Cultura
‘Pedagogia da pergunta’: espetáculo provoca reflexões a partir da ótica de Darcy Ribeiro
A peça estreia na cidade do Rio de Janeiro nesta sexta-feira 1º e segue com apresentações no sábado e no domingo
“Por que o Brasil ainda não deu certo?” Vinte e nove anos após a morte de Darcy Ribeiro, um dos principais questionamentos levantados pelo antropólogo, sociólogo e educador volta a ecoar na voz e na performance do ator e palhaço Richard Riguetti.
A indagação, registrada no clássico O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil, é a mola propulsora do espetáculo Darcy Ribeiro, a pedagogia da pergunta, uma montagem híbrida de circo e teatro que pretende incentivar o público a contestar os contornos políticos, sociais e econômicos do País, em reverência a Darcy.
O espetáculo, que já rodou o interior do Rio de Janeiro, estreia na capital fluminense nesta sexta-feira 1º, às 20h, e segue com apresentações no sábado 2, também às 20h, e no domingo 3, às 18h, na associação cultural Circo Crescer e Viver, na Rua Carmo Neto, 143, Cidade Nova, região central. A peça tem duração de 60 minutos. Os ingressos custam a partir de 20 reais.
“Precisamos perguntar: o Brasil não deu certo para quem? Não deu certo do ponto de vista da autonomia e do desenvolvimento de seu povo, que ainda padece diante de questões básicas, como alimentação, saúde e educação. E tem um porquê nisso”, afirmou Riguetti a CartaCapital. “Há uma elite que, historicamente, sustenta essa estrutura, ancorada em interesses diversos.”
“A crença na educação emancipadora como saída possível: uma pedagogia da pergunta que coloca o aprender no centro da democracia e da cidadania.”
Pedagogia da pergunta
Propositalmente, a peça parte de um roteiro semipronto. Em parte do espetáculo, as teses e as reflexões de Darcy se costuram a partir de um intercâmbio entre Riguetti e um narrador. Em certo momento, a dinâmica se altera e o público entra em cena. Os espectadores recebem placas com palavras soltas e, ao as levantarem, fazem com que o ator continue a peça a partir daquele tema específico.
“Vamos construindo esse diálogo e esse aprendizado, que passarão por temas como resistência histórica contra o colonialismo, lutas sociais, e memórias ancestrais dos povos indígenas e africanos”, explica Riguetti. “A ideia é provocar reflexões sobre a relação entre passado e presente, memória e futuro, universidade e rua, mostrando que o conhecimento não é uma fronteira fixa, mas um caldo humano que se alimenta de várias tradições.”
Protagonista critica ataques da extrema-direita aos educadores brasileiros. Créditos: Clarissa Ribeiro
A ambientação cênica também se apoia nas músicas do cantor e compositor Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha e neto de Luiz Gonzaga. A criação é do Grupo Off-Sina de Circo Teatro de Rua, com direção do argentino Norberto Presta.
A peça faz parte de uma trilogia iniciada com Paulo Freire, o andarilho da utopia, cujo objetivo era recontar histórias, memórias e a trajetória do educador pernambucano, considerado patrono da educação brasileira.
Para Richard Riguetti, relembrar os educadores brasileiros é um ato contínuo de resistência, uma vez que a extrema-direita mantém uma ofensiva para manchar o legado desses pensadores. “O Brasil foi e continua sendo colônia desse pensamento retrógrado, ancorado em um projeto político que entregue as riquezas do País, beneficiando diretamente as elites econômicas.”
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