Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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‘Stranger Things’ e o pesadelo psicodélico americano

A psicodelia na série da Netflix vai muito além da estética e relembra um passado sombrio de experimentos da CIA

‘Stranger Things’ e o pesadelo psicodélico americano
‘Stranger Things’ e o pesadelo psicodélico americano
Stranger Things Finale (Foto: Reprodução / Netflix)
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Lançada pela Netflix em 2016 e transformada rapidamente em um fenômeno global, Stranger Things acompanha um grupo de crianças e adolescentes na pequena cidade fictícia de Hawkins, nos Estados Unidos dos anos 1980, enquanto investigam desaparecimentos misteriosos, experimentos secretos do governo e a existência de uma dimensão paralela conhecida como Mundo Invertido. Misturando ficção científica, horror, nostalgia oitentista e referências à cultura pop americana, a série dos irmãos Duffer se tornou uma das produções mais influentes da última década.

Mas por trás da superfície pop cuidadosamente embalada pela Netflix existe algo muito mais obscuro e profundamente americano: o legado dos experimentos psicodélicos, militares e psíquicos da Guerra Fria.

Os irmãos Duffer nunca esconderam suas referências. O laboratório de Hawkins, as experiências em crianças, os poderes telecinéticos de Eleven e o próprio Mundo Invertido remetem diretamente ao projeto MKUltra, programa secreto conduzido pela CIA entre as décadas de 1950 e 1970 para estudar controle mental, manipulação psicológica e os efeitos de substâncias como LSD. Stranger Things transforma esse trauma histórico em horror sobrenatural, misturando paranoia militar, ficção científica e terror psicológico numa única mitologia.

A série deixa isso explícito logo na primeira temporada, quando Hopper encontra reportagens ligando o laboratório aos experimentos da CIA durante a era hippie. Em outro momento, policiais minimizam a situação como “coisas da época hippie da CIA”, numa fala aparentemente banal, mas que funciona quase como uma chave de leitura da própria série. Stranger Things imagina o que aconteceria se aqueles experimentos tivessem realmente aberto uma porta para algo além da realidade comum.

Nem a escolha de “White Rabbit”, do Jefferson Airplane, no primeiro episódio parece acidental. A música, eternizada como um dos maiores símbolos da cultura lisérgica dos anos 1960, usa Alice no País das Maravilhas como metáfora para expansão da consciência e experiências alucinógenas. Dentro da série, ela funciona como um aviso simbólico: atravessar certas portas mentais pode significar entrar em territórios sem retorno.

Essa relação entre psicodelia, telepatia e dimensões ocultas atravessa décadas da cultura pop e da literatura underground. William Burroughs e Allen Ginsberg já exploravam experiências visionárias em Cartas do Yage, associando estados alterados de consciência à dissolução do ego, percepção extrassensorial e contato com realidades invisíveis. Décadas depois, Terence McKenna transformaria a expansão da consciência em uma espécie de misticismo psicodélico contemporâneo. O autor defendia que substâncias como DMT e ayahuasca poderiam abrir caminhos para contatos com entidades extradimensionais, inteligências não humanas e estruturas ocultas da percepção.

Mesmo sem comprovação científica para ideias como telepatia induzida por psicodélicos ou acesso literal a outras dimensões, essas hipóteses se tornaram parte essencial do imaginário cultural contemporâneo. E talvez seja justamente isso que Stranger Things compreenda tão bem: os psicodélicos não aparecem apenas como drogas dentro da ficção moderna, mas como portais narrativos para o desconhecido.

O cinema absorveu rapidamente essa paranoia. Altered States (Viagens Alucinantes, 1980), de Ken Russell, acompanha um cientista que mergulha em isolamento sensorial e experiências químicas até perder os limites da própria realidade, em clara inspiração nas pesquisas de John C. Lilly, pioneiro dos tanques de privação sensorial e explorador radical dos estados alterados da consciência. Já Os Homens que Encaravam Cabras satiriza programas militares reais que investigavam percepção extrassensorial, espionagem psíquica e técnicas paranormais financiadas pelo governo americano durante a Guerra Fria.

Até figuras centrais da contracultura passaram diretamente por esse universo. Ken Kesey, líder dos Merry Pranksters e símbolo da revolução psicodélica dos anos 1960, participou como voluntário de testes envolvendo LSD ligados ao governo dos EUA antes de se tornar ícone hippie. A ironia histórica parece saída da própria ficção: parte da contracultura nasceu dentro dos próprios laboratórios do establishment.

Stephen King explorou obsessivamente essa paranoia em obras como Firestarter (Chamas da Vingança) e O Instituto, ambas sobre crianças transformadas em armas psíquicas após experimentos secretos do governo. E o próprio Mundo Invertido ecoa o horror cósmico de H.P. Lovecraft: dimensões ocultas, entidades incompreensíveis e a sensação aterradora de que existem camadas da realidade que o cérebro humano talvez não tenha sido feito para compreender.

O Mundo Invertido pode ser lido como uma metáfora do inconsciente profundo. Um espaço escuro, primal, traumático e pulsante onde memórias, medos e forças primitivas ganham forma física. Algo próximo do que muitos usuários descrevem em experiências intensas com LSD, ayahuasca ou psilocibina: a sensação de mergulhar não apenas dentro de si mesmos, mas em uma dimensão mental coletiva, arcaica e espiritual.

No fundo, Stranger Things parece menos uma série sobre monstros e mais uma narrativa sobre portas mentais. Sobre o medo ancestral de que certas experiências possam expandir a consciência humana além do suportável. E sobre a hipótese, tão sedutora quanto aterradora, de que o verdadeiro Mundo Invertido talvez não exista em outra dimensão, mas dentro da própria mente humana. Porque em algum momento da Guerra Fria, os Estados Unidos decidiram investigar seriamente se LSD, telepatia e dimensões ocultas poderiam se tornar tecnologia militar. E desde então, a cultura pop nunca mais parou de imaginar o que poderia existir do outro lado dessa porta.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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