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Refazer os laços

Em novo livro, Celso Amorim revisita a complexa aliança dos países sul-americanos e analisa o futuro das relações

Testemunha. O ex-ministro tece considerações sobre a região a partir de uma posição privilegiada - Imagem: Renato Luiz Ferreira e iStockphotos
Testemunha. O ex-ministro tece considerações sobre a região a partir de uma posição privilegiada - Imagem: Renato Luiz Ferreira e iStockphotos
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Durante a maior parte de sua vida como país independente, o Brasil esteve de costas para seus vizinhos sul-americanos. Fatores diversos –políticos, econômicos, culturais e linguísticos – podem ser invocados para explicar, ao menos em parte, essa postura que contaminou a diplomacia brasileira por décadas até anos muito recentes. Mas, para sermos justos, não cabe atribuir somente a nós essa distância – os dez países que fazem fronteira com o Brasil – além do ­Chile e do Equador – também nutriram suas reservas a uma maior aproximação com o “gigante”. A fim de superar essa brecha histórica entre vizinhos, o caminho tinha de ser criar laços de confiança, expressão ­aliás muito cara às relações internacionais.

Laços de Confiança – O Brasil na ­América do Sul é o título tão sugestivo quanto, até certo ponto, auto explicativo, do novo livro do embaixador Celso Amorim. Na sua trajetória, Amorim chefiou missões diplomáticas bilaterais e multilaterais das mais destacadas (representações no Reino Unido e na ONU em Nova York e em Genebra) e foi chanceler de Itamar Franco (1993-1994) e Lula (2003-2010), além de ministro da Defesa de Dilma Rousseff (2011-2015). Para quem não sabe, ele superou o icônico Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, em número de dias à frente do Itamaraty, feito impressionante. É a partir dessa vasta, rica e multifacetada experiência diplomática que o livro, com quase 600 páginas, apresenta ao leitor um roteiro que inclui todos os países da América do Sul – Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Caricom (grupo de países do Caribe). Cada nação funciona como um capítulo e pode ser lido de forma independente no livro. Ao adentrarmos o universo apresentado por Amorim, percebemos, porém, a teia de relações que vinculam cada país aos demais, em laços que se cruzam e entrecruzam e se fortalecem no movimento de concertação que o Brasil contribuiu sobremaneira para tecer.

LAÇOS DE CONFIANÇA – O BRASIL NA AMÉRICA DO SUL. Celso Amorim. Editora Benvirá (592 páginas, 79,90 reais)

Por meio de notas datadas com dia, mês e ano, que o embaixador afirma não serem de um diário, mas de registros periódicos, a narrativa se constrói para situar o leitor em diversas passagens da diplomacia brasileira em trabalho de construção de uma América do Sul mais integrada e que, por meio da diplomacia presidencial, se tornara um território de ambições e projetos compartilhados com os demais mandatários. Contudo, essa narrativa traz, igualmente, conflitos e disputas nas relações bilaterais dadas por um elemento estrutural dessas relações sul-americanas – a assimetria existente entre o Brasil e os demais. Ciente dessa condição desproporcional do Brasil em face dos parceiros, e de seus riscos hábeis a gerar receios, temores e ferir suscetibilidades dos líderes e contrapartes dos vizinhos, Amorim ensina – essa é a melhor palavra que me ocorre para qualificar o que se lê na obra – a diplomacia da compreensão, da tolerância e do espírito de cooperação ativa para o trabalho lento, sistemático, paciente e determinado a não só criar, mas sustentar os laços de confiança mútua.

O livro está, no entanto, longe de ser uma narrativa descritiva, genérica e aborrecida de um servidor do Itamaraty. Longe disso: com conhecida verve, Amorim oferece um texto saboroso, vivo e irônico, quanto mais por revelar situações desconhecidas a envolver personagens da política e da diplomacia sul-americanas – de presidentes a ministros –, com detalhes sobre suas personalidades e os episódios vividos pelo narrador. Aliás, há vários trechos em que o texto deixa de lado a classificação dos documentos secretos e cede lugar ao tom de confidência, cujo interesse certamente extrapola o público brasileiro e dialoga frente a frente com a trajetória política e diplomática de nossos vizinhos. As conversas com a Argentina sobre a reforma do Conselho de Segurança, as negociações sobre o gás com a Bolívia envolvendo a Petrobras, a amizade e a parceria recheadas de conflitos com a Venezuela de Hugo Chávez, a questão das bases norte-americanas na Colômbia e o conflito deste país com o Equador, para citar alguns temas, revelam uma parte da história das políticas externas sul-americanas que está relatada no livro.

Cada página é uma descoberta do que os países da América do Sul foram capazes de fazer em tão pouco tempo – o fortalecimento do Mercosul, a criação da União das Nações Sul-Americanas ­(Unasul), em 2008, e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em 2010, esta última em parceria com o ­México e os países centro-americanos, além da cooperação em foros multilaterais da ONU. O livro de Celso ­Amorim seria bem-vindo em qualquer tempo pela riqueza que representa em termos de informação testemunhal privilegiada e análise aguda de período áureo da diplomacia sul-americana, feito por um diplomata-estadista. Ele chega, porém, num momento crítico de nossa história. Parafraseando a letra da bela música Querelas do ­Brasil, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, no tempo presente “O Brazil não (re)conhece o Brasil”. O Brasil com “s” vive seu pior momento desde a redemocratização e o Brazil com “z” está isolado e irreconhecível em sua nova identidade de pária internacional. Quem duvida de que os laços de confiança na América do Sul precisam ser refeitos? Pois eles existiram e podem ser melhor conhecidos, contemplados e admirados na obra do embaixador Amorim. Em tempo: qualquer negação desse fato é ­pura fake news. •


* Professor-associado e coordenador da Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFABC.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1214 DE CARTACAPITAL, EM 29 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Refazer os laços”

 

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Gilberto M. A. Rodrigues
Professor-associado e coordenador da Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFABC.

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