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Onde está o foco?

A dificuldade de parte da plateia manter-se atenta ao palco ou à tela de cinema inquieta alguns artistas

Onde está o foco?
Onde está o foco?
Imagem: Ilustração: Pilar Velloso, Charles Sholl/AFP, iStockphoto e Midjourney V7
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Uma marmita de carne com mandioca aberta no meio de uma sessão de cinema. O brilho de um smartphone na cara de um ator no palco. Um pacote de salgadinhos estourando durante a canção interpretada ao vivo em um musical. Falta de noção ou novos hábitos?

O comportamento individual em salas de espetáculo, teatros e cinemas – espaços voltados à experiência coletiva – tornou-se um assunto recorrente. E, para atores, cantores, psicanalistas e gestores culturais, em certa medida, preocupante.

Antônio Fagundes faz, no sábado 18, o primeiro ensaio aberto de Sete Minutos. A peça, que estreia em maio no Teatro Cultura Artística, problematiza a relação entre artistas e plateia. O texto, de sua autoria, foi escrito e encenado pela primeira vez em 2002. Tinha algo de premonitório.

Naquela época, a presença dos celulares em nossas vidas era mais amena. Mas o ator já notava seus efeitos. “Os sete minutos do título se referem ao tempo que um espectador conseguiria manter o foco. Hoje, esse tempo caiu para sete segundos, o necessário para se rolar a tela do celular”, diz ele a CartaCapital.

O que levou Fagundes a escrever a peça foi a mesma constatação que o leva a reencená-la: a percepção de que algumas pessoas estão se perdendo na falta de foco. “O fato de elas irem ao teatro não significa que saiam de lá com alguma coisa. E isso sempre me preocupou”, afirma o ator.

“Quando a indiferença ou o ruído passam a ser tolerados, eles rapidamente se normalizam”, diz o psicanalista Luiz Nogueira

A peça é uma comédia sobre as agruras de um ator que está apresentando Macbeth­, de Shakespeare, e, ao ter de lidar com o barulho vindo da plateia, decide abandonar o palco, levando o caos aos bastidores.

“Queria dar um toque para essas pessoas sobre as coisas que elas estavam perdendo, das possibilidades de entendimento que estavam deixando para trás. Com isso, esperava que elas saíssem modificadas do teatro”, diz. Duas décadas atrás, a peça foi apresentada para mais de 300 mil pessoas no Brasil e excursionou para Portugal. “A peça é um chamado bem-humorado e carinhoso para que as pessoas percebam o quanto elas estão perdendo da própria vida. Porque a invasão do celular também acontece fora do teatro.”

Ao fim de Sete Minutos será realizado um bate-papo com o público – o ator acredita ser também seu papel contribuir para a formação das plateias. Como é praxe em suas peças, a entrada após o início do espetáculo é proibida. “Temos que respeitar as pessoas que chegaram no horário. O teatro é o último resquício de humanidade que a gente tem, onde existe o contato presencial, e precisamos preservar isso.”

O que o personagem de Fagundes passa, a atriz e cantora Alessandra Maestrini­ viveu na pele. Recentemente, o barulho a levou a interromper uma apresentação do musical Yentl.

Realizado no Sesc Pompeia, em São Paulo, o espetáculo tem músicas delicadas – tiradas do filme homônimo dirigido por Barbra Streisand nos anos 1980 – e, a certa altura, Alessandra precisou pedir que um espectador parasse de comer e amassar o pacote de salgadinhos.

“É uma questão importante de ser discutida porque atrapalha não só o artista, mas o público que sai de casa para ir ao teatro buscando uma experiência de ­religare”, diz a cantora, usando o termo em latim que remete tanto a religião quanto a “unir novamente”.

Barulho. Fagundes reestreia Sete Minutos, peça de 2002 que brinca com a desatenção. Alessandra Maestrini ouviu, do palco, um pacote de salgadinho estourar e Eduardo Moscovis, um espectador falar ao telefone – Imagem: Annelize Tozetto/Festival de Curitiba, Renata Casagrande e Carlo Locatelli

Alessandra Maestrini define o teatro como um templo, um local de conexão, como são as igrejas, as mesquitas e as sinagogas. “Eu não acredito que as pessoas atendam o telefone nesses locais de conexão. No teatro, estou fazendo o público acessar seu momento presente, sua criatividade, que é o que existe de mais humano.”

Os atores Eduardo Moscovis e Mateus Solano também tiveram problemas com o público recentemente. Não se trata apenas do brilho dos smartphones atrapalhando os atores e o público, mas do descumprimento de uma regra básica: a proibição de se filmar o palco e de falar ao telefone durante um espetáculo.

No fim de março, durante a apresentação do monólogo O Motociclista no Globo da Morte, no Teatro Vivo, em São Paulo, Moscovis pediu que um espectador que estava falando ao celular desligasse o telefone ou se retirasse do recinto.

Solano também se sentiu importunado por uma pessoa que o filmava na boca de cena do palco, com o celular próximo de seu rosto, durante apresentação da peça O Figurante, em Santa Rosa, Rio Grande do Sul. Ele afastou o celular com um tapa.

Na semana passada, no Reino Unido, a atriz britânica Lesley Manville afirmou, em entrevista à rede BBC, que filmar ou tirar fotos de atores durante as peças de teatro é um “insulto”.

