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Sob o ruído da tecnologia

Zélia Duncan considera “o fim da picada” o streaming aderir às canções feitas por IA enquanto paga mal aos artistas

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Sob o ruído da tecnologia
Em Olhos de Cimento, a cantora e compositora fala em humanizarmos os robôs em meio à solidão que viralizou – Imagem: Mauro Restiffe
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No recém-lançado álbum Agudo Grave, Zélia Duncan critica a Inteligência Artificial na canção E aí, IA?, assinada com Alberto Continentino. Na música, a cantora e compositora evoca os sentimentos humanos que a tecnologia não pode alcançar.

“Se falei da IA é porque eu estava chatea­da com ela”, justifica Zélia Duncan, de 61 anos, em entrevista a CartaCapital. A presença de músicas feitas por Inteligência Artificial nas plataformas, diz a cantora, é especialmente irritante porque os ­streamings “pagam muito mal” aos artistas e estão gostando da IA: “É o fim da picada”.

Agudo Grave sai cinco anos após o último álbum da artista, ­Pelespírito (2021), só com composições feitas em parceria com o pernambucano Juliano Holanda. O intervalo, segundo ela, também tem a ver com as novas dinâmicas da tecnologia – que mudaram muito o mercado de música.

“Estava desanimada de gravar. A ­internet é uma ilusão, onde tudo é diluído muito rapidamente”, justifica, ecoando muitos artistas de sua geração. “Mas tenho o privilégio de poder fazer um disco do meu jeito. Agora pago meus preços para fazer só o que eu quero.”

Neste caso, isso significou, por exemplo, entregar a produção do álbum a Maria Beraldo, cantora, compositora e arranjadora talentosa da nova geração, que lançou dois discos considerados experimentais. Zélia e Maria haviam feito juntas, no ano passado, um projeto para o Sesc sobre a obra de Tom Jobim.

“Ela me abriu horizontes, ao mesmo tempo que foi respeitosa com minha jornada. Dei liberdade a ela. Respeito a ousadia”, diz a cantora. Maria empresta a Agudo Grave arranjos mais arrojados, com harmonias contrastantes, mas mantém nas canções as linhas folk e MPB que marcam a carreira de Zélia.

As duas fizeram ainda um duo na gravação da composição que assinam juntas, Voz. Zélia, aliás, conta que cuidou da sua voz “a vida inteira”, mas ela lhe passou uma “rasteira”. Em 2017, a cantora foi diagnosticada com um câncer de tireoide.

“Tive muito medo de perder a coisa mais importante da minha vida. Me sinto até hoje em recuperação emocional”, revela. A doença mudou sua maneira de pensar sobre a vida – e, especialmente, sobre a saúde. Zélia é corredora e maratonista dedicada. “Descobri que sou uma pessoa como outra qualquer”, afirma.

A parceria com Maria Beraldo é apenas uma das muitas do disco. Outra delas é com Ná Ozzetti, em Meu Plano, que traz muito do espírito desse novo trabalho: O corpo é meu lugar pra estar no mundo/ E então desfrutar/ Num lugar de amar/ Um outro plano/ Pra ninguém perder de se encontrar/ Pra gostar de si e de ser humano/ Pra cantar e ver tudo girar.

Olhos de Cimento, feita com Pedro Luís, fala em “humanizar seus robôs” em meio à “solidão que viralizou”. No trabalho de 11 faixas, há também espaço para o seu momento de vida, como na faixa-título Agudo Grave, composta por ela e Lucina.

“Quando a gente sente alguma coisa, ela é sempre aguda. Estou envelhecendo e minha voz está mais grave do que era”, diz, explicando o contraste do título, reiterado no primeiro verso da canção: Sinto agudo/ E canto grave.

As contradições – ou paradoxos – são o mote declarado deste que é o 21º álbum que Zélia lança em 45 anos de carreira. Já Pontes no Ar, assinada com Alberto Continentino, é inspirada numa viagem que fez a Machu Picchu, realizando um sonho de infância. Maravilha Disforme, gravada e composta em duo com Lenine, traz antíteses como “desamparo que une” e “amor que abomina”.

O disco conta também com a regravação de Que Tal o Impossível?, de Itamar Assumpção, compositor referência para Zélia, a quem dedicou um disco todinho, Tudo Esclarecido (2012). “A inclusão da música do Itamar é a coisa mais natural do mundo. Ele fez a minha música ficar mais inteligente”, ressalta.

“Estava desanimada de gravar. A internet é uma ilusão, onde tudo é diluído muito rapidamente”

Zélia gravou canções que fizeram grande sucesso, como Catedral (versão em português dela e de Christiaan Oyens da música inglesa de Tanita Tikaram), Não Vá Ainda e Nos Lençóis Desse Reggae (ambas de Zélia e Christiaan), Alma (Arnaldo Antunes e Pepeu Gomes), entre outras, mas vê a hiperfragmentação da indústria fonográfica como uma barreira para que, hoje, sua música alcance as rádios e a televisão.

A cantora, ao mesmo tempo, encontrou na internet um canal de comunicação mais direto com as pessoas. “Gosto de falar na internet, mas faço isso por total desespero como cidadã”, afirma. Seu Instagram tem quase 800 mil seguidores e muitos deles, de acordo com a cantora, a conheceram primeiro por seus posicionamentos, antes de ouvi-la cantar.

“Em tempos como estes em que vivemos, passa a ser importante o artista se expressar”, diz. “A gente está indo para o abismo, cercado de ignorâncias.”

Zélia conta que foi a partir de seu quinto álbum de estúdio, Sortimento­ (2001), que decidiu deixar de ficar obcecada pelas paradas de sucesso para passar a tratar de assuntos controversos nas músicas. “Comecei ali a falar de minha opção sexual, que foi uma conquista”, relembra. “Hoje não tenho nenhum problema em dizer que sou LGBT.”

É desse disco a canção Me Revelar, também com Oyens: Tudo em mim quer me revelar/ Meu grito, meu beijo/ Meu jeito de desejar/ O que me preocupa, o que me ajuda/ O que eu escolho pra amar.

Atualmente, Zélia se manifesta sobre vários assuntos nas redes sociais, da política ao mercado da música. Segundo ela, esse contato mais direto com o público, feito não apenas por meio da música, lhe deu uma sobrevida artística. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sob o ruído da tecnologia’

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