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Silvio Santos, o office-boy de luxo

Cultura

Aos 87 anos, Silvio Santos está a todo vapor. Em uma mesma semana, ressuscitou o slogan ditatorial
“Brasil, ame-o ou deixe-o”, bajulou o presidente eleito em telefonema transmitido ao vivo, declarou torcida pelo juiz Sérgio Moro na Presidência da República a partir de 2026, utilizou programa assistencialista para assediar no ar as cantoras Claudia Leitte e Anitta, crianças e mulheres negras.

De quebra, forneceu atualidade e combustível para uma das principais teses do jornalista Mauricio Stycer no recém-lançado Topa Tudo por Dinheiro – As Muitas Faces do Empresário Silvio Santos. “Sou um office-boy de luxo do governo” é o título de um dos capítulos do livro, e ecoa não uma opinião do autor, mas formulação do próprio animador de auditório e dono do SBT, em 1988, em referência ao presidente José Sarney. “Não faz mal que me chamem de puxa-saco. Com meu jornalismo, eu vou incentivar”, afirma o homem do Baú da Felicidade, em outra declaração recuperada por Stycer do mesmo ano de 1988.

O autor não conseguiu entrevistar o homem-objeto do perfil. “Tentei só uma vez, formalmente, pela assessoria de imprensa. ‘Ele lhe deseja sucesso nessa caminhada’, foi a resposta”, conta. De todo modo, o ex-camelô que iniciou trajetória empresarial nos alto-falantes da barca Rio-Niterói empenhou apoio posterior ao projeto, em sua maneira sempre debochada, e à revelia do modo respeitosamente
crítico com que o jornalista aborda sua trajetória.

Silvio mandou veicular comerciais do livro pelo SBT, sem conhecimento prévio de Stycer e da Editora Todavia. “Se você quiser saber tudo ou quase tudo da vida pessoal e artística de Silvio Santos, leia o livro de Mauricio Stycer”, dizia um locutor nas inserções, veiculadas até nos intervalos do programa dominical que o apresentador conserva nas grades de programação desde os anos 1960.

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Na esteira da eleição de Jair Bolsonaro, Silvio arvorou-se a resgatar slogans da ditadura implantada no Brasil em 1964, como o belicoso “ame-o ou deixe-o” e o ufanista “eu te amo, meu Brasil” (pinçado da canção homônima de Dom, da dupla Dom & Ravel, gravada pelo grupo de iê-iê-iê Os Incríveis em 1970).

Diante da repercussão negativa, Silvio ordenou a retirada (apenas) do mais bélico dos slogans. “Não se pode tratar esse assunto como folclórico”, opina Stycer. “Silvio contratou Dom & Ravel como relações públicas, a pedido do (ministro militar de Ernesto Geisel e João Figueiredo) Délio Jardim de Matos. Isso não é engraçado. A Semana do Presidente não é uma coisa engraçada.”

Em resposta ao aceno “ame-o ou deixe-o”, o presidente eleito telefonou para o empresário ao vivo, durante o programa Teleton, no sábado dia 10. “O senhor, nas primeiras medidas que tomou, já começou acertando”, empolgou-se o office-boy de luxo. “Não vou falar aquilo que eu penso, mas acho que nos próximos oito anos o senhor vai ficar no nosso governo, e depois, nos outros oito anos, tenho impressão… É um palpite, não sou político, mas acho que a sua escolha para o ministério, colocando aquele juiz Moro… Você pode ficar oito anos, e depois, passando pro Moro, ele fica mais oito”, afirmou, diante de aplausos da claque.

“Eu não vou viver até lá, é claro, mas, se depender da minha vontade e das pessoas que querem um Brasil pra frente, vai ter 16 anos de um bom caminho. Peço a Deus que isso se realize”, açodou-se. “Na conversa com Bolsonaro, senti um entusiasmo maior do que o que ele demonstrou com Lula ou Dilma”, avalia Stycer.

