Cultura
O tribunal da opinião pública
O diretor Marco Bellocchio reconta, em Portobello, a saga do apresentador de tevê injustamente mandado para a prisão
Entre 1977 e 1983, o programa Portobello era um fenômeno na tevê italiana. A exibição acontecia todas as sextas-feiras na RAI, canal estatal do país, e tinha à frente o jornalista Enzo Tortora, que comandava a atração de variedades num estilo que o leitor brasileiro pode imaginar como uma mistura entre Silvio Santos e Ana Maria Braga.
Era entretenimento de massa e chegou a ter 28 milhões de espectadores, algo impressionante se pensarmos que, à época, a Itália tinha população de 50 milhões de pessoas. Daí o choque nacional quando, em junho de 1983, Tortora foi preso por autoridades italianas sob acusação de ligações com a organização criminosa Camorra. Tratou-se, porém, de um dos maiores erros processuais na história judicial do país.
Reconstituir o imbróglio envolvendo a prisão de Tortora é a ambição de Portobello, nova incursão do veterano Marco Bellocchio em uma série. A produção estreou na HBO Max na sexta-feira 20.
Ao longo de seis episódios, Bellocchio acompanha o sucesso crescente do programa, a esquisita obsessão que o líder mafioso Giovanni Pandico desenvolve por Tortora e os mal-entendidos e atos de deliberada má-fé que vão provocar a prisão do jornalista. O estilo é aquele que marca a obra de Bellocchio há mais de cinco décadas: direto e cristalino ao tratar de política, injustiça e poder.
Em uma entrevista concedida a Angela Prudenzi e Elisa Resegotti, publicada no livro Cinema Político Italiano: Anos 60 e 70 (Cosac Naify, 2006), Bellocchio diz ter sempre procurado “falar de política por meio de escolhas extremamente particulares, evitando a denúncia aberta e até mesmo, às vezes, traindo a reconstrução objetiva dos fatos”. Outra frase dele é: “Diante da imagem, a mensagem deve dar um passo atrás”.
Isso explica bem seu estilo envolvente e fluido. A política, em seu cinema, articula-se de forma direta às emoções. “Fazer um cinema livre de esquematismos ideológicos não significa que ele é destituído de moral”, declarou a Prudenzi e Resegotti. “Para contar o que somos, procuro outros caminhos que sejam mais subterrâneos e ainda assim ligados à ética dos indivíduos.”
Em Portobello, o protagonista Enzo Tortora é interpretado por Fabrizio Gifuni, ator a quem coube o papel de Aldo Moro em outro trabalho de Bellocchio, a série de tevê Esterno Notte (2022). Novamente, ao habitar o universo criativo de Bellocchio, Gifuni entrega uma presença contida.
A perplexidade diante da situação absurda em que Tortora se vê metido aparece em expressões sutis do ator. Praticamente nada lhe é informado, a população se divide entre quem acredita e quem duvida das acusações e todo um sistema começa a girar a partir do instante em que a arbitrariedade da prisão se institucionaliza.
Essa sobriedade era essencial para a verossimilhança do personagem. Condenado em primeira instância em 1985 por tráfico de drogas e por supostamente integrar a máfia, defenestrado pela opinião pública e mantido na prisão por dois anos, Tortora foi, posteriormente, absolvido pelo Supremo Tribunal. O trauma, no entanto, deteriorou sua saúde. Ele morreu de câncer em 1988, apenas um ano depois de deixar a prisão.
Para promover a série e chamar atenção para o trabalho de Bellocchio, cineasta que trafega pelo circuito do cinema de autor, a HBO exibiu dois episódios de Portobello no Festival de Veneza em 2025. A produção acabou, na ocasião, tendo mais repercussão do que alguns longas-metragens em competição.
Muitos críticos exaltaram a força da encenação, que evita tons sensacionalistas ou melodramáticos num caso já marcado justamente pelo excesso midiático. A atuação de Gifuni foi elogiada pela alternância entre o carisma expansivo de apresentador televisivo e a vulnerabilidade de um homem acuado por acusações devastadoras.
O caso da década de 1980 ecoa questões da atualidade, como o uso de delações em processos judiciais e a disseminação de notícias falsas
O caso histórico, nas mãos de Bellocchio e dos roteiristas, serve também para jogar luz sobre discussões sobre temas contemporâneos: mídia, presunção de inocência, uso de delações e disseminação de notícias falsas. Estruturada em vários núcleos de personagens, Portobello destrincha a máquina judicial, midiática e política que sustentou a acusação.
Na Itália, o caso alterou debates sobre garantias processuais e uso de delações premiadas. Em Veneza, Bellocchio contou que não era espectador do programa de tevê, mas que se lembra do impacto de ver o jornalista sendo detido e depois atacado pelas mais variadas formas de insulto.
A ideia da projeção pública como arena de condenação, justa ou injusta, é cara ao cinema de Marco Bellocchio. E isso muito antes do tribunal das redes sociais.
Ele se aproximou do tema de formas bem diversas, indo do drama familiar em De Punhos Cerrados (1965) ao épico de guerra Vencer (2009). Mais recentemente, em O Sequestro do Papa (2023), tratou dos escândalos do Vaticano. Em todos esses enredos, os acontecimentos íntimos fazem parte de um contexto político ou social que impacta o próprio andamento da história – no sentido macro.
E Bellocchio demonstra, em diferentes obras, que a tensão entre privado e público independe da relevância social dos personagens.
Em Portobello, Enzo Tortora, um sujeito de grande projeção, é colocado diante de seu público sendo submetido a humilhações e acusações que ele mal compreende. O que cabe ao indivíduo fazer – ou não fazer – diante de situações-limite? Esse parece ser o dilema de muitos dos personagens criados ou retratados por Marco Bellocchio. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O tribunal da opinião pública’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



