Cultura

Sem medo, Linn da Quebrada confronta o Brasil moralista

A artista trans Linn da Quebrada vocaliza um movimento de confronto com o Brasil moralista de Jair Bolsonaro e conquista espaço

Com um grupo de transexuais e travestis, a artista foi gravar um clipe numa igreja abandonada , mas teve de negociar por quatro horas com a polícia a filmagem
Com um grupo de transexuais e travestis, a artista foi gravar um clipe numa igreja abandonada , mas teve de negociar por quatro horas com a polícia a filmagem
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Num fenômeno cultural de grande complexidade, o governo de retrocessos em exercício tem de conviver com o apogeu de um movimento sem precedentes, formado por artistas transexuais, travestis e drag queens, a maioria negras. A expressão mais completa desse coletivo se chama Linn da Quebrada, uma paulistana de 29 anos que canta, compõe, atua na televisão e no cinema e entrou em circuito nas telas grandes nesta semana, com o documentário revelador e provocador Bixa Travesty, dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman.

Linn da Quebrada é a persona artística de Lina Pereira, que foi Lino e faz do corpo sua plataforma política e artística, embora não o tenha submetido a transformações hormonais ou injeções de silicone – em Bixa Travesty, ela reflete sobre as dúvidas entre fazê-lo ou não.

Linn afirma que a própria existência do fenômeno explica a onda de repressão, moralismo e retrocesso em que o movimento está inserido: “É justamente porque nós estamos conseguindo e galgando mais espaços que eles vêm e tentam fechar as rachaduras. Nessas fissuras e rachaduras que estão surgindo nesse prédio antigo, eles vêm tentar tapar com reboco e fingir que está tudo bem. Eu sou a prova viva de que esse sistema acabou”.

De fato, os homens da lei e da ordem estão marcando em cima Linn e suas companheiras. Quando foi gravar o videoclipe de Oração, em 10 de agosto, a artista tinha em mãos os documentos que lhe permitiam ocupar a locação escolhida, uma igreja abandonada junto a um terreno baldio na Brasilândia, na periferia norte de São Paulo. Não foi o suficiente.

A polícia suspendeu a gravação por quatro longas horas. Um advogado foi convocado pela artista e, quando se conseguiu a liberação, foi permitida uma hora de gravação e nada mais. “Eles falaram que, se a gente não tirasse as coisas, iam ter que quebrar tudo”, conta. “Eu tinha alugado um piano, movi as minhas estruturas para fazer aquilo acontecer. Eles estavam ali para impedir, não pra prezar por uma ordem.”

Antes de optar pela carreira artística, a cantora era Testemunha de Jeová

Linn elabora uma interpretação simbólica da disputa de território e de poder encenada ali. “Que território nós, enquanto travestis, temos? Nós não temos território nenhum possível de ocupação”, pergunta-e-responde. A polícia, ali, seria para ela o arremate de um processo que apaga sistematicamente os dissidentes sexuais dos livros escolares, da história oficial, dos meios de comunicação e do convívio social.

“Aí o que os homens mimados representantes do privilégio fazem? Tremem e tentam garantir o seu território. Querem o parquinho só para eles, não querem que nós estejamos nas faculdades. Os policiais, políticos, homens de poder performam e exercem o poder, o pouco que ainda circula entre eles, porque estão com medo. Estão perdendo território”, interpreta. Ela traduz a opção tomada, que evitou o confronto direto: “Os homens da polícia vieram tentar me prender. Prefiro não ser presa e continuar nessa disputa”. 

A guerra particular de Linn, criada em comunidades periféricas em São José dos Campos e Votuporanga, no interior paulista, é contra a masculinidade tradicional, que ela classifica como “branca, cis-heteronormativa, eurocêntrica e colonizadora”. O representante atual mais célebre da tendência repressora é Jair Bolsonaro, embora as dificuldades de sobrevivência para ela venham de muito antes, desde quando, até os 17 anos, era Testemunha de Jeová. “Eu era praticantíssima. Batia de casa em casa, pregava de casa em casa”, ri.

Sobre Bolsonaro, a artista é taxativa: “Ele não me assusta. Travesti não pode ter medo. Infelizmente, medo é um privilégio. Se a gente tivesse medo, não sairia nem de casa”. Mas é possível não ter medo, Linn? “Pois é, não é. Não é possível. Mas como a gente lida com esse medo? Eu transformo o medo em receio. Eu receio pela minha vida, pela vida das minhas. Cuido das nossas vidas, jogo meus feitiços, minhas maldições e minhas canções no mundo.”

