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Presença notável

Embora sem disputar o Urso de Ouro, o cinema brasileiro teve uma participação de destaque no festival alemão

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Cearenses. Feito Pipa, de Allan Deberton, foi premiado na seção Generation. Eu Fiz um Foguete..., de Janaína Marques, ganhou o prêmio dado por um jornal na mostra Forum – Imagem: Berlinale e Appeal
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O Brasil esteve em toda parte na Berlinale 2026. Nenhum filme disputou o Urso de Ouro, mas o País marcou presença na capital alemã de forma notável: dez filmes, dois prêmios principais na seção Generation, uma coprodução premiada pela crítica e ainda uma série vencedora no mercado.

Quem procurava um perfil do audiovisual brasileiro encontrava não uma marca homogênea, mas um panorama multifacetado. “Um dos motivos pelos quais a Berlinale tem numericamente mais presença brasileira do que Cannes e Veneza é que aqui há lugar para vários cinemas brasileiros”, analisa Eduardo Valente, representante do festival no Brasil. “Tínhamos uma animação, dois documentários, ficções infantojuvenis, ficções históricas, ficções contemporâneas.”

A diversidade brasileira dialoga com o próprio espírito do festival. Entre o tapete vermelho na Potsdamer Platz e a lama de neve derretida diante do Zoo Palast, o festival é um sismógrafo do presente em suas seções para todos os gostos. A diretora do festival, Tricia Tuttle, afirmou na primeira coletiva de imprensa: “Quem não encontrar na programação deste ano um filme que aprecie, não ama o cinema”.

Em tempos em que a importância dos festivais não é mais definida apenas pelo glamour ou pela aura cinéfila, mas por conectividade com mercados e plataformas de streaming, e em um setor que se reorganiza diante da queda de público nos cinemas, os festivais são, a um só tempo, pontos de encontro, bolsa de talentos e máquina de criar reputação.

A despeito de crescer a cada ano o número de negócios fechados em seu pavilhão paralelo – voltado ao mercado –, a Berlinale ainda é o mais democrático dos “Três Grandes”: vende muito mais ingressos ao público geral do que Cannes ou Veneza e coloca conflitos políticos de forma explícita no centro da programação.

Nesse ambiente, o Brasil trouxe seus vários cinemas às mostras paralelas. O principal destaque veio da seção ­Generation­, voltada ao público infantojuvenil, onde quatro dos 18 longas selecionados eram brasileiros. “É um ano muito forte para o Brasil. É perceptível que há muita movimentação no cinema brasileiro no que diz respeito ao público jovem”, disse Sebastian Markt, diretor da mostra.

Nas entrelinhas do entusiasmo, havia certa inquietação com o futuro do cinema no País

O grande vencedor foi Feito Pipa, do cearense Allan Deberton, que recebeu o Grande Prêmio do Júri Internacional e o Urso de Cristal, concedido pelo júri jovem. O filme acompanha Gugu, que, após a demência da avó, vai morar com o pai, que tem uma ideia preconcebida de como seu filho deve ser e se comportar.

Também do Ceará veio Eu Fiz um Foguete­ Imaginando Que Você Vinha, de Janaína Marques, premiado pelo júri de leitores do jornal Tagesspiegel na mostra Forum. A personagem Rosa, durante uma ressonância magnética, imagina reencontrar a mãe que havia sido presa após tentar impedir um feminicídio. A jornada pela memória transforma-se em um processo de cura.

Na seção Panorama, Narciso, de Marcelo Martinessi, uma multicoprodução paraguaia-brasileira-alemã-uruguaia-portuguesa-espanhola-francesa, recebeu o prêmio da FIPRESCI dos críticos de cinema. Ambientado em Assunção, em 1959, o filme gira em torno de um jovem radialista que desafia convenções de uma sociedade ultraconservadora.

“O Paraguai precisa de um apoio internacional por ter uma estrutura iniciante”, explica a produtora Júlia ­Murat.­ “O figurino é brasileiro, o som é brasileiro, a câmera e a assistência de câmera são brasileiras. Fomos para o Paraguai com 20 malas de figurino e dez malas de equipamento de câmera.”

