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Pátria portátil

Obras recentes de escritores venezuelanos em diáspora revelam, a distância, o duro cotidiano da população

Pátria portátil
Pátria portátil
Vozes. Arianna de Sousa-García,nascida em Puerto La Cruz, em 1988, revê a infância. Rodrigo Calderón, nascido em Caracas, em 1981, mostra efeitos pouco óbvios do êxodo – Imagem: Andrés Galeano e Emilio Morales
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Os escritores venezuelanos Arianna de Sousa-García, María Elena Morán e Rodrigo ­Blanco Calderón não visitam seu próprio país há anos.

Nascidos na década de 1980, viveram na Venezuela durante os 14 anos de governo Hugo Chávez. Emigraram em diferentes momentos do primeiro mandato de Nicolás Maduro, reeleito em 2018 e 2024 em pleitos controversos.

No entanto, em seus livros mais recentes, os três reelaboram ficcionalmente as vivências próprias sob o regime bolivariano, incorporando também relatos obtidos de familiares e conhecidos que permaneceram no país.

Em Atrás Fica a Terra, romance de estreia da jornalista Arianna, lançado este ano no Brasil, a narradora relata os desafios enfrentados cotidianamente pelos venezuelanos nas últimas duas décadas e meia enquanto se dirige ao filho para explicar-lhe a condição de exílio voluntário em que se encontram.

Recupera, em um exercício de memória, lembranças da infância entre os anos 1990 e 2000. Também escreve sobre o clima de esperança que marcou a eleição de Chávez, militar de tendência progressista, a adesão incondicional do próprio pai aos ideais da chamada Revolução Bolivariana e a gradual debacle do projeto de governo, que culminou numa crise sem precedentes.

Trata-se de um texto híbrido que combina diversos registros (gênero epistolar, crônicas jornalísticas, testemunho e autoficção).

Sendo jornalista, em um contexto cada vez mais hostil ao exercício da profissão, a narradora temeu por si e pelo filho. Acatou a sugestão da mãe, que vendeu móveis da família para lhe comprar duas passagens aéreas, e embarcou para o Chile.

Como a narradora do livro, Arianna sentiu-se forçada a emigrar com seu filho pequeno para a capital chilena em 2016, onde foi acolhida por parentes.

Atualmente vive em Iquique, no norte do Chile, e trabalha para a Amazon ­Underworld, uma rede de meios jornalísticos que investiga o crime organizado na Amazônia. Sua família encontra-se espalhada pelo mundo: Espanha, Argentina, Colômbia, Chile e Venezuela.

“Hoje, de longe e com muito respeito àqueles que permanecem na Venezuela, vejo a história de meu país como a de pessoas que buscaram a dignidade e a alegria de diferentes maneiras, foram severamente castigadas por isso e continuam tentando”, afirma.

“Me pergunto se algum dia poderemos nos livrar do mando militar (seja à frente do governo ou sustentando-o) e da repressão política, que tanto dano nos fez ao longo dessa história”, diz ela, sobre a situação atual do país.

Nina, uma das personagens de Voltar a Quando, também se vê obrigada a deixar sua cidade natal, Maracaibo, no noroeste venezuelano. A crise de abastecimento, tanto de energia quanto de comida, está cada vez mais grave. Ela almeja juntar recursos para se estabelecer, com a mãe e a filha, em outro ­país. Por isso vem ao Brasil, atraída por uma oferta de trabalho em Porto Alegre.

Antes, porém, em Pacaraima, cidade de Roraima a que chega depois de cruzar a fronteira, assiste a um incêndio criminoso destruir o acampamento no qual se alojava com outros migrantes e refugiados de seu país. No sul do Brasil, a promessa de emprego se revela uma cilada, o que só acentua sua precariedade financeira.

Diferentemente de sua personagem, a escritora e roteirista María Elena Morán­ deixou voluntariamente a Venezuela em 2012 para morar em Porto Alegre com seu companheiro brasileiro.

Exílio voluntário. Morán nascida em Maracaibo, em 1985, e ex-militante chavista, cria, de São Paulo, tramas que têm a política como pano de fundo – Imagem: Redes Sociais

Hoje, já com dupla nacionalidade, vive em São Paulo. No entanto, compartilha com Nina o sentimento de engano e frustração de quem foi militante chavista na juventude e atualmente vê o país em frangalhos.