Diferenças à parte, mesmo Lula saiu em socorro de Silvio, em 2010, no episódio da quebra do Banco Panamericano, outro dos empreendimentos do garoto-propaganda de si mesmo. O jornalista vê, no tabuleiro atual, Silvio e Edir Macedo posicionados ostensivamente com Bolsonaro, enquanto a Globo, “cautelosa”, pende para um contrapeso em Sérgio Moro. “No dia da entrevista coletiva de Moro, o Jornal Nacional deu 15 minutos. É uma coisa fora do comum.”

Se o namoro com Bolsonaro redundará em verbas publicitárias, é resposta para depois de janeiro. Mas o animador teve pressa em renovar a gestão que fizera no início deste ano com Michel Temer, quando o levou a propagandear as reformas trabalhista e previdenciária – e foi humilhado em cores pelo presidente de plantão, que o presenteou com uma nota de 50 reais, em troca do apoio à “flexibilização de direitos” encampada pelos governos pós-PT.

Ao citar A Semana do Presidente, Stycer refere-se ao esquete dominical de propaganda governamental que o “jornalismo” de Silvio Santos inaugurou em 1981, durante a gestão de Figueiredo, e manteve no ar até o governo FHC. Estaria o empresário-animador preparando a volta d’A Semana, após um hiato com Lula e Dilma? “Já vi essa especulação, vamos esperar para ver. Se voltar, vai ser chocante”, diz Stycer.

Por trás das encenações na companhia dos poderosos da vez esconde-se peculiaridade maiúscula do animador, a de escancarar em público, como nenhum outro dono de mídia, os métodos no relacionamento entre veículos de comunicação e governos. “Uma das linhas principais do livro é documentar a ligação dele com o poder, com qualquer forma de poder”, explica Stycer. “Donos de canais de televisão de modo geral se movimentam nessa direção, mas a especificidade de Silvio é ser um apresentador também, e não ter nenhum constrangimento de mostrar isso diante das telas. Isso é que é muito original, não tem paralelo.”

São abundantes no livro os episódios de troca de favores entre Silvio e os governos, alguns deles chocantes. Funcionários do Ministério da Fazenda, Eleazar Patrício e Dermeval Gonçalves, fiscalizaram irregularidades do Baú da Felicidade em 1969, e foram procurados por Silvio em busca de socorro. Stycer destaca a versão de Dermeval no livro Nos Bastidores da TV Brasileira, de que Silvio teria pago outros diretores da Fazenda para se livrar da pendência (o empresário avalizou o livro e, portanto, essa versão).

Quem Silvio acabou contratando como executivos televisivos foram Eleazar e Dermeval (esse último, no futuro, trocaria o SBT pela Record do rival Edir Macedo, em circunstâncias semelhantes, narradas em Topa Tudo por Dinheiro).

Na empolgação pós-Bolsonaro, o apresentador afina-se com o momento do Brasil também no comportamento assediador de que tem sido pródigo no decorrer de cinco décadas de tevê. No mesmo Teleton, causou revolta entre movimentos identitários ao fazer chiste da recusa (por suposto receio de ficar “excitado”) em abraçar Claudia Leitte e Anitta. “Já vi muita coisa do Silvio, mas esses dois minutos e meio de diálogo com Claudia Leitte achei incômodos num grau que nunca tinha visto”, afirma Stycer. “Ela está visivelmente incomodada, e ele prossegue. Todo mundo fala que Silvio sempre fez declarações de cunho machista, racista e homofóbico, mas a compreensão e a aceitação disso hoje são diferentes. Ele perde admiração ao se recusar a perceber.”

A princípio degradantes, os episódios que trazem o animador novamente à crista da onda correspondem a um espírito assediador-bajulador que vigora no Brasil atual. Silvio Santos não deixa de agir autorizado pelo resultado das urnas, e de surfar na polêmica gerada pelas atitudes espalhafatosas.

Numa leva de filmes com certa entonação de autocrítica midiática dedicados a figuras como o palhaço Bozo e o animador Chacrinha, a filial latino-americana da Fox acaba de anunciar a realização de uma série ficcional para tevê em torno da figura de Silvio Santos. A Fox marcou para o segundo semestre de 2019 o início da produção, que pela primeira vez colocará na posição de personagem o excêntrico empresário que era vitrine.

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