Obra analisa a canção brasileira como um ser vivo persistente e mutável

Em livro, Túlio Ceci Villaça trata da composição musical no seu âmago, no contexto teórico e prático

Foto:  br.freepik.com

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Cultura

Criação musical é algo intrigante e passa longe do expediente de que bastou acordar para desencarnar ideias – pelo menos aquela música onde a reflexão é acionada por ouvidos atentos.

 

 

O escritor e crítico musical Túlio Ceci Villaça, no livro Sobre a Canção – e o Seu Entorno e o que Ela Pode se Tornar (Editora Appris), mergulha nessa vertente, em seleção de artigos publicados em blog próprio.

O autor tem fluência em teoria musical e apresenta 40 textos aprofundados sobre composição, sem ser enfadonho. Túlio entra nos meandros da música entre versões, interpretações, letras, melodias, ritmos, harmonias, acordes, tons, concepções e principalmente histórias.

Dorival Caymmi dispendia longos ciclos para compor. O artista, de autoria de pouco mais de 100 músicas, mas quase todas de uma dimensão criativa única, buscava o melhor encontro sonoro. A calma aparente do compositor baiano dava lugar a uma certa obsessão de descrever e harmonizar suas composições.

E a inspiração de João Donato às margens do rio Acre, no Estado onde nasceu? A complexidade múltipla e repleta de referências da obra de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Vapor Barato, de Jards Macalé e Waly Salomão é a criação a luz dos acontecimentos do período da Ditadura Militar. “Mas ela sobrevive a eles, recusando-se a ser um mero documento da época”, tanto que sofreu regravações, mesmo depois da abertura.

Não se fala no livro somente de letras, mas o conjunto de notas musicais, seus percursos, sons altos e baixos, amplos e curtos, e as motivações associadas à composição. Os textos se embrenham nesses detalhes e sutilezas. E para onde caminhou harmonicamente a regravação por outros artistas.

Lero-lero

Interessante um artigo de Túlio Ceci Villaça em que ele faz análise do conceito de homem cordial, criado por Sérgio Buarque de Holanda, com a composição Lero Lero (“Sou brasileiro de estatura mediana…”), de Edu Lobo e Cacaso.

“Lero-lero é a descrição acabada do homem cordial”. Lembra o autor, porém, mais à frente: “A cordialidade de Sérgio Buarque não exclui uma ferocidade (aliás, amplamente esquecida quando avaliado o termo)”.

No texto seguinte, nova comparação, da clássica Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, e Querelas do Brasil, de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, que ficou conhecida na voz de Elis Regina. As duas composições exaltam o País, mas a segunda o faz acrescentando o Brasil menos ufanista (e mais verdadeiro): “O Brazil não conhece o Brasil”.

Há outras discussões na obra de canções pós-Aquarela do Brasil, de um país para inglês ver, e aquele de fato existente, como na música Nação, de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, com sua estreitíssima ligação afro, em meio a batucada e o categórico violão de João Bosco: “Jeje, minha sede é dos rios / A minha cor é o arco-íris, minha fome é tanta”.

O funk é também retratado. A despeito de obscenidades, em alguns casos, a sua confluência com cultura urbana e seu lado sombrio e real. Ninguém faz música nesse ambiente sem influência presente da vida áspera. Isso é desde os cantos de labor por escravos nos canaviais do Recôncavo Baiano, há alguns séculos.

E o rap, que com sua forma rompe a canção padrão. Além da análise do autor ao formato melódico estritamente teórico musical, a sua força estética é impressionante. Aponta-se um divisor de águas na música brasileira, pela sua representação disruptiva.

É quase impossível dizer nesse país imenso e multicultural existir carência criativa. Talvez as atenções estejam voltadas para o lugar errado. Túlio Ceci Villaça tenta abrir o olho de que a canção brasileira é um ser vivo, persistente, mutante e evolutivo. Basta ficar atento.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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