Cultura

O terror sob a natureza

Samanta Schweblin usa o Pampa argentino como cenário e mote para uma história, em ritmo de thriller, sobre mães e filhos em um planeta adoentado

Ficções. A autora, de 46 anos, já ganhou os prêmios Juan Rulfo, Casa de las Américas e National Book Award – Imagem: Suhrkamp Verlag
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Ao mesmo tempo que funciona como um suspense psicológico, Distância de Resgate, da argentina ­Samanta Schweblin, pode ser enquadrado nas ficções sobre o antropoceno – termo usado para definir o tempo mais recente do planeta.

A autora é econômica nas descrições do cenário, mas a geografia é determinante no enredo. A interação entre o ambiente natural e as alterações feitas pelos humanos desencadeia os aterrorizantes acontecimentos da trama protagonizada por Amanda e Nina, mãe e filha que deixam Buenos Aires nas férias de verão em busca de descanso em meio à natureza.

O lugar escolhido é o Pampa, mas, mal chegam, a mãe percebe que o verde engana. As vastas planícies foram tomadas por plantações de soja que recebem galões de agrotóxicos e nem toda a vegetação é saudável. Embora, em princípio, o lugar pareça não oferecer riscos, a mãe não consegue deixar de pensar neles.

“Agora mesmo estou calculando o quanto demoraria para sair correndo do carro e alcançar Nina, se ela de repente corresse até a piscina e se jogasse. Chamo isso de ‘distância de resgate’, chamo assim a distância variável que me separa da minha filha”, conta.

Amanda narra os fatos em primeira pessoa, mas não exatamente porque deseje. Prestes a morrer, ela é provocada por um esquisito interlocutor, o menino ­David, filho de Carla, moradora do povoado rural, que a interroga sobre tudo que lhe aconteceu. Ele tenta descobrir o que ocorreu com Amanda e, consequentemente, com Nina. A menina engraçadinha, que senta com as pernas cruzadas em cima do banco de trás do carro e coloca o cinto de segurança sozinha, desaparecera.

O efeito de thriller mesclado com horror criado pelo romance é alcançado pela voz objetivamente cortante de David. “Nada disso é importante. Estamos perdendo tempo”, interrompe ele. Frases como “Não se distraia”, “É um erro” e “Não é tão ruim morrer” soam apavorantes quando ditas nas circunstâncias engendradas pela autora.

Distância de Resgate Samanta Schweblin. Tradução: Joca Reiner Terron. Fósforo (96 págs., 64,90 reais) – Compre na Amazon

Carla contou a Amanda que seu filho teve a alma transmigrada para um corpo desconhecido. Esse ritual foi feito pela curandeira a quem Carla recorreu quando David foi intoxicado pela água de um riacho, que já havia matado cavalos e patos e feito crianças nascerem disformes.

Enquanto narra, Samanta Schweblin planta dúvidas no leitor. Carla, sentindo-se desamparada com o filho transmigrado, sonha ter uma filha como ­Nina. Habilidosa em tecer sua teia com ares de literatura fantástica, a autora cria incertezas sobre quem é David afinal e de onde vem seu interesse em Amanda.

As crianças com comportamento estranho ou deslocadas em um universo adulto são uma constante na literatura de Samanta. Elas aparecem tanto em Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias (Fósforo, 2022) quanto em Kentukis (Fósforo, 2021) – e aproximam a escritora, nascida em 1978, de sua conterrânea Silvina Ocampo (1903-1993).

No primeiro livro, no conto que dá título à obra, uma adolescente alimenta-se de pássaros vivos, deixando os pais aturdidos. No segundo, a autora cria brinquedos de pelúcia tecnológicos, os kentukis, que filmam a vida dos donos. É tanto possível ter um deles quanto, simplesmente, assistir à vida de uma pessoa aleatória. Em uma das histórias, uma jovem mulher tortura o robozinho, traumatizando o menino que o comandava.

Distância de Resgate é a primeira narrativa longa da autora, que ficou conhecida primeiro pelos contos. A nova tradução, de Joca Reiner Terron, justifica a releitura daqueles que já conheciam a obra publicada em 2016 pela Record. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa

Além do talento para esculpir tipos humanos, Janet Malcom era mestre na descrição de imagens e objetos. Foi, inclusive, na editoria de Decoração que ela ingressou na New Yorker. Tal olhar está em Imagens Imóveis – Sobre Fotografia e Memória (Cia. das Letras, 184 págs., 64,90 reais).

Os narradores de Em Algum Lugar Lá ­Fora (Instante, 256 págs., 74,90 reais), de Jabari Asim, são negros escravizados – autodenominados sequestrados – à mercê de quem os capturou. O “lugar lá fora”, sonhado e depois buscado, nada mais é do que a possibilidade de serem livres.

Que noções e atributos conferem confiabilidade às ciências? Em Ciência Pouca É Bobagem – Por Que a Psicanálise Não É Pseudociência (Ubu, 288 págs., 69,90 reais), Christian Dunker e Gilson Iannini respondem de forma sofisticada a esta pergunta e a outras dela derivadas.

Publicado na edição n° 1299 de CartaCapital, em 28 de fevereiro de 2024.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O terror sob a natureza’

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