Produtora de filmes de baixo custo lança longa do Mombojó na TV

Quixó Produções, de Luan Cardoso, de 26 anos, completa uma década de trabalhos audiovisuais de limitados orçamentos e muita luta

Luan Cardoso. Foto: Divulgação

Luan Cardoso. Foto: Divulgação

Cultura

Em uma arte na qual os equipamentos são caros e a produção idem, fica difícil imaginar que alguém tão jovem, filho de casal de migrantes nordestinos e vivendo com dois salários mínimos pudesse investir numa produtora de audiovisual. Mas foi o que Luan Cardoso fez. Dez anos depois, o projeto acumula lições e prêmios com produções de baixíssimo orçamento.

Para comemorar esse período de luta, a Quixó Produções lança seus dois primeiros-longas-metragens autorias. Um de ficção, o Ménage, que ainda percorre alguns festivais pelo mundo antes de ser lançado nas salas de cinema (se elas reabrirem) até o final do ano.

No Lisbon Cine Festival 2021, o projeto cinematográfico levou o prêmio de “Melhor Filme de Baixo Orçamento”; do grego Athens International Montly Art Film foi escolhido o filme como “Melhor Roteiro Original” e no 5º Festival Rio Fantastik ganhou o “Cramulhão” de “Melhor Filme”, “Melhor Diretor” e “Menção Honrosa de Melhor Ator”. Ménage é um longa-metragem em que políticos se envolvem em uma trama de sexo, corrupção e traição.
No dia 1º de maio, estreia o outro longa-metragem, o Deságua, no canal por assinatura Music Box Brazil. O filme é uma parceria com o Mombojó e reúne clipes da banda lançados recentemente pelas redes sociais com material inédito. Os clipes reunidos contam uma história: a saga de um pai que, após a morte de sua esposa, sai do Nordeste e chega a São Paulo com os dois filhos para tentar a sorte. O longa tem as participações de vários músicos, como Lenine e Guilherme Arantes.

“Estávamos com 12 músicas para serem lançadas. Fizemos o primeiro clipe. A ideia era lançar um clipe a cada mês. Depois da primeira realização, Luan Cardoso resolveu fazer um longa-metragem em que cada clipe seria um trecho do filme. Achamos a missão praticamente impossível, mas somente um cara como ele poderia fazer”, conta Felipe S., voz e guitarra do Mombojó.

 

Resiliência

Deságua e Menage foram realizados sem qualquer incentivo. Luan Cardoso conta que desde 2015 vem participando de editais de longa-metragem, mas nunca conseguiu entrar. Essa é apenas uma fase da luta que começou bem antes.

O trabalho com audiovisual teve princípio com amigos de uma escola aos 15 anos em São Paulo (Luan nasceu em Guarulhos). Inicialmente, com a produção de pequenos curtas de 2010 a 2012, ganhou prêmio e conseguiu juntar algum dinheiro, comprando equipamentos de segunda mão.

“Estava apaixonado perdidamente pelo cinema. Mas o orçamento apertado da família era difícil. Na escola fui tentar viabilizar essa maluquice de trabalhar com audiovisual”, diz.

Foi da experiência da família, de viver com pouco, que tirou ensinamentos para crescer no cinema. No Nordeste passou uma temporada, quando seus pais tentavam a sorte de novo na terra de origem. Por lá, aprendeu que não precisava ser pirotécnico para expor a arte.

No retorno para São Paulo, vivendo na periferia, tentou a sorte inicialmente com a escrita. Em 2008, Luan e mais três amigos publicam O Segredo dos Amuletos, um projeto coletivo. Dois anos depois, o grupo escreveu um segundo volume e consegue levar até a FLIP.

Mas, em 2010, estudando na Escola Técnica Estadual Carlos de Campos, Luan e os amigos decidiram fazer pequenos filmes, utilizando os equipamentos que tinham à disposição. Era o ponto de partida da Quixó Produções.

No ano seguinte, uma dessas experiências ganhou o prêmio Festival do Minuto. Depois, em 2012, veio o documentário de média-metragem Cine Belas Artes – Consolação, 2423. O documentário sobre Belas Artes, que tinha acabado de fechar na época, teve boa aceitação do público, ganhando a atenção de movimentos ligados à cultura.

A partir daí, partiu para a produção de novos filmes, passando a ter muitos projetos e reconhecimento principalmente do meio musical. Nesses 10 anos, Luan realizou diversos trabalhos como diretor de fotografia, dirigiu e fotografou 12 curtas, mais de 40 videoclipes e várias webséries documentais, incluindo de cultura popular.

Seus projetos nasceram e foram desenvolvidos em sua maioria a partir de parcerias, trocas de trabalhos, pouca grana e muita vontade de ampliar as ideias. Ele diz que a receita para tantas iniciativas foi aproveitar os projetos iniciais na música para propor o desdobramento de outras atividades audiovisuais. O caso do filme Deságua é um exemplo em que ele havia feito clipes para o Mombojó que acabaram se tornando um longa-metragem.

Quixó funciona na casa do Luan Cardoso. Ele chegou a vender algodão doce para ajudar a pagar a produção de filme, além de trabalhar como atendente de buffet. O seu esforço taí. Em novembro, participa na cidade de Lyon do 15° Documental – L’Amérique latine par l’image, com um documentário inédito no Brasil chamado Precárias e Resilientes, sobre a precariedade da vida das mulheres.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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