Segundo ela, as pessoas precisam deixar as redes digitais em seus bolsos mesmo depois dos aplausos da plateia. “Parece que todos querem ter uma foto para provar que estiveram ali. É teatro, vamos preservá-lo”, disse ela, que estrela a montagem de Ligações Perigosas no ­National Theatre, em Londres.

“Vivemos um colapso de contextos, e isso torna a concentração volátil, diz o pesquisador Diogo Silva, do Sesc

Luciana Gabardo, gerente de Parcerias e Novos Negócios do Theatro Municipal de São Paulo, conta que a equipe já entendeu ser impossível evitar que as pessoas entrem com o celular em uma sala de concerto. Para garantir o conforto de todos, a casa criou protocolos.

“Exibimos um vídeo antes do início do espetáculo avisando o público que é preciso desligar os celulares e que, caso alguém esteja usando o aparelho com insistência, a equipe apontará canetas a laser para as telas”, explica Luciana. “Também é proibida a entrada de alimentos.” Ela diz, porém, que poucas vezes há problemas desse tipo no Municipal.

O portal Infoteatro – criado para divulgar e democratizar as artes cênicas – e que debuta na produção com ­Sete ­Minutos, divulgou na semana passada uma pesquisa realizada com usuários das redes sociais com a pergunta: “O que mais te incomoda quando você vai ao teatro?”

As respostas foram, obviamente, as mais variadas: “A pessoa roendo amendoim”; “Gente que pega o celular para mandar mensagem no Instagram quando a peça está rolando”; “Gente cochichando ao lado, amassando embalagem de bala”; ou “Outro dia tive que pedir para uma pessoa desligar o jogo de futebol que estava mais alto que o ator no palco”.

O problema também existe nos cinemas. A jornalista Marinete Veloso se surpreendeu durante uma sessão no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, quando um espectador tirou da mochila uma marmita com carne e mandioca. “As pessoas estão perdendo a noção da diferença entre um lugar público e a sala de sua casa”, afirma ela.

Adhemar Oliveira, dono da rede, diz já ter registrado casos de irritação de público com celulares ou conversas, mas não com comida. “Mesmo porque não posso proibir a entrada de comidas na sala”, explica.

Embora saibamos que o uso de celular no cinema reflete a mudança no modo de vida trazida pela conectividade, Oliveira reflete: “As redes, a comunicação e os vídeos de curta duração em formato vertical levam as pessoas a focar em duas ou três telas ao mesmo tempo. Mas, quando você vai ao cinema, você está se recolhendo, então seria um exercício saudável distanciar-se do celular”.

O dono do cinema nota também que, quando o uso do celular atrapalha a sessão, é comum que os demais espectadores presentes ajudem a coibir a prática. “Mas, se for o caso, vamos trazer de volta o lanterninha”, diz.

Em Londres. Para Lesley Manville, em cartaz no National Theatre com Ligações Perigosas, filmar os atores em cena é um “insulto” – Imagem: Sarah Lee/Teatro Nacional de Londres

Autor do recém-lançado Públicos em Emergência, que trata da democratização cultural nas artes visuais, o assessor sociocultural do Sesc São Paulo Diogo de Moraes­ Silva lembra que, com as redes sociais, passamos a ter a nossa subjetividade e o nosso sistema perceptivo estruturalmente alterados pela lógica do algoritmo e pelo imediatismo no consumo de informações.

“Nesta era da economia da atenção, as pessoas já têm dificuldade de dedicar sua concentração a um único objeto”, diz Silva­. Para o autor, vivemos um colapso de contextos, e isso torna a concentração volátil e implica a subjetividade. “Quando você posta uma imagem e eu, em outro lugar, a consumo, cria-se uma dinâmica que gera, por exemplo, no teatro, um comportamento que se teria em casa.”

O psicanalista Luiz Nogueira aponta um componente psicossocial importante envolvido no hábito relacionado ao uso de celular: como demonstrou o psicólogo social norte-americano Elliot Aronso­n, o comportamento individual ajusta-se às normas percebidas pelo grupo.

“Quando a indiferença ou o ruído passam a ser tolerados, rapidamente se normalizam”, diz Nogueira. “O desrespeito deixa de ser exceção e converte-se em padrão. Não é a emoção que irrompe; é o descaso que se instala.”

Uma pergunta incontornável é o quanto há de elitismo e nostalgia na busca por um certo tipo de plateia. O psicanalista pondera que o incômodo não deriva do desejo por um silêncio absoluto – até porque o teatro sempre foi um lugar vivo e, por vezes, barulhento. O problema, para ele, mora em outro lugar: “Não se trata de exaltação, mas de distração”.

O psicanalista avalia que assistir a um espetáculo implica aceitar que, durante aquele tempo, sua vontade de rolar o dedo pela tela do celular ou de postar instantaneamente sua experiência será subordinada ao direito do outro – seja o artista, seja o público ao lado – de viver aquele momento sem intervenções.

“Esse pacto não é apenas disciplinar, ou seja, ele não se reduz a desligar o celular ou evitar conversas paralelas. Ele funda a própria possibilidade da experiência estética enquanto experiência compartilhada. Quando a plateia rompe esse pacto, não se trata apenas de incômodo. Trata-se de uma crise da experiência comum”, afirma.

Como diz Nogueira, a pergunta, no fim, não é sobre formas de se impor o silêncio, mas sim: ainda desejamos o silêncio como forma de partilha? •

Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Onde está o foco?’

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