil usuários, segundo estimativas da organização britânica DrugScope. Hoje, são 260 mil, grande parte concentrada entre aqueles com 35 a 64 anos.

Ao retratar jovens que compartilhavam agulhas sem o moralismo das campanhas contra entorpecentes, o filme original foi tema até das eleições norte-americanas de 1996, quando o senador Bob Dole, candidato do partido Republicano contra Bill Clinton, atacou o longa por “depravação moral” e “glorificação do uso de drogas”.

No fim dos anos 1990, a heroína não se restringia a círculos marginais, como o grupo de amigos escoceses retratados no primeiro Trainspotting, jovens aferrados ao seguro-desemprego e a programas de redução de danos para dedicarem-se à “injeção intravenosa de drogas pesadas”.

Mesmo entre as bandas que marcavam presença na trilha sonora do filme, havia diversos usuários regulares ou eventuais do opiáceo, como Donna Matthews e Justine Frischmann, guitarrista e vocalista do Elastica, e Damon Albarn, líder do Blur.

No filme de 1996, a realidade de usuários de heroína descortinava relações também viciadas: famílias que não conversam, amigos incapazes de confraternização superior à partilha de uma agulha ou de lucros do tráfico, a escolha sem saída entre o consumo ou o autoconsumo.

Sick Boy
Em T2, a teoria de Sick Boy é posta à prova: ficamos velhos, não damos mais conta (Foto: Divulgação)

Tema de uma campanha antidrogas de 1980, “Choose Life” ("Escolha a vida"), o gancho do famoso discurso de abertura do primeiro Trainspotting, não parecia oferecer muito mais que carros, máquinas de lavar, tocadores de CD e abridores elétricos de lata — eram os anos 1990, afinal. Em vez do consumismo vazio, Renton defende sua opção pela heroína para se libertar de “contas, comida, um time de futebol que nunca ganha porra alguma e relações humanas”.

No discurso “Choose Life” de T2, as referências de consumo são atualizadas para Facebook, Twitter, Instagram e outras referências da cultura digital, mas distanciar-se da heroína não significa apenas integrar um mercado consumidor. O lema escapa à ironia: nesse filme, o protagonista "escolhe a vida" ao encarar os erros do passado. 

A busca tardia de Renton de reabilitar relações humanas feridas amplia o escopo de dilemas do primeiro filme, reduzidos a uma escolha entre vícios lícitos ou ilícitos. Para além de agulhas compartilhadas, os amigos querem pôr suas relações a limpo.

Em Trainspotting 2, Renton assume a posição de “turista de sua própria juventude”, uma condição que se estende para os fãs do primeiro filme. Flashes de cenas do longa de 1996 combinam-se com imagens do protagonista e seus amigos durante a infância.

Há diversos personagens revisitados nessa sequência, como Diana (Kelly Macdonald) e o traficante Mikey Forester, interpretado por Irvine Welsh, autor do livro Trainspotting e de Porn, sequência que serviu de base ao novo filme.

Os personagens despem-se de estereótipos. Ao conhecermos suas relações familiares, Francis Begbie (Robert Carlyle) torna-se mais humano, mas não menos intimidante. Ewen Bremner empresta uma persistente ingenuidade a Spud, aprofundado nessa sequência para além de cenas de humor e escatologia, embora elas ainda estejam presentes. 

Tema de abertura do primeiro filme, o clássico “Lust for Life” surgia como uma sugestiva ironia: enquanto Iggy Pop cantava que estava “cansado de dormir na calçada destruindo seu cérebro com bebidas e drogas”, Renton e Spud corriam da polícia após roubarem uma loja para financiarem seu vício em heroína. Neste filme, Renton veste a carapuça dos versos da música, repaginada por um remix do grupo eletrônico Prodigy.

“Você é um viciado, então seja viciado em outra coisa”, resume o velho "Rent Boy".