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Robert Crumb contra Trump

Os trabalhos recentes do cartunista e de sua família dialogam com o atual clima de paranoia, desinformação e polarização

Robert Crumb contra Trump
Robert Crumb contra Trump
Sátira e crônica. O livro recém-lançado no Brasil reúne trabalhos produzidos entre 2017 e 2021. O artista (abaixo) começou a retratar o presidente dos Estados Unidos muito antes de ele cogitar entrar para a política. Em Point The Finger, de 1989, Crumb sugeria que o então empresário enfiasse a cabeça num vaso sanitário. – Imagem: Redes Sociais Editora Veneta e Niccolo Caranti
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Há tempos Donald Trump perturba o cartunista norte-americano Robert Crumb. Um detalhe parece central nesse incômodo. “Acho que falhei com o povo norte-americano, porque sou incapaz de captar a complexidade do cabelo de Trump.”

A frase aparece em uma HQ de 2020, assinada por Crumb e sua esposa, Aline Kominsky-Crumb, e sintetiza o tom de Tempos Modernos, antologia que inclui ainda trabalhos da filha, Sophie Crumb, e acaba de chegar às livrarias brasileiras.

Escrita durante o primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2021, a HQ mostra Crumb e Aline em meio a indagações carregadas de sarcasmo e ironia. “Você compraria um carro de alguém usando esse penteado?”, provoca Aline. A obsessão com o cabelo e os hábitos alimentares do presidente norte-americano aparece como uma chave para interpretar o comportamento de um líder que, na visão dos autores, ameaça a própria ideia de civilização.

Na mesma HQ, Crumb relembra outra mais antiga, Point the Finger, de 1989, na qual propunha uma solução simples para Trump: enfiar sua cabeça num vaso sanitário. Ele explica que a fúria teve origem na leitura do livro A Arte da Negociação, lançado em 1987, muito antes de o então empresário nova-iorquino do mercado imobiliário se tornar a pessoa mais poderosa do planeta. “Naquela época ele era apenas um astro de reality show”, diz.

“Com a ira de um profeta bíblico, Crumb enxergou o ser lastimável que é Donald Trump antes mesmo de ele cogitar entrar para a política”, observa Rogério de Campos, editor da Veneta e o principal responsável por difundir sua obra no Brasil.

Muito antes de Trump se tornar personagem recorrente da política mundial, Crumb escancarava a anatomia grotesca do sonho americano em quadrinhos que, no fim dos anos 1960, redefiniram a linguagem das HQs nos Estados Unidos.

Tempos Modernos. Aline, Sophie e Robert Crumb. Tradução: Cris Siqueira e Rogério de Campos. Veneta (128 págs., 99,90 reais)

Criador de personagens como Fritz the Cat (que ele mataria após o gato se tornar uma celebridade), Mr. Natural e do clássico Keep on Truckin, de 1968, símbolo da contracultura, o cartunista construiu uma obra que expôs, com humor ácido e desconfortável, as contradições de sua época.

Tempos Modernos dialoga diretamente com o clima de paranoia, desinformação e polarização dos dias atuais. No livro, vemos o artista, com 82 anos, diante de um século que parece ter confirmado muitas de suas críticas. Entre a pandemia de Covid-19, o isolamento e o turbilhão das fake news, a família Crumb transforma a experiência cotidiana em histórias marcadas por humor, franqueza e um olhar implacável sobre o mundo contemporâneo.

Mas, na análise do editor da Veneta, o cartunista norte-americano, que hoje vive na França, está longe de ser apenas um cronista do presente. Ele se insere numa tradição crítica norte-americana que atravessa séculos. Sua obra dialoga com uma linhagem que vai de Henry ­David Thoreau a Mark Twain, passando por nomes como John Reed e Jack London.

“Crumb carrega a lembrança de tudo isso e encontra seu lugar fora da cultura contemporânea”, afirma Campos. Ao recusar o culto da celebridade e a adesão acrítica às novas tecnologias, o cartunista preserva uma posição rara: a de observar, com distância e acidez, as transformações do seu tempo.

Crumb chegou à idade adulta no fim dos anos 1960, quando os Estados Unidos ferviam com a contracultura, a libertação sexual, o uso de psicodélicos e a contestação política. Mas seu olhar vinha de antes. Nascido na Filadélfia, em uma família pobre e problemática, cresceu à margem do sonho americano, que viu se dissolver por entre os dedos enquanto desenhava personagens deformados, mulheres de proporções exageradas e um mundo para lá de esquisito.

Quadrinhos underground. Nos desenhos de Crumb, corpos são retorcidos, desejos aparecem sem filtro e o tão falado “sonho americano” surge como caricatura – Imagem: Redes Sociais Editora Veneta

Da infância atormentada aos primeiros ácidos na Califórnia, ele ganhou fama circulando com seu terninho e chapéu caretas, ao lado de nomes como Janis Joplin, de quem ilustrou a capa do antológico disco Cheap Thrills, de 1968.

Foi nesse ambiente alucinado que Crumb ajudou a moldar os chamados quadrinhos underground, publicações independentes que desafiavam a indústria com tudo o que era considerado impróprio: drogas, neuroses, sacanagens de todos os tipos e muitas críticas à política e à religião. Em seus desenhos, corpos são retorcidos, desejos aparecem sem filtro e o tal “sonho americano” surge como caricatura de si mesmo.

Décadas depois, o impacto dessa linguagem ainda reverbera. A cartunista ­Laerte Coutinho, considerada uma das principais vozes dos quadrinhos brasileiros, lembra do choque ao entrar em contato com a obra de Crumb, ainda nos anos 1970.

Ao recusar o culto da celebridade e a adesão acrítica às novas tecnologias, o cartunista preserva o posto de observador do seu tempo

“Eu fiquei muito impressionada com o traço dele, com as referências ao mundo da ilustração comercial de épocas antigas, dos desenhos animados”, diz Laerte. “O modo como ele misturava essas coisas todas e obtinha um resultado único me impressionou muito. Dava vontade de fazer igual.”

A inspiração na obra de Crumb é evidente na arte de Laerte. Seus quadrinhos frequentemente enveredam pela sátira política e a crônica do cotidiano. “A abordagem de temas proibidos, inconvenientes ou constrangedores, e o uso de grafismos e estéticas inesperadas foram as coisas que me encantaram na época”, diz a cartunista. Questionada se esse humor ainda tem lugar, ela diz acreditar que sim. “Apesar da maior vigilância e controle, as possibilidades de publicação de conteúdos aumentaram.”

Se a leitura de Laerte aponta para um ambiente mais complexo, o cenário retratado por Crumb parece ter se adensado. O mundo se aproxima, cada vez mais, do tipo de distorção que ele expõe há décadas, como se sua caricatura iconoclasta tivesse, enfim, alcançado a realidade. •

Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Robert Crumb contra Trump’

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