Reedição de Monteiro Lobato: ‘O que eles defendem é o direito de ofender e desumanizar’

Supressão de termos racistas da obra do escritor é criticada por bolsonaristas. O escritor Alê Santos rebate: 'Ninguém quer queimar livros'

Escritor Monteiro Lobato. (Foto: Reprodução)

Escritor Monteiro Lobato. (Foto: Reprodução)

Cultura,Diversidade,Educação

‘Beiçuda’, ‘um frangalho de nada’, termos comuns no vocabulário do escritor Monteiro Lobato para se referir a pessoas negras em suas obras. Nesta semana, ao completar 100 anos do livro ‘A menina do narizinho arrebitado’, a discussão sobre a exclusão sobre termos racistas da obra foi retomada.

 

 

O secretário de Cultura, Mario Frias, se manifestou ao relembrar a infância dizendo que o caso era uma ‘vergonha’. Já Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, chamou a mudança de ‘mutilação’. 

“Essa defesa dessa genialidade [de Monteiro] pode parecer, nem que toda essa defesa seja, mas ela pode parecer uma defesa da supremacia porque a gente vê acadêmicos e lobatistas reivindicando o direito de chamar uma criança negra de macaca ou de falar que uma menina preta é uma beiçuda de lodo porque é exatamente isso que está na obra de Lobato, o que ele disse em várias passagens no Sítio do Picapau Amarelo”, pontua o escritor e roteirista Alê Santos. 

E complementa. “Liberdade de expressão é diferente de crime, antes de 1988, racismo não é crime e hoje é. Uma outra é liberdade individual, você pode comprar livros na biblioteca, ninguém está falando em queimar livros do Monteiro e excluir ele de toda história”. 

Ao mesmo tempo que se discutido a importância de Monteiro para a literatura, avalia, escritoras como Conceição Evaristo são suprimidas da Academia Brasileira de Letras e artistas como Elza Soares e Gilberto Gil são excluídas da Fundação Palmares.

 

Entenda o histórico

Em 2010, foi feita uma denúncia ao MEC em relação ao livro Caçadas de Pedrinho, protocolada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Educação. No livro Lobato escreve a seguinte frase: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”.

O parecer do Conselho Nacional de Educação chegou até o STF, que em 2011 rejeitou a exclusão dos livros das escolas pública e surgiu um novo parecer, o nº 6/2011 que estabeleceu que os sistemas de ensino devam orientar suas escolas para a educação das relações étnico-raciais, o que ainda causa discussões da sua aplicabilidade. 

Mas além dos termos usados em suas obras, Lobato também defendia o chamado ‘racismo científico’, no qual autores das mais diversas áreas argumentavam sobre uma suposta inferioridade da pessoa negra. Isto é mostrado no estudo ‘Raça e a Eugenia de Lobato’, realizado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) que analisa historicamente a posição do autor, sobretudo com a publicação do ‘Presidente Negro’.

Originalmente conhecido como O Choque das Raças ou O Presidente Negro, o romance trata de eleições no contexto americano, onde a disputa entre candidatos possibilita a eleição do candidato negro. O que foi considerado um erro para o autor, que escreveu:

“A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O Negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável penhora de caráter”

Sem sucesso ao tentar a publicação do livro nos Estados Unidos, Lobato escreveu uma carta reclamando ao escritor e amigo Godofredo Rangel (1884-1951), afirmando que “Errei vindo cá tão tarde. Devia ter vindo no tempo em que linchavam os negros”. As cartas foram publicadas no livro A Barca de Gleyre. 

Alê Santos, pontua que a defesa de Mario Frias e Sergio Camargo reforçam um desconhecimento do debate da literatura e cultura. “O Lobato provavelmente com esse histórico de militante do racismo, ele provavelmente gostaria de esterilizar o Sérgio Camargo, porque é isso que ele escreve no livro Presidente Negro. Depois que um presidente negro chega ao poder, a população branca escreve um plano para sua esterilização”.

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Estagiária de CartaCapital

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