Cultura

Onde andará Beatriz?

“A saudade é dor pungente, morena/ A saudade mata a gente, morena” (Antônio Almeida e João de Barro)

Beatriz com Sara Villas, recém-nascida
Beatriz com Sara Villas, recém-nascida
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Nos anos em que vivi fora daqui, em Paris, fiz muitas amizades. De gente maluca que gostava de sonhar a físicos, matemáticos e músicos que estavam ali de passagem, com o objetivo único de estudar. Muitos continuam presentes virtualmente na minha vida, curtindo e compartilhando nas redes sociais, trocando mensagens sem contato físico, mas dentro do coração. Outros, com o passar do tempo, sumiram na poeira da estrada. Nunca mais tive notícias.

De tempos em tempos, minha memória parte para o espaço sideral, em busca de lembranças, apenas lembranças que ficaram perdidas por aí.

Azeitona, por exemplo, que chegou animado em estudar agronomia e nunca estudou. Cacá, quase um monge budista que dizia estar procurando emprego, mas morrendo de medo de encontrar. O arquiteto Zé Octávio, que abandonou a portaria do Hotel de la Grece, onde trabalhava, e se juntou aos manifestantes que passaram numa ruela do Quartier Latin protestando exatamente contra o governo de Michail Stasinopoulos.

Ceará, que um dia resolveu fazer farofa com ovo, bacon e serragem, acreditando que daria certo. O gaúcho Darci, que inventou seu próprio vocabulário chamando gasolina de essência, a lixeira de pubele e o Líbano de Libão, são alguns exemplos.

E tinha Beatriz.

Beatriz era uma mineira do interior que chegou para animar a festa. Lembro-me bem que tinha onze irmãos, todos com os nomes começados em Be. Adorávamos quando ela repetia, como um narrador de turfe, os nomes de todos eles: Era Beatriz, Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

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Beatriz chegou e alugou um pequeno studio num quarteirão aconchegante de Paris. Ficava no sétimo andar de um prédio sem elevador, mas o problema maior é que não tinha banho, isto é, não tinha chuveiro nem banheira. Mas Beatriz deu o seu jeito.

Arranjou um emprego de faxineira e andava pra lá e pra cá com uma sacolinha do Prisunic, com o seu kit banho: Toalha, sabonete, xampu e uma calcinha. Onde chegava, não fazia cerimônia, pedia pra tomar banho. Lá em casa já estávamos acostumados. Quando ia se despedir, perguntávamos se não ia tomar banho. Ia, claro. Ela se deliciava com aquela água quentinha para amenizar o inverno rigoroso.

Beatriz contava histórias ótimas como aquela do pai dela, mineiro metódico, que todos os dias às seis horas da manhã em ponto, pegava o regador e saia para molhar a horta, além das flores e das folhagens que cultivava no quintal de sua casa, lá no interior de Minas. Mesmo quando estava caindo um toró, o pai de Beatriz pegava a galocha, o guarda-chuva e saia com o regador para molhar suas plantas.

Beatriz falava um francês muito particular. Gostava de ensinar para os franceses as delicias da culinária brasileira: Vous prenez le feijão preto, puis vous ajouter toutes les types de viande, carne seca, paio, costelinha, orelha, rabo… E continuava. Ah, il y a aussi de la farinha de mandioca pour faire de la farofa. Ajoutez la couve refogadinha e aussi des morceuax de laranja seleta e torresmo. Os franceses ficavam com os olhos arregalados tentando entender e a gente fazendo xixi de tanto rir.

Um dia ela chegou esbaforida na nossa casa, dizendo  que estava cagada de arara! Um francês perguntou o que ela havia dito e Beatriz começou a explicar: Vous conaissez le perroquet?

De repente, Beatriz chegou com uma novidade. Estava namorando um árabe, não me lembro se do Marrocos ou da Argélia. Mustafá estava apaixonadíssimo por ela, mas tinha um problema. Não se conformava em Beatriz trabalhar fora. E a relação funcionava assim: Ele chegava do trabalho por volta de sete da noite e se ela não estivesse em casa, começava a beber cerveja.

Quantas e quantas vezes ela passou na nossa casa, tomou um banho rápido e saiu voando, porque senão ia chegar tarde em casa e encontrar Mustafá esparramado no sofá, depois de beber uma dúzia de latinhas de Kronnebourg.

A última vez que vi Beatriz foi no seu bota-fora. Prepararmos uma galinha d’Angola com couve de Bruxelas pra ela, uma despedida à altura. Até uma cachacinha mineira apareceu naquele dia. Mais uma vez rimos muito, comemos muito, nos divertimos demais e desejamos a ela boa viagem e sorte na sua volta ao país tropical. 

Beatriz pegou o primeiro avião com destino a felicidade e nunca mais tive noticias. Já cansei de procurar nas redes sociais e nada. Queria vê-la nem que fosse um tiquinho, como ela dizia. Pelo menos para ela recitar o nome dos onze irmãos: Berenice, Bento, Bernardo, Betina, Benício, Berilo e por aí vai.

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