Cultura

Qualquer hora

É possível viver em sociedade apenas falando as verdades?

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Faz parte de nossos hábitos sociais sentir prazer com encontros fortuitos, prazer sincero mas passageiro. Não via o Agenor desde os tempos do ginásio, quando fomos companheiros até em algumas artes, e o encontrei na calçada, de terno e gravata, pasta zero-zero-sete na mão, rosto suado, chegando do fórum, onde fora liberar alguns documentos de seu cliente.

Mais gordo, ah, sim, bem mais gordo, e mais alto. Cresceu mais do que eu, o Agenor. Foi um prazer tê-lo encontrado, enfim, estudamos juntos, na mesma classe, falamos mal dos mesmos professores. Mas nada mais existe de comum entre nós, se é que algum dia existiu. Notícias vagas, casuais, dada por amigos comuns, davam conta de que se tornara advogado. Se não me engano alguém informou que estava casado. Ao nos despedirmos, ele sugere, depois de me dar um cartão: “Apareça lá em casa.”

“Apareça lá em casa” já é uma fórmula de cortesia, apenas isso. Quando usamos a fórmula, na verdade, estamos tão-somente demonstrando que somos civilizados, que conhecemos as regras do bem-viver. Principalmente quando o endereço não acompanha a fórmula.  

Nossa resposta invariável: “Qualquer hora eu apareço.”

E não nos lembramos de perguntar onde fica a casa dele, nem precisamos saber. Pronto, as regras do relacionamento humano civilizado estão cumpridas. “Qualquer hora” significa exatamente que não vamos aparecer, mas que não desconhecemos a fórmula. “Qualquer hora” é o mesmo que hora nenhuma. Ou, para não radicalizar, pode ser alguma coisa como “se der no jeito”, “se me lembrar” ou “se surgir uma oportunidade”, “se estiver passando casualmente por lá”.

Tudo é jogado para o acaso, porque se depender de vontade, de alguma decisão, ah, só voltarei a encontrar o Agenor daqui a alguns anos, na calçada, e ele, coitado, mal suportando o corpo apoiado em uma bengala. Completamente aposentado, como ocupação apenas cuidar dos netos. Nosso assunto vai continuar sendo os tempos do ginásio: nosso único convívio.

Dele não sei praticamente mais nada, de mim só guardou as molecagens que vivemos em comum. E fica muito admirado por ainda me encontrar vivo, mesmo arrastando os pés na calçada.  

Mas então fico pensando: Não é melhor assim (as relações regidas por umas tantas fórmulas) do que a maneira oposta daqueles que alardeiam com orgulho: “Eu digo tudo que penso.”

E saem pelo mundo pisando em pés alheios, contentes de não sentir a dor do pé pisado. Cinismo, hipocrisia, dirão alguns, mas é possível o convívio em sociedade sem algumas pitadas desses temperos?  

CartaCapital
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