Na competição principal, o cinema do Brasil se sentiu indiretamente representado por Karim Aïnouz, diretor da produção internacional Rosenbush Pruning. Ele disse que, como diretor brasileiro, pode fazer filmes em todos os lugares. “O cinema se tornou muito mais internacional. Muitas pessoas trabalham no cinema e para o cinema, ultrapassando fronteiras. Acho fascinante poder contribuir para que um pouco de oxigênio seja soprado nos filmes do mundo por alguém que vem de onde eu venho”, disse o diretor nascido em Fortaleza e radicado em Berlim.

A diretora norte-americana-brasileira-chinesa Beth de Araújo, cujo filme, ­Josephine, foi um dos que chegaram mais perto de um Urso, segundo a crítica, diz acompanhar os colegas diretores brasileiros. “Assisto a todos os seus filmes e posso imaginar um dia filmar no Brasil”, disse.

Fora da programação oficial, o Brasil venceu no Berlinale Series Market com Emergência 53, do Globoplay e da Conspiração, que recebeu o Studio Babelsberg Production Excellence Award. “As séries brasileiras vão começar a ser descobertas agora”, comemorou o diretor ­Andrucha­ Waddington. “A cinematografia brasileira é muito poderosa há muito tempo. A gente está numa safra muito boa, numa maré muito boa, não tem por que parar.”

Produção internacional. Na competição principal, o Brasil se sentiu indiretamente representado por Karim Aïnouz, diretor de Rosenbush Pruning – Imagem: Redes Sociais

Os troféus conquistados em Berlim confirmam essa vitalidade. A ambivalência do momento é, no entanto, latente. Como Waddington, todos os realizadores presentes no festival não deixam de honrar o impacto internacional positivo do cinema brasileiro. Após o Oscar para Ainda Estou Aqui, todos torcem por O Agente Secreto. Mas, nas entrelinhas do entusiasmo, ouve-se que o audiovisual brasileiro viveu um vazio de sete anos, cujas consequências não podem ser resolvidas em um único mandato de governo.

“Eu não vejo o cinema brasileiro nos próximos dois, três anos voltando para o Oscar”, disse, recentemente, o produtor Rodrigo Teixeira na mostra de cinema de Tiradentes. Teixeira teve sua nova produção, Isabel, de Gabe Klinger, selecionada para o Panorama desta Berlinale.

Kinger diz mais: “Os filmes que realmente representam o cinema do Brasil não são os que estão indo para o ­Oscar”. As produções presentes na Berlinale foram, quase todas, impulsionadas por políticas públicas – não só federais, mas também estaduais, como as vindas do Ceará – e têm orçamentos modestos.

Para Janaína Marques, só esse tipo de apoio permite a diversidade de paisagens e narrativas no cinema autoral brasileiro. Allan Deberton defende que é necessário um calendário estável de editais para que produtoras possam se planejar. Juntando-se ao coro que diz que o apoio público é essencial para que o cinema brasileiro exista, Julia Murat pondera que o entusiasmo internacional não deve esconder – ou turvar – as fragilidades estruturais. •


O climão criado por Win Wenders

O cineasta disse que filmes são o oposto da política. Mas, no fim, o júri presidido por ele celebrou obras claramente políticas

Muitas vezes não são os filmes que causam maior controvérsia na Berlinale, mas as frases ditas entre uma sessão e outra. O centro das controvérsias deste ano foram declarações do cineasta alemão Wim Wenders na coletiva de imprensa de abertura do Júri Internacional, do qual ele foi o presidente. Em resposta sobre o papel do cinema no conflito do Oriente Médio, Wenders afirmou que “filmes são o oposto da política”.

A reação não demorou. A autora indiana Arundhati Roy cancelou sua participação no festival. Em resposta às declarações de Wenders, 80 artistas e profissionais do cinema de diferentes países divulgaram um abaixo-assinado que condenava o silêncio do festival sobre Gaza, reclamava contra a censura a artistas que se expressam sobre o conflito e pedia um posicionamento claro da direção do festival.

Diante da repercussão, a diretora do festival, ­Tricia­ Tuttle, publicou uma nota oficial reafirmando que o festival não impõe linhas ideológicas aos seus convidados. “Não acreditamos que haja entre os cineastas aqui representados alguém que seja indiferente ao que está acontecendo no mundo”, escreveu.

O comentário final da Berlinale foi eloquente ao conceder Urso de Ouro a Cartas Amarelas, de İlker Çatak, e o Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri a Salvação, de Emin Alper, duas obras decididamente políticas.

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Presença notável’

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