Cultura
Os muros da escola
Um estudo mede o impacto da cultura no desempenho e no engajamento dos alunos da rede pública
Quando estava à frente do Itaú Cultural, Eduardo Saron repetia, feito mantra, que a cultura precisava coletar e sistematizar dados capazes de mostrar o quanto e de que forma o investimento público no setor voltava para a sociedade.
Ao migrar para a Fundação Itaú, em 2019, Saron passou a ter também sob sua responsabilidade as ações da instituição voltadas ao Social, à Educação e ao Trabalho – áreas que, ao contrário do que acontece na cultura, sistematizam, historicamente, estudos e dados.
Ao tomar contato, de forma mais direta, com as pesquisas da educação, o presidente da Fundação teve um insight: se tanto se fala da importância da arte e da cultura para a formação dos indivíduos, por que tão pouco se sabe, efetivamente, sobre o tamanho e as características desse impacto?
Essa foi a pergunta disparadora do Acordo de Cooperação Técnica firmado em 2024 entre o Ministério da Educação (MEC), o Ministério da Cultura (MinC), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Fundação Itaú.
Desse acordo nasceram os quatro volumes da coletânea Intersetorialidades: Evidências em Arte, Cultura e Educação, lançada em um seminário realizado em Brasília, no dia 16 de junho.
“Os resultados sugerem que as linguagens artísticas podem fortalecer o vínculo, o senso de pertencimento e o interesse dos estudantes”, diz Saron, figura à frente dessa busca por “evidências” que possam subsidiar políticas públicas – especialmente neste momento em que se expande a prática do contraturno na rede pública.
“Não é possível fazer educação integral repetindo aquilo que a escola já faz no turno obrigatório”, diz Tereza Farias, do MEC
O trabalho cruzou a base de dados do Censo Escolar e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Inep, com o mapeamento dos Pontos e Pontões de Cultura da Rede Cultura Viva, do MinC. Como os indicadores foram construídos com lógicas distintas, o diálogo entre eles produziu, por ora, pistas – não certezas.
“A gente intui que arte e cultura contribuem muito para a formação dos estudantes. Agora temos dados que corroboram isso”, resumiu Tereza Farias, diretora de Políticas e Diretrizes da Educação Integral Básica do MEC. “Não é possível fazer educação integral repetindo aquilo que a escola já faz no turno obrigatório, nem mantendo o aluno ali fechado o dia todo. Como fazer com que a educação abra os muros das escolas?”
As artes se tornaram componente obrigatório da Base Nacional Comum Curricular em 2017 e da Lei de Diretrizes e Bases nos anos 1990. Entre a lei e a sala de aula há, porém, o mundo real.
Entre 2019 e 2024, a proporção de escolas públicas que usam materiais pedagógicos de artes ou música passou de 36% para 45,1%. Mas, enquanto em 2024 55,9% das escolas públicas do País tinham biblioteca ou sala de leitura, apenas 3,3% contavam com ateliê de artes. Salas de música ou dança são ainda mais raras.
Quando se olha para esses números mais de perto, emerge, como sempre, o mapa das desigualdades. Se, em São Paulo, 77,3% das escolas têm materiais de arte ou música em uso, no Acre o porcentual é de 9,4%. Dessa estatística derivou outra. Nas escolas que contam com esses materiais, as taxas de reprovação e de abandono são menores e o desempenho em português e matemática é, em média, 5% maior.
Território. Em Concórdia do Pará,a proposta pedagógica integra elementos do maculelê à matemática, à língua portuguesa e à educação física – Imagem: Redes Sociais
A segunda pista veio do cruzamento entre a localização das escolas e a de 7 mil Pontos de Cultura. Os dados, embora inconclusivos, indicam a seguinte correlação: as escolas situadas a menos de 2 quilômetros de um equipamento cultural registram diferença de até 17 pontos na escala Saeb em relação às mais distantes.
A pesquisa mostrou, por outro lado, que o benefício trazido pela cultura tende a ser maior em escolas de menor nível socioeconômico. Ao mesmo tempo, sabemos que o convívio com as artes e os equipamentos culturais tende a ser maior, justamente, onde há melhores condições de vida. Eis o nó.
O pesquisador Daniel dos Santos, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), há tempos se debruça sobre essa sobreposição de desigualdades.
“Quem já tem mais oportunidades consegue, com mais facilidade, colocar em contexto o conhecimento básico. Quem não tem, decora, decora, mas não consegue colocá-lo em contexto ou aplicá-lo”, diz. “Ao criar um sistema que tenta dar o básico para todo mundo, você cria esse paradoxo.”
Para destrinchar o raciocínio, Santos cita o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que inclui dados sobre aprovação escolar e desempenho.
“Nosso sistema avaliativo premia fortemente português e matemática. Com isso, todos os outros componentes curriculares foram preteridos”, explica Santos. “Essa é uma dificuldade concreta. O que dá dinheiro para as secretarias de Educação é português e matemática – principalmente português. Então, a rede pública foca nisso.”