“Nos primeiros anos do chavismo, quando se começou a falar sobre revolução, tudo fazia perfeito sentido. Os preços do petróleo estavam bem altos, havia muitos investimentos sociais em saúde, educação”, recorda. “A grande questão é que, em algum momento, o projeto de paí­s se tornou projeto de poder.”

Na trama também estão contempladas as vozes e as perspectivas de outros personagens. Entre eles estão Camilo, ex-companheiro de Nina e membro do partido chavista, e Raúl, o pai da protagonista, revolucionário das antigas que, morto, se manifesta sob a forma espectral.

“Não tinha pensado em abordar a questão política tão frontalmente. Minha ideia era escrever sobre a ‘maternidade transnacional’, ou seja, as mães que vão embora”, conta María Elena, que traduziu ao português o próprio romance, redigido originalmente em espanhol. Trata-se, aliás, de seu segundo livro de ficção.

Se nas obras de Arianna e María Elena­ o foco recai sobre o drama da população, em Simpatia, ficção de Rodrigo Blanco Calderón, vem à tona uma faceta pouco mencionada da crise: o abandono de animais de estimação por causa do ­êxodo massivo e da dificuldade das famílias em mantê-los. Simpatia foi finalista do ­International Booker Prize em 2024.

A narrativa acompanha o professor de Cinema Ulisses Kan diante da incumbência que recebe do ex-sogro, o general Martín Ayala, em testamento: montar um abrigo para cães abandonados na pitoresca mansão onde o militar vivia, na capital venezuelana. Tarefa que não será fácil, dada a cobiça alheia sobre a herança do general.

A inspiração para a história veio da própria família do escritor, que permanece em Caracas e passou a cuidar de cachorros abandonados. “Eles criaram, inclusive, uma fundação de resgate de cães de rua”, conta.

Autor de sete livros, entre romances e coletâneas de contos, Calderón emigrou há uma década. “Eu era professor universitário, precisava ter três trabalhos para poder chegar ao fim do mês e via meus alunos também desmotivados pela situação do país”, lembra. “Se quisesse continuar a escrever, senti que teria de ir embora.”

Morou em Paris por três anos e há sete vive em Málaga, na Espanha, com sua cadelinha Chica. Já conquistou a cidadania espanhola.

Cerca de 8 milhões de venezuelanos, entre refugiados, migrantes e requerentes de asilo, vivem fora do país. O número oficial, atualizado em fevereiro de 2026, foi compilado pela Plataforma de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela (R4V).

“A pátria é algo que a gente carrega e de que não tem como se desfazer”, descreve María Elena Morán

A CartaCapital, os três autores manifestaram um misto de alívio e apreensão quanto à captura de Maduro e sua esposa durante a operação militar norte-americana em território venezuelano, realizada em fevereiro de 2026.

“Nós, de fora, estamos abarrotados de informação”, diz Arianna, “de gente que não entende que, se dói a alguém o fracasso da revolução bolivariana, do projeto pelo qual nossos pais trabalharam duramente, é a nós. E nenhuma dor estrangeira em relação à Venezuela jamais poderá se comparar àquela que temos sentido por décadas.”

Para Calderón, ficou evidente que a Venezuela é uma peça energética importante para Donald Trump em seu enfrentamento com a China. “Nós, venezuelanos, não somos donos de nosso destino há muitos anos. Antes, por causa do chavismo, e agora porque nos tornamos um país tutelado”, afirma. “Resta a esperança de eleições verdadeiramente democráticas a curto prazo.”

Os três sonham em voltar a visitar a Venezuela sem que isso represente um risco para eles mesmos ou para os parentes que permaneceram lá.

Há sete anos sem viajar ao seu país, María Elena cultiva sua “pátria portátil”, expresssão que aparece na dedicatória de seu livro, na qual homenageia seu pai falecido.

“Essa é, por um lado, uma referência a um romance venezuelano que se chama País Portátil (de Adriano González León­)”, explica. “E, por outro, a sensação de que a pátria é algo que a gente carrega e de que não tem como se desfazer, mesmo que tentem tirá-la de você.” •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pátria portátil’

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