Cultura

Crônica

Oh! Luar tão cândido

por Alberto Villas publicado 17/02/2017 00h02, última modificação 16/02/2017 13h08
Não é de hoje essa minha paixão pela lua
Nasa / AFP
Lua

A Apollo 15 na Lua, em 1971

Já fui perdidamente apaixonado pela Lua. Isso faz muito tempo, quando eu era ainda criança e havia aquela expectativa se o homem conseguiria – ou não – um dia, colocar os pés lá. 

Era um tempo em que o meu pai dançava com a minha mãe no Cassino da Pampulha ao som de Ontem ao Luar, de Catulo da Paixão Cearense, uma das canções mais lindas sobre a Lua. 

Pergunta ao luar travesso e tão taful

De noite a chorar na onda toda azul

Pergunta ao luar do mar a canção

Qual o mistério que há na dor de uma paixão

O meu pai também era apaixonado por ela e, nos dias de Lua cheia, reunia os filhos no alpendre pra vê-la brilhante e formosa flutuando no espaço sideral. Com os dedos, ele ia traçando o perfil de Jorge, do dragão, da espada, das labaredas. E a gente acreditava porque a gente via nitidamente São Jorge lá.

Quando veio a adolescência, as espinhas e os pelos, nós participávamos de campeonato de twist no bairro, ao som de Cely Campelo. 

Tomo um banho de lua, fico branca como a neve

Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve

É tão bom sonhar contigo, oh! Luar tão cândido... 

A gente foi crescendo e quando o Carnaval chegou, entre confetes e serpentinas, nos esbaldávamos no salão da Sociedade Mineira de Engenheiros cantando a marchinha que virou hit naquele ano. 

Olhando a lua através de uma luneta

Eu vi Jorginho passeando de lambreta

Fazendo curvas na contramão

E na garupa quem ia era o dragão

Num outro carnaval, que não foi igual aquele que passou, a Lua voltou para as paradas de sucesso, na voz de Ângela Maria. 

Lua, oh lua

Querem te passar pra trás

Lua, oh lua

Querem te roubar a paz

Lua que no céu flutua

Lua que nos dá luar

Lua, oh lua

Não deixa ninguém te pisar

Mas um dia o homem chegou lá. Vimos emocionados pela televisão, em imagens em preto e branco, Neil Armstrong e Edwin Aldrin dando aqueles saltos desajeitados em seu solo. Lembro-me bem que estávamos na casa do meu avô e ele chorou. Mas não acreditou no que estava vendo.

No dia seguinte, o meu pai correu na banca e comprou a edição histórica da revista Manchete, que veio com um pôster gigante com o mapa da lua, já loteada, um verdadeiro espetáculo!

Na semana seguinte, ele chegou em casa com a edição sonora da Fatos e Fotos, que trouxe um disquinho, um compacto simples, com a voz de Armstrong: “That's one small step for a man, one giant leap for mankind”.

Foi nos anos 70, muito longe daqui, naquele inverno rigoroso, que ouvi pela primeira vez Caetano cantando a Lua. 

Lua, lua, lua, lua

Por um momento meu canto contigo compactua

E mesmo o vento canta-se

Compacto no tempo

Estanca

Branca, branca, branca, branca

A minha, nossa voz atua sendo silêncio

Meu canto não tem nada a ver com a lua

Aí chegaram os anos 80 e o poeta Gilberto Gil chegou, assim de repente, com a última palavra sobre a Lua. 

O luar

Do luar não há mais nada a dizer

A não ser

Que a gente precisa ver o luar

Que a gente precisa ver para crer

Diz o dito popular

Uma vez que é feito só para ser visto

Se a gente não vê, não há

Se a noite inventa a escuridão

A luz inventa o luar

O olho da vida inventa a visão

Doce clarão sobre o mar

Hoje, uma noite quente de verão paulistano, passei pela Rua Alfonso Bovero e, da janela do ônibus, vi um cachorro vagabundo e sedento, lambendo uma poça formada pela água que escorria de uma lanchonete. Foi aí que me lembrei da minha paixão pela Lua e pelo Millôr, que um dia escreveu um seus hai-kais mais inspirados. 

Na poça da rua

o vira-lata

lambe a lua