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Sem chão

A jornalista Cristina Serra detalha os crimes cometidos pela Braskem em Maceió

Sem chão
Sem chão
Impunidade. A repórtrer reconstitui o drama das famílias obrigadas a aceitar acordos prejudiciais. Os responsáveis pela tragédia continuam livres – Imagem: Davysson Mendes/Prefeitura de Maceió e Redes Sociais
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Umas das primeiras cenas do filme Bye Bye ­Brasil, de Cacá Diegues, mostra os artistas mambembes interpretados por José ­Wilker e Fábio Jr. diante do Pontal da Barra, em Maceió, Alagoas. Ciço, personagem de Fábio Jr., quer tomar banho de mar, mas Lorde Cigano, interpretado por Wilker, adverte que, naquela praia, a água era poluída. “Olha lá”, diz ele, apontando para a enorme fábrica da Salgema instalada no local. O ano era 1979 e os danos provocados pela indústria construída durante o período da ditadura na zona urbana da capital alagoana eram conhecidos. Encampada pela petroquímica Braskem, a extração desenfreada e sem fiscalização do sal-gema foi responsável por um dos maiores desastres socioambientais do Brasil e do mundo.

Cidade Rachada, livro-reportagem da jornalista e colunista de ­CartaCapital Cristina Serra, é um relato detalhado de como uma parceria de conveniência entre governos omissos e a busca por lucro empresarial levaram cinco bairros de Maceió a rachar e afundar diante do desmoronamento das cavernas criadas no subsolo na cidade pela extração do sal-gema, utilizado pela indústria química na produção de cloro, soda cáustica e PVC.

Inaugurada em 1976 na zona urbana de Maceió, como uma parceria entre um empresário brasileiro e a multinacional DuPont, a Salgema transformou-se em Braskem em 2002, sob controle da então Odebrecht, que virou Novonor depois dos escândalos da Lava Jato, em sociedade com a Petrobras. O complexo industrial é composto de dois pilares, um de extração do sal-gema, no subterrâneo de Maceió, e outro de produção da clorossoda, no Pontal da Barra, ligados por um duto de 8 quilômetros que leva o produto diluído até a fábrica.

Cidade Rachada
Cristina Serra. Editora Máquina
de Livros (256 págs., R$ 71)

Depois de 40 anos de extração com fiscalização ineficiente e omissa, a terra tremeu em Maceió em 3 de março de 2018, o que provocou rachaduras imensas em prédios, casas e ruas em cinco bairros: Bebedouro, Pinheiro, Mutange­, Farol e Bom Parto, afetando 14,5 mil imóveis, com a remoção de 60 mil moradores. Serra entrevistou mais de cem personagens e visitou o local diversas vezes, iluminando histórias humanas de quem perdeu tudo, de suicídios e mortes provocados pela falta de assistência da Braskem, que obrigou os atingidos a assinar um acordo em troca de parcos 40 mil reais por imóvel e do repasse do direito da área à petroquímica. A jornalista também levanta as tentativas da empresa de deslegitimar o relatório do Serviço Geológico do Brasil, que apontou a culpa do empreendimento no desastre.

Apesar de uma CPI encerrada em 2024 ter indiciado três empresas e 11 cidadãos por crimes ambientais, até hoje ninguém foi punido, o que demonstra a relação promíscua entre o público e o privado no Brasil, na qual o “marco regulatório é frouxo, fiscalização ausente e aplicação de multas e sanções aquém do necessário para inibir novos crimes”, como ressalta o jornalista André Trigueiro na apresentação do livro, sentimento que pode ser resumido em uma frase encontrada pela repórter, escrita em frente a um dos lares desapropriados pela petroquímica: “Braskem, me diz quanto vale o sal de nossas lágrimas?” •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa

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Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem chão’

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