Cultura

Samba da Mangueira vai impactar, mas não deve gerar a comoção de 2019

Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo contam, de novo, a história pela ótica dos oprimidos

Em 2019, desfile da Mangueira homenageou Marielle Franco e demais heróis esquecidos. Foto: Fernando Grilli/Riotur
Em 2019, desfile da Mangueira homenageou Marielle Franco e demais heróis esquecidos. Foto: Fernando Grilli/Riotur
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O samba-enredo da Mangueira para 2020 deve gerar novo impacto, depois que em 2019 se tornou a música do ano com a história do país contada pela ótica dos negros e índios. A escola leva à avenida o enredo do carnavalesco Leandro Vieira, retratando Jesus nos dias de hoje em um mundo de intolerância. 

A letra do samba tem versos fortes: “Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher / Moleque pelintra do buraco quente / Meu nome é Jesus da gente… Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem messias de arma na mão”. O samba da Verde e Rosa é, de novo, de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo, que são casados. Manu da Cuíca foi frequentadora assíduo das rodas do histórico bar Bip Bip, em Copacabana.

Luiz Carlos Máximo já integrou a Ala de Compositores da Portela. Lá, ganhou cinco vezes a disputa de samba-enredo. É compositor tarimbado com várias gravações na voz de outros intérpretes. Manu também segue esse caminho. No samba da Mangueira de 2019 os nomes de ambos não constam na lista oficial de compositores porque eles participavam de disputa semelhante na escola adversária Portela, o que era proibido. 

Mudanças de regra

Os dois só passaram a constar como autores da composição depois que a antológica música, conhecida também como uma homenagem a Marielle Franco, passou a ser regravada por vários intérpretes, como Maria Bethânia. O grupo de signatários oficial formado em torno do samba-enredo campeão de 2019 é composto por Tomaz Miranda, Deivid Domênico, Danilo Firmino, Silvio Mama, Ronie Oliveira e Márcio Bola. Após o último carnaval, a Mangueira decidiu mudar o modelo de disputa do samba-enredo.

A alteração visou acabar com o alto investimento financeiro feito durante a disputa pelos signatários dos sambas-enredo concorrentes, incluindo contratação de torcida organizada, compra de ingressos e produção de clipe com intérprete remunerado, e valorizar a composição e o compositor. É comum nas disputas de samba-enredo das escolas da elite nomes se integrarem a lista de autores de uma música para apenas ajudarem financeiramente nos custos elevados de participar da competição, destinados principalmente ao marketing de divulgação da obra. Com as novas regras da Verde e Rosa, todos os sambas inscritos são gravados no mesmo estúdio, com músicos contratados pela escola. Não são mais permitidos na quadra grupos que caracterizem torcida organizada de um samba-enredo, sob pena de eliminação. 

A apresentação de cada obra na quadra tem formação padronizada. As composições devem ter até quatro autores.  E não há mais restrição de participação de compositores pelo fato de estar ligado a outra agremiação, ao contrário do que ocorreu em 2019 quando os nomes de Manu e Máximo não puderam constar na lista oficial de autores do samba-enredo História pra Ninar Gente Grande por conta disso, apesar de serem personagens centrais na criação da bela música.

O curioso é que o samba-enredo de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Silvio Mama e Márcio Bola, quatro dos seis autores oficiais do samba campeão de 2019, foi eliminado durante a disputa para o carnaval 2020 da Mangueira por infringir o novo regulamento. Motivo: foi apresentada nas redes sociais uma versão do samba que não a oficial gravada pela escola, o que é vetado. Está óbvio que as mudanças no regulamento foram provocadas a partir do ocorrido com um dos maiores sambas já feitos nos últimos tempos. 

Carnaval 2020

A letra do samba-enredo da Mangueira em 2020, a Verdade Vos Fará Livre, de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo, chegou a sofrer alteração em dois versos na sua versão para o Carnaval no Sambódromo, aceita por ambos compositores. Apesar da força do samba e da crítica social, com a letra bem estrutura à melodia, adequada ao desfile, associadas à enorme capacidade do carnavalesco Leandro Vieira de transpor o enredo de ideias controversas para a evolução na avenida, a comoção verificada com o samba-enredo de 2019 não deve se repetir.

É que a citação à Marielle no samba-enredo produziu efeito emocional muito grande, pelas referências recentes que a vereadora assassinada em 2018 trouxe e traz à luta contra a retirada de direitos em marcha no país. Essa alusão tão direta e imediata não ocorre no samba de 2020.

Abaixo, segue a letra do samba-enredo da Mangueira de 2020: 

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do buraco quente
Meu nome é Jesus da gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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