Quem ama é rei

Cultura

Parei de mastigar meu lanche porque o casal me chamou a atenção. Observar atentamente as pessoas é um de meus esportes favoritos. Vinham pelo corredor do shopping disfarçados de casal comum, um casal de seus 45, 50 anos, como tantos que fogem do calor procurando ambiente mais fresco.

Uma camuflagem simples, com tonalidades de roupa esportiva. Mas seus disfarces não me enganaram e logo percebi que havia neles muita coisa de especial.

A começar pelo aspecto físico, o visível e que primeiro se percebe. A semelhança dos dois era impressionante. Não fosse o corte diferente do cabelo e os trajes que vestiam, poderiam enganar-nos, fingindo que eram dois em um.

O sorriso que estampavam nos olhos e nos lábios era o mesmo.Provavelmente, mesmo sem que falassem, sorriam dos mesmos pensamentos. Mas não era mesmice.

O convívio e o amor nos moldam as feições. Havia uma aura em torno de suas cabeças que bem logo percebi. Suas mãos vinham grudadas e os corpos unidos. Ambos navegavam com o nariz levemente erguido, pois quem ama sempre se sente um pouco rei.

Não nos davam a menor atenção, a nós, seus súditos. Ali, naquele corredor largo entre as lojas, tenho certeza de que eles se bastavam. 

Outros casais passaram, a mim, porém, pareciam apenas duas pessoas, mais nada. Ah, sim, porque o amor é palpável e visível, e mesmo que uma criança esteja servindo de ponte entre duas pessoas de sexos diferentes, se o amor não está visível é porque já se desgastou na rotina da vida, ou nunca existiu.

Contornaram as mesas da praça de alimentação, fizeram seus pedidos e foram esperá-los lá no fundo, onde sentaram de frente um para o outro. De vez em quando moviam os lábios, e, de longe, descobri que suas palavras eram coloridas e perfumadas.

Então continuavam seus assuntos com os olhos apenas, e com os dedos, que se cruzavam em cima da mesa. Meu lanche, um sanduíche tentador, dormia esquecido, pois não desejava perder um só momento daquela cena amorosa.

Mas eu sou regido por compromissos e horários e, subitamente, me lembrei de que já deveria estar bem longe dali. Então, finalmente, terminei meu lanche e me levantei para sair. Eles continuavam esperando, mas sem a menor impaciência.

O tempo todo da vida que esperassem, foi o que imaginei, era o tempo de se terem um ao outro. E o tempo todo da vida, quando se ama, não é mais pesado que a asa de uma borboleta. 

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