O sistema avaliativo não premia, portanto, o que o pesquisador chama de uma educação territorializada – aquela na qual a relação entre escola e cultura se efetiva.
Isso explica por que os estudos de caso levantados pela pesquisa são, sobretudo, iniciativas individuais – mais exceção que regra. A educadora Líllian Pacheco foi uma das que subiram ao palco do auditório do Setor de Indústrias Gráficas Sul para relatar sua experiência com a chamada educação comunitária.
“O que dá dinheiro para as secretarias de Educação é português e matemática. Então, a rede pública foca nisso”, diz o professor Daniel dos Santos
Líllian nasceu em Lençóis, na Chapada Diamantina, na Bahia, e, décadas atrás, ao deixar a cidade para estudar, com seu companheiro, Márcio Caires, se sentiu um peixe fora d’água. “Era uma educação que não nos via, não nos reconhecia. Desde aquele momento, quisemos voltar para nossa comunidade e construir uma educação em que o saber da minha avó pudesse estar na escola”, contou.
A volta para casa deu-se num momento no qual a Chapada Diamantina vivia a transição do garimpo para o turismo, com projetos que buscavam inserir as famílias no novo modelo econômico pensado para a região.
Líllian e Caires se juntaram a um projeto comunitário de mulheres e, em 1997, nasceu a pedagogia griô, que cria inter-relações entre a erva usada em casa e a ciência ensinada na escola, inserindo os saberes populares no currículo. O Grãos de Luz e Griô foi o quinto Ponto de Cultura do Brasil e trabalha com 600 entidades, Brasil afora, mediando processos pedagógicos entre cultura e educação.
Outro projeto mapeado foi o Maculelê na Educação em Tempo Integral, criado em 2018 na Escola Quilombola Severiano Antônio Nunes, no Quilombo do Cravo, em Concórdia do Pará – a 134 quilômetros de Belém. Por anos, a iniciativa, muito pequena, era tocada por educadoras que, simplesmente, acreditavam nesse sonho.
Sua institucionalização deu-se em 2024, dentro do programa federal que busca expandir a educação em tempo integral nos territórios mais vulnerabilizados. Para isso, estados e municípios recebem 4% do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).
Hoje, o projeto atende 40 crianças. A proposta pedagógica integrou os elementos do maculelê à matemática, à língua portuguesa e à educação física, com a produção de material específico.
Foram também os novos recursos disponibilizados para a educação integral que possibilitaram a expansão da Escola Viva Olho do Tempo, no Vale do Gramame, em João Pessoa, ativa há 21 anos e tocada por uma organização da sociedade civil.
A escola atende diariamente cerca de 150 crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, no contraturno, em um território de nove comunidades – entre elas a quilombola de Mituaçu –, onde rural e urbano periférico se misturam.
Ali, a ideia de roda é central. É em roda que se planejam atividades, resolvem-se conflitos e tomam-se decisões. Além de decorar a tabuada, as crianças sobem trilhas até o Rio Gramame, têm oficinas de dança, circo, fotografia, educação ambiental e percussão. O estudo indica que, entre os estudantes que frequentam o projeto, o engajamento e a participação em sala são maiores.
Evidências. Farias e Saron dizem que agora os dados corroboram o que se intuía – Imagem: Mário Agra/Fundacão Itaú
Uma impressão que fica, dos projetos mapeados, é que o gesto de aproximação parte mais da cultura do que da educação, cujos desafios para cumprir o que se considera o “básico” já parecem ser grandes o bastante. Na prática do dia a dia, a inserção da arte e da cultura em propostas pedagógicas tende a se mostrar muito mais complexa do que no sonho.
Além disso, como se lê nas publicações, não há, em qualquer das experiências, “uma ação intersetorial consolidada, com atribuições e papéis bem definidos e em equilíbrio”.
O desequilíbrio se deixou antever no próprio encontro. Enquanto, representando a cultura, estava a ministra Margareth Menezes, a educação foi representada pela diretora de uma secretaria.
A ministra aproveitou a ocasião, inclusive, para fazer um desabafo: “Em algum momento, passamos a secundarizar a nossa produção cultural. Fomos chamados de vagabundos e desqualificados como setor. A cultura e a arte qualificam e potencializam o ser humano para qualquer profissão que ele venha a exercer. Quando a gente leva a arte para a escola, a gente valoriza a cultura.”
Na mão inversa, se dá o mesmo. “A educação obrigatória é uma forma de transmissão de construções sociais que são úteis para aquela sociedade. E isso pode ser feito de várias maneiras”, diz Daniel dos Santos. “Hoje, muitos concordam que, se você não coloca o conteúdo em prática no seu contexto, ele dificilmente será socialmente útil.”
No fim, é o que sempre disse o educador Anísio Teixeira, nascido no sertão baiano: a escola deve habilitar as pessoas a melhor viver e a melhor conviver em sociedade. Nisso, ela é como a cultura. •
*A jornalista viajou a convite da Fundação Itaú.
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os muros da escola’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



