Cultura

Portugal sem ostentação

Lisboa vive seu momento, celebridade, mas Portugal guarda, no Porto, uma magia requintada e nada óbvia. Tome assento e peça o belo vinho local

que dizer de uma cidade cujo fascínio maior para o visitante é uma livraria, além, claro, do vinho local? Onde o atrativo urbano não são monumentos imponentes, e sim o incomparável acervo de azulejos antigos?

Uma cidade irremediavelmente fadada a padecer as comparações com aquela outra, calorosa, luminosa, esfusiante, que habita o mesmo país e que é o atual xodó dos forasteiros endinheirados de todo o mundo?

Pois é, quanto mais Lisboa entra na moda, mais imperioso vem a ser não esquecer o Porto, a segunda cidade de Portugal. Tão diferente da capital, em ambiente e temperamento, o Porto tem uma magia só sua. Se Lisboa é sol, o Porto é sombra.

Magia, aliás, que remete à Livraria Lello, construída em 1906 num mix de neogótico e art déco, cujo cenário extravagante inspirou a obra de uma escritora, uma J.K. Rowling, que ali residiu, como professora de inglês, de 1991 a 1993 – exatamente quando ela concebeu a saga de um certo Harry Potter.

Por essas e outras é que a Lello é, hoje, um enxame de turistas que a visitam tendo como último objetivo o de adquirir algum livro, tanto que a casa impôs um limite de 30 minutos para a permanência de cada visitante e um ingresso obrigatório de cinco euros (21,5 reais). Ainda assim, a fila dá volta no quarteirão, do que se aproveitam os invariáveis músicos de rua com seus arranjos de jazz.

Leia também:
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O centro histórico arruinado ganhou um vigoroso make-up, a partir de 2005, incluindo a sofrida Ribeira, bairro popular deitado às margens do Douro, e cafés e bares seculares tornaram-se acolhedores sem perder o charme do passado. A modernidade, no Porto, é de bom gosto.    

Os azulejos – do árabe al zellige, “a pedra polida” – chegaram em Portugal no fim do século XV pelas mãos do rei D. Manuel I. Vieram de Sevilha, onde a cultura mourisca excedera na sua arte. A princípio ilustravam, em dualidade azul e branca, cenas da tradição bíblica.

Logo passaram da religião à História, em reproduções de fatos guerreiros. O magnífico painel do hall da Estação São Bento, de estrada de ferro, glorifica heróis e feitos da pátria lusitana. 

Com o tempo, ganhariam cores aqueles quadrados de cerâmica. O Porto tem amostras de surpreendentes belezas emoldurando até os mais banais dos ambientes. Numa tasca modesta, à sombra de imagens do cotidiano eternizadas em azulejos coloridos, diante de um copo de tinto do Douro e de um capitoso prato de tripas à moda (dobradinha), na expectativa do Porto ruby na sobremesa, eis que você estará saboreando a plenitude da experiência de uma cidade pouco óbvia e muito desafiadora. 

que dizer de uma cidade cujo fascínio maior para o visitante é uma livraria, além, claro, do vinho local? Onde o atrativo urbano não são monumentos imponentes, e sim o incomparável acervo de azulejos antigos?

Uma cidade irremediavelmente fadada a padecer as comparações com aquela outra, calorosa, luminosa, esfusiante, que habita o mesmo país e que é o atual xodó dos forasteiros endinheirados de todo o mundo?

Pois é, quanto mais Lisboa entra na moda, mais imperioso vem a ser não esquecer o Porto, a segunda cidade de Portugal. Tão diferente da capital, em ambiente e temperamento, o Porto tem uma magia só sua. Se Lisboa é sol, o Porto é sombra.

Magia, aliás, que remete à Livraria Lello, construída em 1906 num mix de neogótico e art déco, cujo cenário extravagante inspirou a obra de uma escritora, uma J.K. Rowling, que ali residiu, como professora de inglês, de 1991 a 1993 – exatamente quando ela concebeu a saga de um certo Harry Potter.

Por essas e outras é que a Lello é, hoje, um enxame de turistas que a visitam tendo como último objetivo o de adquirir algum livro, tanto que a casa impôs um limite de 30 minutos para a permanência de cada visitante e um ingresso obrigatório de cinco euros (21,5 reais). Ainda assim, a fila dá volta no quarteirão, do que se aproveitam os invariáveis músicos de rua com seus arranjos de jazz.

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Os azulejos – do árabe al zellige, “a pedra polida” – chegaram em Portugal no fim do século XV pelas mãos do rei D. Manuel I. Vieram de Sevilha, onde a cultura mourisca excedera na sua arte. A princípio ilustravam, em dualidade azul e branca, cenas da tradição bíblica.

Logo passaram da religião à História, em reproduções de fatos guerreiros. O magnífico painel do hall da Estação São Bento, de estrada de ferro, glorifica heróis e feitos da pátria lusitana. 

Com o tempo, ganhariam cores aqueles quadrados de cerâmica. O Porto tem amostras de surpreendentes belezas emoldurando até os mais banais dos ambientes. Numa tasca modesta, à sombra de imagens do cotidiano eternizadas em azulejos coloridos, diante de um copo de tinto do Douro e de um capitoso prato de tripas à moda (dobradinha), na expectativa do Porto ruby na sobremesa, eis que você estará saboreando a plenitude da experiência de uma cidade pouco óbvia e muito desafiadora. 

Julio Simões

Julio Simões
Editor de Mídias Sociais de CartaCapital

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