Impedimentos à parte, a artista está em cartaz na televisão em dois momentos distintos. Na Rede Globo, atua na série Segunda Chamada, como a transexual Natasha, uma das alunas de uma escola estadual na periferia paulistana.

No Canal Brasil, divide com a parceira Jup do Bairro (também dissidente sexual negra, com sobrepeso) o programa de entrevistas Transmissão, que tem recebido convidados como a cartunista Laerte, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, a psicanalista Maria Rita Kehl, o ator Antônio Pitanga e a deputada estadual transexual Erica Malunguinho. “Esses espaços são estreitos, hétero, straight. Poucos corpos podem passar. Tenho conseguido hackear diversos espaços. Nós estamos em todos esses lugares”, comemora.

Sobre Segunda Chamada, Linn celebra uma oportunidade em particular: “Com a novela da Globo, agora minha mãe vai entender. Ela está vendo materialmente as coisas acontecerem. As coisas estão mudando diante dos olhos dela”. No filme Bixa Travesty, a mãe aparece chamando ela de “ele”, sob os protestos da filha, que afirma que vai tatuar “ela” na testa para que a mãe não se confunda mais. Mais adiante, no filme, acontece a cena da tatuagem, quando Linn imprime em cima de um dos olhos o termo “ela”, em caracteres de pichação urbana. 

Em Segunda Chamada, na Rede Globo, exemplo de exceção

Linn contesta os lugares que ocupa na Globo e no sistema brasileiro de comunicação de forma geral. “Nós intervimos na história. Sou prova viva disso, tanto que precisam me incorporar, precisam me ter na rede de televisão aberta, num programa num canal fechado, nas revistas, em suas festas”, diz.

“Nós somos um ato de intervenção em suas relações falidas, antigas, caducas, ilusórias, compulsivas, que ignoram que estamos dentro das relações dos homens que nos procuram para sexo oculto. Eles nos queriam apenas nesses espaços, como servas, para servir a eles em momentos que sejam oportunos.”

Dito isso, Linn põe-se a refletir sobre as limitações de estar nos territórios que tem conquistado e ocupado: “Eu estar em um lugar onde eu seja a única a travesti não é representatividade. É uma exceção. É impossível que eu sozinha consiga dar conta de representar toda a comunidade trans e travesti. E nem é isso que eu quero”.

É por isso que o videoclipe de Oração compõe-se de cenas idílicas de um grupo de transexuais e travestis, todas vestidas de branco, que evoluem pelo espaço simbólico da igreja abandonada. Os carros de polícia, como não poderia deixar de ser, foram incorporados à experiência. O piano, além dos corpos humanos, é objeto a ser preservado. “Não tenho patrocinadores. Sou eu que construo minha carreira, com as minhas parceiras. É um investimento de todas nós, de todas as pessoas que atuaram comigo”, cuida.

Em Bixa Travesty, Linn da Quebrada e Jup do Bairro refletem profundamente sobre seus lugares na sociedade, quando cantam o funk-rap-bossa-MPB A Lenda, sobre a “bixa esquisita” que “não é feia  nem bonita” e só consegue ficar “engraçada” aos olhos da sociedade: Eu me arrumei tanto pra ser aplaudida, mas até agora só deram risada.

Bixa Travesty investe sobre a vida privada de Lina, quando conta sobre o câncer testicular que tirou a Linn da Quebrada da Escola Livre de Teatro um semestre antes da conclusão do curso e culminou na escrita de raps, funks e canções. “O câncer foi um processo de muita criação para mim. Fui muito criativa nos meus processos de cura. Inventei processos para que pudesse passar pela doença da maneira mais saudável possível.”

A performance de palco de Linn é por vezes violenta, e ela responde a esse fato com firmeza: “A violência impõe-se contra mim. Eu não vou responder à violência com amor, sinto muito”. Volta a experiência de quem muito leu a Bíblia e é admiradora confessa do Livro do Apocalipse: “O amor beneficia quase exclusivamente os homens. Não é à toa que Deus é amor. O amor move estruturas econômicas, constrói famílias, distribui a herança da qual eu não faço parte, da qual eu fui deserdada, da família da qual eu fui expulsa”.

Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches Editor de Cultura de CartaCapital.

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