Obra analisa disco emblemático ‘O Canto da Cidade’ de Daniela Mercury

O repertório do álbum teve adequações em letra e melodia, além da incorporação do pop, para atender uma demanda de mercado nacional

Foto: Celia Santos/Divulgação

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Cultura

Um do disco que marcou a música brasileira, O Canto da Cidade, de Daniela Mercury, completa 30 anos de lançamento no ano que vem. Um livro analisa o álbum antes de ser feito, o processo de produção e o resultado depois de ser apresentado ao público.

O Canto da Cidade: da Matriz Afro-Baiana à Axé Music de Daniela Mercury (Edições Sesc São Paulo), do jornalista e produtor cultural Luciano Matos, lançado dias atrás, destrincha o trabalho da cantora a partir desse disco de enorme sucesso.

A sonoridade baiana, de elementos percussivos originários dos blocos afros, foi considerada no seu início, pela indústria, uma música tipicamente regional. As principais agremiações afros surgiram em Salvador no período da ditadura, influenciadas pelo movimento negro americano da época, contra o racismo e como exaltação à negritude.

Entre eles estão Ilê Aiyê, Malê Debalê, Olodum, Ara Keto e Muzenza. É importante distingui-los dos grupos de afoxé, mais antigos e ligados à religiosidade afro-brasileira.

Esses blocos na capital baiana tinham (e alguns ainda mantêm isso) em suas músicas mensagens de resgate e celebração da cultura negra. O livro de Luciano Matos conta como Daniela Mercury mergulha na cultura e na sonoridade dessas agremiações afros para incorporar ao seu trabalho.

Antes do lançamento do disco essencial à carreira da cantora em 1992, compositores desses blocos já tinham algumas músicas na década anterior gravadas por artistas que deram os primeiros passos do movimento mercadologicamente chamado depois de axé music.

De classe média, Daniela não nasceu nas comunidades onde os blocos afros em Salvador surgiram. Mas se aproximou deles por meio da dança desde criança e, depois, adulta frequentando seus ensaios, onde a força percussiva dava o tom.

Adequação

O repertório do álbum, antes de lançá-lo, teve adequações das composições afro-baianas em letra e melodia, além da incorporação do pop, para atender uma demanda de mercado nacional. A faixa-título foi uma.

O Canto da Cidade era originalmente de Tote Gira, compositor que circulava pelos blocos afros. Mas houve mudanças durante a gravação da música, consideradas por Gira – e citadas no livro – como “embranquecimento” da canção, com a retirada de expressões ligadas ao universo negro.

Aliás, a questão do embranquecimento da música baiana com a axé music é tratada em capítulo a parte na obra. A prática atendia a visão mercadológica de gravadoras, empresários e produtores.

Depoimento no livro do maestro e músico Letieres Leite, morto recentemente, sobre o embraquecimento e a pressão da indústria da música na Bahia, vale ser transcrito: “Depois de um tempo, essas pessoas, ligadas a grandes grupos econômicos, começaram a criar os próprios artistas, geralmente, artistas mais brancos. Eles se afastaram da matéria-prima, uma coisa que não foi ocasional, foi alinhavada. Esse embranquecimento foi estrutural”.

Margareth Menezes já tinha até carreira internacional antes de Daniela Mercury fazer sucesso. Cantora negra e que traz temática forte do universo afro-brasileiro, na obra questiona-se o motivo dela não ter ocupado mais espaço no showbiz.

Daniela Mercury canta muito, é uma grande artista, engajada, defende causas e é envolvida desde sempre em ações sociais. Reunindo o que de melhor a Bahia produz em termos de arte, a cantora precisou juntar tudo numa sonoridade que a levasse à projeção nacional. Conseguiu com qualidade, mantendo um pé nas raízes baianas. O livro expressa bem essa questão.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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