Cultura

Os Diários de Raqqa, prenúncio da metástase fundamentalista?

Um retrato de uma cidade destruída por uma ditadura, por interesses ocidentais e pelo Estado Islâmico

Raqqa, entre a família Assad e o EI
Raqqa, entre a família Assad e o EI
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Samer, pseudônimo do autor dos Diários de Raqqa (Globo Livros, tradução de Fábio Bonillo), nos revela que se sentiu eufórico quando o Exército de Libertação da Síria chegou à sua cidade, em meio à Primavera Árabe, com a promessa de emancipação do país da ditadura longeva da família al-Assad – do pai Hafez al-Assad (1971-2000) para o filho Bashar al-Assad (2000 aos dias atuais).

Em uma complexa reviravolta das facções sediciosas, os outrora aliados Exército de Libertação da Síria e o Estado Islâmico passam, porém, a se engalfinhar pela hegemonia da região. (Ora, um provérbio árabe já sentenciara: “Não diga ao amigo aquilo o que o inimigo não puder saber”.)

Sob forte fogo cruzado, Raqqa tem sido reduzida a um monturo de escombros e cadáveres. É quando Samer descobre que o fundamentalismo do EI fraturará irremediavelmente o curso de sua vida.

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Jovem universitário, Samer sonha em dar uma vida melhor para os pais humildes e em se casar com a namorada que conhecera na faculdade. Tal sonho implica, quase que invariavelmente, abandonar a Síria injusta e desigual sob o punho dos al-Assad.

Entretanto, o transcurso cego da história tem outros planos para a legião de inocentes que só fazem padecer sob e lubrificar as engrenagens do morticínio: quando o EI transforma Raqqa na capital do seu califado, bombardeios (sírios, russos e/ou estadunidenses?) destroem a casa de Samer e matam seu pai.

Para resgatar o irmão sequestrado, a namorada de Samer é coagida a se casar com um dos líderes do EI. Súbito, Samer engrossa as fileiras do único exército verdadeiramente ecumênico da história, o exército dos condenados da Terra, para quem só haverá choro e ranger de dentes.

Sem temer pela própria vida – eis o grau máximo de tragédia que transforma a iminência da morte em redenção –, Samer decide se vingar do EI. Sua retaliação não dará, no entanto, ao vale de lágrimas da história mais um (o enésimo) algoz. Samer passa a escrever os Diários de Raqqa com profundo senso de justiça, denúncia e admoestação.

Quem vive sob os – ou melhor, quem sobrevive aos – horrores do fundamentalismo sabe, contra os próprios sonhos e contra o próprio corpo, com que facilidade o hímen do cotidiano pode ser violado.

Por claros motivos de segurança, o jornalista britânico Mike Thomson, da BBC, não nos revela, em seu prefácio, como os escritos de Samer acabaram em suas mãos. Como medida pedagógica, o EI costuma decapitar os dissidentes em praça pública com espadas.

O fato é que, a partir dos relatos de Samer, ficamos sabendo que, em Raqqa, mulheres que não respeitem os códigos indumentários dos fundamentalistas são repreendidas com veemência – apedrejamentos estão sempre na ordem do dia. Telefones fixos e móveis são rastreados com onisciência, a internet garante ao EI a devida onipresença. Comerciantes e motoristas são extorquidos por mafiosos de turbante e fuzis.

Quando Samer diz que sente inveja dos refugiados, o espectro de Aylan Kurdi logo vem à tona. O bebê Aylan, de apenas três anos, e sua família síria estavam em um barco abarrotado e precário que naufragou entre a Turquia e a Grécia. A foto do bebezinho morto e estirado de bruços em uma praia do Mar Egeu chocou e indignou o mundo.

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Ora, quem quer que leia os Diários de Raqqa começa a se perguntar: que forças estrangeiras armaram e financiaram os fundamentalistas do EI? Que interesses econômicos e geopolíticos transformaram a Síria de Bashar al-Assad em um país sumamente estratégico? Que países estão comprando o petróleo extraído pelo EI?

Tais questões mostram-se indiscretas e indigestas para as potências internacionais – Estados Unidos, União Europeia e Rússia – e suas indústrias petrolíferas.

E mais: para além das análises simplistas, odientas e ideologicamente dolosas que reduzem a complexidade e a polissemia do Islã a facções terroristas, quais os perigos dos regimes teocráticos e da perda de laicidade por parte do Estado?

Em meio a uma época que assiste ao arrefecimento das instituições democráticas e ao recrudescimento dos discursos e práticas autoritários e etnocêntricos, xenófobos e extremistas, precisamos apreender o fundamentalismo não apenas como um extremismo do outro preconcebido como exótico, bárbaro e distante, mas como uma ameaça que nos é cada vez mais circunvizinha.

A paixão fundamentalista não é apenas e necessariamente religiosa. Ela pode ou não acreditar em Alá, mas, como as lições históricas nos ensinam, a paixão fundamentalista tende, à direita e à esquerda, com ou sem Deus, a expurgar todos aqueles e aquelas que não partilham de seus ídolos e fervores, orientações políticas, religiosas e sexuais.

Desta forma, Samer e os Diários de Raqqa deveriam despontar como um temível prenúncio, por mais que a história nos insinue que se trata de mais um prelúdio.

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