Profundidade

Cultura

Alguém há de reclamar (pois de reclamões o mundo anda cheio): “Mas este cara não aprofunda os assuntos que aborda! Ele nunca ultrapassa a epiderme das questões!” Pois bem, antes que apareçam outros reclamões (pois venho sendo acusado sistematicamente de superficial), procuro explicar-me.

A crônica, por definição, é superficial. É uma abordagem leve, digerível de um assunto, sob a óptica pessoal do cronista. É sua opinião sobre fatos, costumes, valores. Segundo mestre Aurélio, em uma entre tantas definições, a crônica “… é um texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou ideias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo etc., ou simplesmente relativos à vida cotidiana.”

No ensaio exige-se um desenvolvimento mais amplo e profundo, mas o ensaio pertence a outro departamento. Bem próximo do ensaio, mas sem a dureza de sua linguagem, fica a crônica de assuntos específicos, como a crônica esportiva, a crônica política e outras mais. Dessas, exige-se um maior grau de fidelidade aos fatos e, pelo menos, algum conhecimento acima da média do assunto tratado.  

E ainda há aqueles para quem a crônica é notícia. Alguém no passado, um desses reclamões, me acusou de não ter investigado um fato em seus vários aspectos, como deve fazer o bom repórter. Tive de explicar tudo isso aí em cima, mas in box, coisa com que agora me defendo publicamente.

Além dos aspectos definidores da crônica, invoco em meu favor uma questão particular para minha superficialidade: o espaço, em jornal, já vem determinado. Não é o cronista quem determina a extensão do que escreve, o espaço que deve ocupar.

As crônicas nunca são muito extensas, mesmo assim as minhas são das menores. Aqui tenho maior liberdade, mas o cachimbo entorta a boca, não é mesmo. Estou preso entre dois mil e quinhentos caracteres mais ou menos (antigamente se dizia toques). Um formato que enquadrou meu cérebro. Em crônica só sei pensar dentro dessas medidas. 

Mas não me queixo. Com esses caracteres à disposição, vou tentando provocar aqui e ali uma reflexão, vou apontando de vez em quando uma faceta invisível do ser humano para o próprio ser humano, justamente por ser humano. E em dias de céu azul ou em noites estreladas, posso até distraidamente criar alguma beleza e provocar alguma emoção.

Pode ser pouco, mas a vida também o é. Pelo menos é o que diz o pai da língua portuguesa, o genial caolho, pondo as palavras na boca daquele Jacó trapaceado por Labão: “Começou a servir outros sete anos,/ Dizendo: Mais servira, se não fora/Para tão longo amor tão curta a vida.”   

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