Rincon Sapiência vai na realidade da periferia em 1° trabalho do ano

Nova música do rapper expressa o cotidiano difícil na 'quebrada', onde 'sobreviver é uma arte nesse holocausto'

Foto: Jef Delgado/Divulgação

Foto: Jef Delgado/Divulgação

Cultura

O rapper Rincon Sapiência pisa fundo no quarto single que lança na pandemia e o primeiro do ano. “Nóis segue a meta porque a meta é recuar jamais”, abre a música, que ganha força na letra em sua segunda parte.

“Vejo meu povo trabalhando todo mundo exausto / Felicidade tá em falta eu vou querer meu lote / Sobreviver é uma arte nesse holocausto / Sorrir no anonimato ou sofrer nos holofotes”, diz em uma das estrofes.

E segue: “Quem é quebrada todo dia tá na correria / Tem gente que tem tudo, mas só vive dando trote / O pai pagando faculdade muita calmaria / Mas não estuda e passa o tempo bebendo no bote”.

O jogo de palavras com objetos de marca – como demonstração de ostentação – segue em seu novo trabalho. “Cheio de marca nessas roupas isso custa é caro / Se não tem grana pra comprar pode ficar tranquilo / Quem nasce no berço de ouro o dinheiro compra / Mas veja bem quem é maloqueiro é que tem estilo”.

No novo single, chamado Cotidiano, Rincon Sapiência usa referências de motocicleta para “costurar” a música (no refrão fica claro isso), desde utilizá-las em partes da letra como para fazer alguns efeitos na música. O uso de moto se deve ao fato de ser algo comum na “quebrada”, diz o rapper.

“Essa (nova) música tem a mensagem de levar apoio a pessoas da periferia, mas é uma música para se divertir também”, diz. “Nesse single, falo do que sempre digo em minhas músicas: da periferia, da rotina. Mas tem algo de superação. Tem um balanço legal e, ao mesmo tempo, uma letra forte que condiz com o momento”.

Diferente de outras músicas em que lançou recentemente, ele considera o trabalho mais de superação. “Como nos últimos lançamentos apresentei outras narrativas, queria trazer algo mais sólido. Essa música também traz impulso de alívio às pessoas”, diz.

“Tanto a parte instrumental como a ideia de uma mensagem que impulsiona as pessoas, isso já é algo que tem acontecido na música e principalmente no funk. Eles chamam isso de funk consciente. É uma BPM (batidas por minuto) um pouco mais lenta, o que dá vazão ao que você está falando. Tem uma harmonia num clima mais emocional”.

 

 

Sobre a pandemia, diz que por causa de questões financeiras, muita gente precisa seguir “a praxe” de ir trabalhar. “Tem pessoas que vivem numa realidade que não tem como abrir mão disso”.

Rincon Sapiência deve lançar outros singles ao longo do ano e deixar um novo álbum, que seria o terceiro da carreira, para o próximo.

O rapper lançou, em 2019, Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps, e, em 2017, Galanga Livre. Seu trabalho é marcado pela versatilidade em dialogar com outros ritmos, letras bem conduzidas sobre a realidade social e afetiva da periferia e harmonias mais leves e bem cuidadas no universo do rap.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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