Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Rodas de samba são também territórios de ‘aquilombamento’

No Dia Nacional do Samba, na quinta 2, destaca-se que as rodas podem ser mais do que uma festa

Foto: Augusto Diniz

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O termo “aquilombamento” ganhou força nos últimos tempos e significado mais amplo. Encampada por alguns movimentos sociais, a proposta é reunir pessoas para acolhimento e também reflexão e ação à dura realidade.

Enquanto a ideia se espalha, vem à mente sinais da história em que o aquilombamento já se manifestava – além dos quilombos. De pronto ocorrem as rodas de samba nas redondezas da Praça Onze, no Rio de Janeiro, onde Tia Ciata fazia festas com partido alto e batuques. Já havia se passado alguns anos da Abolição da Escravatura, mas as marcas profundas do período anterior ainda estavam bem visíveis.

Lá, se realizavam rodas que representavam mais do que espaço musical, para beber e comer. Significava também encontro social, além de local de expressão de frustrações e desejos.

“A roda de samba não nasceu numa base ideológica de resistência cultural”, lembra Roberto M. Moura, no clássico livro No Princípio, Era a Roda (2004). Mas baseada em afinidades da cultura negra.

De qualquer forma, as rodas de samba como movimentos de ajuntamento, de processo de reunião de pessoas em torno do algo em comum e de criação se mantiveram até hoje – claro, com influências da modernidade, quase um século depois.


As rodas de samba são territórios de aquilombamento no seu significado amplo que se tornou atualmente. No livro O Samba É Meu Kilombo: Tramas de Identidade, Solidariedade e Educação em Rodas de Samba de Salvador (2021), de Rose Belo (resenhado pela CartaCapital aqui), compara-se as rodas com as manifestações religiosas e de canto e dança realizadas nos quilombos.

Nessa obra, que é uma dissertação de mestrado, a autora inclui as rodas de samba como movimentos sociais de construção da cidadania, de educação e de consciência. A relevância do livro está na sua relação com o novo tempo que vivemos, a despeito de existir muitos trabalhos destacando a indissociável história do gênero com a do Brasil.

As rodas de samba, agora sendo retomadas, podem ser sim instrumentos de acolhimento e reflexão. No local de canto e dança da gênese cultural do país também é possível resistir. No Dia Nacional do Samba, na quinta 2, parece oportuno lembrar o gênero como elemento representativo de anseio e conexão entre as pessoas.

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