Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Pitty: ‘Me preocupam a miséria, a população de rua, o descaso com a cultura’

Cantora e compositora cria selo musical e lança EP e documentário de cada faixa: ‘É preciso flexibilidade’

Foto: Otavio Sousa/Divulgação
Foto: Otavio Sousa/Divulgação
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A busca pela reinvenção continua firme na carreira de Pitty. A cantora e compositora baiana, no recém-lançado EP Casulo, traz participações da nova cena, mantendo a inquietação, contemporaneidade e força musical sempre presentes em seus projetos.

O trabalho tem quatro faixas: Diamante (Pitty, Drik Barbosa, Weks – codinome do músico e produtor Daniel Weksler, marido da cantora), Busca Implacável (Pitty, Badsista, Jup do Bairro), Diário (Pitty, Monkey Jhayam, Mau, Bruno Buarque, Cris Scabello) e Simplesmente Fluir (Pitty, Pupillo).

Foi produzido um documentário, chamado Casulo Musical, dividido em quatro episódios de cerca de 20 minutos – cada um aborda os bastidores da gravação e o processo criativo das músicas do EP.

“Sempre quis fazer algo do tipo behind the track, mas de um jeito que todo mundo pudesse entender. Que fosse técnico o suficiente para quem curte ver produção, mas que fosse inteligível para quem não é necessariamente músico”, explica Pitty.

Sem rótulo

Os episódios do filme, disponíveis aos poucos pelo YouTube, contam com a participação dos artistas que compuseram e gravaram as faixas com a cantora no EP: Drik Barbosa, Pupillo, Jup do Bairro, Badsista, Monkey Jhayam e a banda Rockers Control (Mau, Bruno Buarque e Cris Scabello).

“Eu não conversei com a galera antes dos depoimentos. Queria ver, à vera, a reação de todo mundo ouvindo a música finalizada. São reações espontâneas, sem combinar texto, nada”, diz. Sobre os convidados, afirma serem artistas que “admira, que trazem frescor à cena, que frequentam a música alternativa”.

Drik vem do rap: “Está despontando com muito talento e graça”. Pupillo é músico e produtor consagrado no meio artístico. “Jup e Badsista são duas artistas densas. Jup é uma poetisa incrível, caneta pesada, diversa. Badsista é uma produtora sem amarras, curte rock e miami bass e não vê problema nenhum nisso”, afirma.

Já sobre Monkey Jahyam e Rockers Control “são duas figuras dub, soundsytem, reggae. Ritmos que adoro e pesquiso desde sempre”.

Diferentes estilos musicais no seu trabalho, que é reconhecido como de rock, marcam sua carreira. “Identifico-me com esse caldeirão sonoro. Sempre fui assim, mas quando lancei meu primeiro disco a galera era bem mais xiita. Continuou sendo, mas eu disse ‘não’. Não vou ficar presa, não.”

E completa: “Eu já transcendi esse lance de rótulo faz tempo. A imensa e saudosa Elza (Soares) me disse uma vez: ‘vamos fazer música porque você é rock. E eu também sou rock’”. A inesquecível cantora chegou a gravar com Pitty em 2017 a música Na Pele.

Selo

Pitty, depois de mais de 20 anos de carreira, decidiu abrir um selo musical – o EP Casulo é o primeiro projeto do selo também de nome Casulo. A distribuição do EP é da gravadora Deckdisc.

“Pois é, neste momento estamos vivendo um pouco de cada vez e as coisas mudam rápido. É preciso flexibilidade. Com o selo, a ideia é escoar minha produção mais alternativa e também dar voz e espaço a tantos talentos existentes neste País”, afirma.

Com a sua produtora audiovisual Setevidas, ela tem feito programas para web, conteúdos musicais, documentários – como o Casulo Musical – e videoclipes.

O EP Casulo foi gestado no canal de serviço de streaming de vídeo Twitch, em que Pitty se manteve em atividade durante a pandemia, apresentando músicas com convidados. Segundo ela, encontrar esse espaço virtual para continuar criando e se comunicando com seu público foi essencial no período.

“Ali eu pude experimentar livremente muitos formatos, e criei, junto com minha equipe, uma grade como uma web TV. Com editorias específicas, cada programa tinha seu próprio bumper in (nome), roteiro, pesquisa”, lembra.

O documentário Casulo Musical veio daí: “Para esse programa, a ideia era criar um track inédito com convidados, ao vivo em live streaming. Nunca havia feito nada parecido antes. Acho que todo mundo que participou chegou lá meio cabreiro, porque é uma ideia inédita, arriscada e experimental. E todos saíram surpreendidos com o resultado”.

Ainda sobre o documentário, que teve direção dela, diz ter sido uma grande experiência, já que comandou a mesa de som: “É massa poder oferecer ao imaginário essa visão diferente e enxergar mais mulheres nessa posição. Referência, representatividade é ir criando essas imagens de um mundo igualitário e possível”.

País

Apesar de ter iniciado o ano com vários lançamentos, Pitty vê o momento difícil. “Me preocupa, além da miséria geral e do aumento de população de rua e gente desempregada, o descaso com a cultura. Como se fosse supérfluo, desimportante. A cultura é que alimenta a alma, instrui, constrói a história e a autoestima de um povo. É a crônica do dia a dia, é sonho, é poesia.”

Ela lamenta o fato de a cadeia produtiva da cultura estar praticamente parada há quase dois anos por causa da pandemia. “Não há um programa de recuperação para esse setor, e isso é péssimo. Estamos por nós e pelo povo que entende o papel que cada música, filme ou livro exerce na sua vida.”

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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