Cultura

Umberto Eco, o pensador enciclopédico, atribuiu ao leitor a mesma importância do autor

Teria apreciado muito ter contado a Eco a história de dois livros que foram presentes da minha avó paterna de aniversários da adolescência

Eco em Turim, capital do Piemonte, cidade de grandes avenidas e alguns quilômetros de calçadas cobertas
Eco em Turim, capital do Piemonte, cidade de grandes avenidas e alguns quilômetros de calçadas cobertas

Quando conheci Umberto Eco na casa de Leo Gilson Ribeiro, ambos éramos muito jovens e eu não via nele o gênio poliédrico, o pensador polivalente, como acabou por ser conhecido em todo o mundo. Leo Gilson havia então recém-publicado um livro sobre os cronistas do absurdo, se bem lembro Ionesco, Adamov, Beckett. Eco, dois anos mais velho do que eu, ainda não escrevera O Nome da Rosa, de 1980. Com este romance, considerado um dos mais importantes do século passado, conquistou o mundo graças também à versão cinematográfica interpretada por Sean Connery. Naquele encontro, fiquei com a forte sensação de ter conhecido um erudito no sentido mais amplo, mas o livro ainda não figurava nas estantes. A Editora Record relançou-o no começo deste janeiro, na mesma data, dia 5, em que Eco completaria 90 anos.

Nesta conversa, ele me aconselhou a leitura de um livro de Ronald Knox, intitulado Iluminados e Carismáticos, texto a bico de pena sobre as primeiras heresias cristãs. Ele já cogitava de outro grande ensaio sobre cultura de massa chamado Apocalípticos e Integrados. Serviu-lhe para demolir criticamente os estudiosos da chamada Escola de Frankfurt e Marshall McLuhan, então muito popular. Disse-me naquela ocasião que o Brasil lhe despertava um interesse agudo, ao pressentir nas suas entranhas humores misteriosos, não necessariamente empolgantes, mas fortemente intrigantes, talvez até mesmo malignos.

Definiria Umberto Eco como o pensador enciclopédico capaz de iluminar o mundo nas mais diversas contingências, embora muitos o tenham como professor de semiótica, palavra furtada a ­John ­Locke, filósofo inglês do século XVII. De fato, foi titular da cadeira de semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, primeira do mundo juntamente com a de Pádua. Lecionou também em Yale, Columbia University, Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto.

Impressiona-me profundamente nas lições de Eco a ideia de que qualquer livro vale a partir da interpretação de quem o lê e a respeito deste assunto escreveu uma série de ensaios entre 1969 e 1990. A tese fascinou-me mesmo porque me atribui, como eventual leitor, papel tão significativo quanto o do próprio autor. Seus romances são cinco: O Nome da Rosa (1980), O Pêndulo de Foucault (1988), A Ilha do Dia Anterior (1994), Baudolino (2000) e O Cemitério de Praga (2010).

A Record relançou estes livros dia 5 de janeiro, quando o escritor, falecido em 2016, completaria 90 anos

Escreveu cerca de 40 ensaios até Pape Satan Aleppe: Crônicas de Uma ­Sociedade Líquida, publicado depois da sua morte. Entre eles, estão os textos de A ­Passo de Caranguejo – Guerras Quentes e o ­Populismo da Mídia, publicado em 2006, que chega agora ao Brasil, também por ocasião do aniversário. Sem contar a coluna semanal na revista L’Espresso, última página da publicação, guia indispensável para medir o andamento da conjuntura italiana, política, cultural e social ao longo do tempo.

O Nome da Rosa, que mereceu o Prêmio Médicis na França, na edição da Record incorpora a introdução e modificações feitas pelo próprio Eco em 2012. Na sua inesgotável, vertiginosa incursão por todos os assuntos possíveis e imagináveis figuram até uma História da ­Beleza, de 2004, seguida três anos após pela ­História da Feiura. Como outro grande pensador italiano, Norberto Bobbio, Eco era piemontês, nascido em Alessandria, na zona central do Piemonte.

Se me permitem, volto a me referir à ideia de que qualquer obra literária em papel impresso hiberna como certos bichos da selva ou se contenta em viver o tempo de um suspiro para encontrar finalmente a sua continuidade na reação de quem lê. Somente então o livro ganha um complemento indispensável que o multiplica ao infinito. Teria apreciado muito ter contado a Eco a história de dois livros que foram presentes da minha avó paterna de aniversários da adolescência, David Copperfield, e o romance que trata das aventuras do senhor Pickwick, heróis inesquecíveis de Charles Dickens e, comovido pela citação, usarei até um adjetivo mais pomposo, inolvidáveis.

Ao longo do entrecho, Pickwick emerge de uma figuração à beira do ridículo, secundado por amigos patéticos em ­suas fraquezas para assumir, com o passar do tempo, uma postura de profunda compreensão humana, graças à colaboração de Sam Weller, misto de mordomo e secretário, a surgir em cena ao cabo de cem páginas do entrecho. A Eco diria que ambos os livros li e reli inúmeras vezes e, quem sabe à luz da sua teoria, a cada leitura os tornei mais ricos em soluções. Creio que Eco aprovaria minha contribuição à longevidade de duas obras-primas.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1191 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE JANEIRO DE 2022.

CRÉDITOS DA PÁGINA: GRUPO EDITORIAL RECORD

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Mino Carta

Mino Carta
Diretor de Redação de CartaCapital

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