Cultura
Quando o cometa Halley passou
No romance de Maria Brant, três crianças vivenciam o luto pela perda de um familiar e o fim da ditadura no Brasil
O ônibus espacial Challenger explode após a decolagem, nos Estados Unidos; a usina de Chernobyl protagoniza o pior desastre nuclear da história, na Ucrânia soviética; o cometa Halley deixa o mundo atento ao céu por causa de sua passagem.
O ano é 1986, a Guerra Fria dita a política internacional e influencia também os debates no Brasil. O País respira mais livre após o fim da ditadura, mais exilados retornam do exterior e, em novembro, ocorrem as eleições gerais.
Este é o pano de fundo do romance O Ano do Cometa, o primeiro de Maria Brant. Com sua narração singular, o livro acrescenta um necessário frescor à literatura contemporânea brasileira.
A leitura precisa ser atenta para não deixar escaparem detalhes sutis de uma história vivida por uma criança, mas relembrada por uma adulta. Somados à estratégia narrativa ímpar, são esses detalhes que desnudam as narrativas dos adultos para as crianças.
A proporção histórica dos episódios de 1986 não sufoca, porém, os pequenos acontecimentos da vida familiar de três garotas de classe média em São Paulo: Íris, Rosa e Violeta. As três integram famílias politizadas à esquerda, o que, naquele contexto, não era inofensivo.
Os dramas da perda de um ente querido e as dinâmicas familiares ocorrem simultaneamente às brincadeiras de criança de Íris e Violeta e a adolescência de Rosa, exatamente como é a vida.
O mundo não dá folga para que cada uma das garotas possa processar a morte do Tio Pedro, cada uma à sua maneira. A falta de respostas para perguntas que nem sequer foram feitas sobre conflitos latentes aproxima O Ano do Cometa do romance A Vida Mentirosa dos Adultos (2019), da italiana Elena Ferrante.
O Ano do Cometa. Maria Brant. Fósforo (160 págs., 84,90 reais)
O procedimento narrativo adotado por Maria Brant é um dos pontos altos da obra. Há dois tipos de narração ao longo do livro: uma em terceira pessoa, cujo ponto de vista é próximo sobretudo das primas Íris e Rosa; outra em primeira pessoa que, delicada, parece querer permanecer oculta, mas dá sinais muito sutis que indicam tratar-se de Violeta.
Por causa da idade, Íris e Violeta são mais próximas, compartilham brincadeiras onde são espiãs que produzem relatórios de atividades sobre pessoas vigiadas. “Íris adora os sábados na casa de Violeta, aqueles almoços que não terminam, os adultos na mesa até escurecer”, conta o narrador.
Íris é filha de Cecília. Sua mãe é irmã dos gêmeos Pedro e Carlos. Pedro é o tio que morreu; Carlos é o tio que estava exilado. Íris é prima de Rosa, que é filha de Carlos. Rosa precisa adaptar-se ao Brasil depois de ter vivido na França e nos Estados Unidos. Com seu irmão, aprendeu a contar a história sobre uma suposta vida diplomática do pai. “Rosa finalmente perdeu o sotaque e não gosta de dar motivo para lhe perguntarem de onde veio. A esta altura, ela já contou A História Deles tantas vezes que parece ter lembranças daquela outra vida que não existiu, e suas mãos ainda suam com medo de que perguntem algo que ela não saiba responder”, diz o narrador.
As circunstâncias da morte de Pedro, que entristece as três garotas, vão sendo desveladas de forma engenhosa pela autora. Enquanto os adultos sofrem recorrendo ao álcool, brigas e longos silêncios, as meninas possuem menos recursos para lidar com a perda.
O romance é dividido em partes como um calendário de 1986, de janeiro a dezembro daquele ano. É apenas no tempo futuro, com as três personagens adultas, que a morte de Pedro ganhará uma explicação concreta. É também nesse tempo futuro que Violeta revela ao leitor saber mais do que Íris e Rosa sobre os acontecimentos do passado. •
VITRINE
Por Ana Paula Sousa

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Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Quando o cometa Halley passou’
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