Cultura
Sexo, drogas e divagações
Quase duas décadas depois de Pornopopeia, Reinaldo Moraes volta à carga com uma história passada numa noite
Demorou, mas Reinaldo Moraes está de volta. Quase duas décadas depois de Pornopopeia, de 2009, o escritor paulistano lança Noitada. Como no romance anterior, tudo está ali: sexo, drogas, diálogos que não têm nem pé nem cabeça, divagações, ironias e muito mais. Mas, em Noitada, a história se passa numa única e interminável noite.
Não em qualquer uma: estamos em junho de 2013, em meio às manifestações que tomaram São Paulo e o País.
O enredo gira em torno de três personagens: Kabeto, ora narrador, ora personagem, e escritor em estado de bloqueio criativo; Mina, sua ex-companheira e agora parceira de farras noturnas; e Audra, jovem atriz de teatro, habitante de Higienópolis.
Tudo começa com o encontro entre Kabeto e Mina. Juntos, e devidamente municiados de tabaco, maconha e cocaína, tomam um táxi até o apartamento de Audra, que lá os espera na companhia de uma amiga desconhecida.
Em meio aos protestos que se fragmentavam pela região central da cidade, a corrida revela-se uma verdadeira viagem – para eles e para o leitor. São nada menos que cem páginas que se desenrolam entre o bar do qual partiram e a chegada ao edifício onde ocorrerá a maior parte da “noitada”. O tempo da leitura é maior do que o tempo “real”.
Noitada. Reinaldo Moraes. Todavia (464 págs., 119,90 reais)
O resultado é um contraste entre a paralisia do movimento, simbolizada pelo trânsito bloqueado, e o caráter vertiginoso da narração e dos diálogos. “Tudo parece meio estancado no espaço e no tempo”, lança a certa altura o narrador.
Mas, se a questão política está presente, ela aparece quase sempre como obstáculo ao verdadeiro interesse das personagens, que é bem mais prosaico. Assim, a alienação diante do mundo pode ser lida como uma espécie de formalização literária dos impasses do “progressismo cultural”.
Nos diálogos, não faltam tiradas bem-pensantes contra o conservadorismo moral. A crítica da moral dos outros não escapa, porém, do seu próprio moralismo, cuja sensação de superioridade serve como justificativa para a inação em face dos conflitos sociais.
E talvez esteja justamente aí a força crítica do livro. A franqueza do narrador, que escandaliza, nos demonstra o quanto os pretensos esclarecidos, ao se encastelarem na sua própria bolha, pouco se dispõem a mudar uma sociedade que, afinal de contas, nunca será tão “avançada” quanto gostariam que fosse.
De fato, é mais fácil apenas lamentar do que compreender e agir. •
*Professor de Sociologia da Unicamp.
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sexo, drogas e divagações’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



