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Quarto Camarim: uma cineasta apaziguando traumas do passado

Cultura

A baiana Camele Queiroz usa o cinema como forma de se reaproximar da tia travesti sumida havia 25 anos

O longa-metragem Quarto Camarim tinha tudo para dar errado. Concebido como um curta, o filme começou a ser rodado mesmo sem ter a certeza da participação da personagem principal. A diretora baiana Camele Queiroz queria registrar seu reencontro com o tio Roniel. Mas 27 anos se passaram desde que os dois se viram pela última vez, e Roniel se chama agora Luma Kalil, uma travesti que é cabeleireira e performer.

Há dois anos, quando as gravações começaram, a equipe de Camele não contava com recursos nem era um projeto que merecesse ser chamado assim – apenas a máxima glauberiana de “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. Mesmo vencida a etapa de convencimento, Luma desistiu três vezes durante a produção e chegou a pedir para que a sobrinha abandonasse para sempre o documentário.

Quarto Camarim é fruto da obstinação de uma cineasta para apaziguar traumas do passado. Camele tinha de 5 a 6 anos e passava horas admirando o quarto que, em sua imaginação, se parecia com o camarim de uma diva. Para ela, Roniel era um tio afetuoso, que lhe passava batom e penteava seus longos cabelos. Mas os dois tiveram de se afastar após o rompimento entre o conservador pai de Camele e o irmão que fazia apresentações em boates.

Era o ano de 1987, e poucas travestis ousavam vestir saia em público, como fazia Luma – nome já então escolhido por Roniel – em Feira de Santana (BA).

Se a vida é feita de relações, Camele e Luma perderam parte dela ao terem de se distanciar de forma abrupta. E é nesse jogo de sentimentos desconhecidos que voltam à tona, com forte carga emocional, que Quarto Camarim se firma.

“Há uma questão ética e moral, porque, mesmo sabendo que havia essa vontade anterior de vê-la novamente, eu precisava antes resolver isso em mim”, afirma a diretora. “Até certo momento não sabia se queria reencontrar minha tia ou se era só para fazer um filme.” Camele admite que, se não fosse o cinema, não teria coragem de buscar o reencontro. Luma deixa de ser um objeto para virar um sujeito de fato para Camele.

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O processo de filmagem adota uma abordagem documental com métodos ficcionais. Camele juntou-se a Fabricio Ramos, com quem assina a direção, para ir atrás da personagem perdida. Antes de filmar o reencontro, a diretora reuniu-se previamente em duas ocasiões com Luma. Foi a forma que encontrou para aparar as arestas da intrincada relação familiar.

Ela sabia que havia muitos ressentimentos no ar e o objetivo não era produzir uma obra dramática. O pai de Camele diz, no documentário, que não faz questão de ir ao enterro dos “parentes”, enquanto Luma afirma, em entrevista, que não gosta mais do irmão. Resolvidos os impasses iniciais, a equipe viajou até São José dos Campos, no interior paulista, para gravar o reencontro. “Foi na base do estilo de desbravamento. Nosso cinema era com a realidade acontecendo”, descreve Ramos.

Os diretores queriam fazer um filme de mediação entre sobrinha e tia, cineasta e personagem. Ambas aparecem em diálogos que começam formais, banais, frios ou nada emocionantes. Mas é nas sucessivas trocas entre as duas que o documentário salta da tela, ampliando e amplificando o sentido de temas relevantes da sociedade, e muitas vezes tabus, como os afetos e as rejeições familiares, as questões de gênero e sexualidade, o preconceito contra as minorias entre as minorias, as diferenças geracionais e de classes sociais.

Os diretores não queriam cair no experimentalismo nem seguir os protocolos convencionais dos documentários. 

Quarto Camarim está longe de ser um filme militante, e nem pretende levantar algum discurso dessa natureza. A condição de travesti é fundamental na obra, mas Luma, no filme, não parece querer debater essa questão. Ela prefere o espetáculo, os holofotes que estão simbolizados nas performances de dublagem que realiza em cabarés e boates.

“Um homem que bota peito tem coragem. Só Jesus sabe o que passei, e um pouco minha mãe”, declara Luma para Camele. Em entrevista a CartaCapital, Luma afirma que ficou feliz com o resultado final, e que saber que sua história será conhecida por mais pessoas é “uma forma de subir no palco” mais uma vez. “Espero que, pelo filme, saibam que há sempre um outro lado. Hoje tem ONGs, mudança de sexo e de nome, paradas gays. Mas antes era muito difícil ser travesti, ninguém podia ser, ainda mais em Feira de Santana.”

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O filme já foi exibido em festivais internacionais do Canadá, da Venezuela e da República Dominicana. No Brasil, percorrerá 13 capitais pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), com passagens por Goiânia, São Luís, Florianópolis, Belo Horizonte e Salvador. Em São Paulo, haverá uma sessão única no CineSesc, às 20h30 do dia 30 de abril.

O documentário foi contemplado no programa Rumos Itaú Cultural 2015-2016, iniciativa marcada pelo incentivo a obras que saem do script do comércio de grandes produções artísticas. Naquela edição, mais de 12 mil projetos chegaram à comissão de seleção e apenas 100 foram aprovados, Quarto Camarim entre eles. “Desde o processo de seleção, esse filme sensibilizou a comissão, porque havia um forte apelo emocional e não sabíamos como seria essa aproximação. Era um projeto de difícil execução”, afirma Mayra Koketsu, produtora cultural do instituto.

“Assumimos riscos”, completa Mayra, reforçando que muitas temáticas, como as de negros, índios e minorias, têm sido selecionadas, assim como áreas ausentes de outros editais culturais, como o circo. O programa  já contemplou mais de 1,3 mil projetos de todas as cinco regiões brasileiras, e um total de 28,5 milhões de reais foi distribuído nas duas últimas edições.

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Editor de Cultura de CartaCapital.

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