Scorsese relê Dylan e o poder revolucionário da música

Entre uma turnê real e fatos inventados, Martin Scorsese realça em documentário o poder revolucionário da música

Joan Baez e Bob Dylan: na fronteira entre os mecanismos da turnê  e a invenção de uma excursão

Joan Baez e Bob Dylan: na fronteira entre os mecanismos da turnê e a invenção de uma excursão

Cultura

As flores no chapéu de Bob Dylan são recém-colhidas. A purpurina na calça de Scarlet Rivera parece voar com o movimento no palco. O microfone no dueto com Roger McGuinn parece cheio de cuspe recente. Tudo é fresco e tudo é pantanoso.

O mais louco, assistindo ao documentário Rolling Thunder Revue, na Netflix, dirigido pelo celebrado Martin Scorsese, é a gente constatar que tanto o fato quanto a fantasia, tratando-se de Bob Dylan, têm pesos poético e de sentido idênticos. Concebido por Dylan em 1976 como um modelo de turnê diametralmente oposto aos grandes circos do show biz que invadiam os anos 1960 (o que incluía o mega-show dele mesmo, Dylan), a Rolling Thunder Revue foi aonde nenhuma excursão do rock ousaria ir – e as condições eram mambembes (presumivelmente negociadas por Louie Kemp, um vendedor de peixes amigo do artista).

Revista 43 anos depois, a turnê presta-se a que Scorsese exponha um novo modelo de argumentação histórica, no qual aquilo que se quer dizer importa mais do que uma falsa ideia de espontaneidade mágica. As testemunhas dos fatos, como o jornalista da Rolling Stone Larry Sloman, fundem-se a testemunhas fabricadas, como a atriz Sharon Stone, que interpreta divinamente o papel da fã acidental.

“Foi só uma coisa que aconteceu há 40 anos”, diz Dylan no início da entrevista para o filme, entre irônico e debochado.

A partir daí, Martin Scorsese usa esse mote e passa a criar ambientes e personagens que preencham o vácuo de memória e de afeto de Dylan pela própria história. O cantor compara a turnê que organizou a uma excursão da Jim Kweskin and The Jug Band (grupo folk da época) e, mais à frente, a uma caravana da Commedia Dell’Arte italiana. Nada é real e tudo é real.

“Era como filmar meu pai na sapataria dele”, revela o “cineasta” da turnê, Stefan von Dorp (o ator argentino Martin von Haselberg, falsificando uma intimidade das filmagens). É a chave do documentário: as imagens reais, consentidas por astros como Sam Shepard e Patti Smith (filmada em uma performance de spoken words e por detrás de uma grade conversando com Dylan sobre visões de crianças jogando bola com diamantes), fundem-se às fictícias, de fãs, tour managers e depoimentos inventados. Esse jogo conduz o espectador a uma rebelião de expectativas, na qual a única coisa realmente confiável é a música – e essa ressurge grandiosa, em números musicais finamente esquadrinhados, performances memoráveis de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, Knockin’ on Heaven’s Door e outros clássicos.

Dylan afaga o próprio mito. Logo após vê-la na tela, tocando One More Cup of Coffee, acompanhamos a violinista Scarlet Rivera (cujo som marca decisivamente um dos maiores hits de Dylan, Hurricane), explicando dentro de uma limusine, linda, ainda garota, como foi recrutada por ele para tocar consigo e na turnê. “Mr. Tambourine Man nos dá a chance de sermos quem a gente quiser ser”, diz Scarlet.

A caravana fabrica seus personagens conforme a própria dinâmica rumo ao coração dos Estados Unidos. “Façam o que for preciso pela própria eternidade”, aconselha Allen Ginsberg ao final de tudo, como se a turnê toda tivesse se prestado a dar um recado aos idólatras.

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Editor de Cultura de CartaCapital.

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