O TCC sobre funk feminino e empoderamento que incomodou a ‘bolha’

Tamiris Coutinho fala sobre 'Cai de Boca no Meu b*[email protected]', uma visão de dentro da favela sobre as mulheres que cantam o gênero musical

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Cultura

A niteroiense Tamiris Coutinho escolheu para o seu trabalho de conclusão de curso, o chamado TCC, para se tornar bacharel em relações públicas pela UERJ, o tema o funk feminino e empoderamento.

Os professores da faculdade inicialmente ficaram entre a surpresa e a dúvida de que ela encontraria um recorte capaz de sustentar sua pesquisa. Não durou muito para a jovem superar a desconfiança e ganhar apoio para ir em frente.

O TCC foi feito e acabou virando livro este ano. Trata-se de uma contribuição a um assunto muito pouco explorado de um fenômeno nas comunidades pobres dos grandes centros urbanos, que parcela da sociedade prefere ignorar e, muitas vezes, atacar, como se o que valesse fossem os padrões de seu mundo.

Tamiris Coutinho lançou Cai de Boca no Meu b*[email protected] (Editora Claraboia), título retirado de uma letra da MC Rebecca, funkeira da nova geração, criada em uma família sem recursos na Zona Norte do Rio de Janeiro, que teve formação musical frequentando escolas de samba e bailes funks.

“Algumas pessoas não conseguem aceitar que o funk está ampliando cada vez mais sua visibilidade para além das favelas, que ele pode ser objeto de estudo”, afirma Tamiris, que diz ter diminuído a frequência de ataques desde que lançou o livro, mas que ainda persiste.

“Além do preconceito com o próprio funk, não aceitam que ele pode ser um canal de empoderamento feminino, ficam presos à ideia da objetificação, que, sim, acontece, mas não se permitem entender que a mulher no gênero musical é muito mais do que isso: ela tem voz, se posiciona por si própria, por suas vontades e necessidades”.

 

Perseguição

Cai de Boca no Meu b*[email protected] conta as origens do funk e como a mulher se envolveu com o gênero musical. E também relata as acusações genéricas, incompatíveis com a realidade bruta das favelas, que o movimento sofreu.

“A criminalização do funk envolve questões como racismo e preconceito de classe, que vem desde lá dos anos 1990. A mídia tradicional foi a grande difusora da associação do funk e do funkeiro a traficantes, bandidos, promotores da desordem”, diz ela. O livro de Tamiris traz casos conhecidos ao longo desse período.

O funk tem vários subgêneros, mas o que tem ocupado espaço na mídia é o chamado funk pop, versão mais light do gênero, cuja maior representante é Anitta, com suas músicas de poucas referências do que de fato ocorre nas comunidades pobres dos centros urbanos.

“Não é interessante para mídia, por exemplo, um MC expondo lá, por meio do funk proibidão, o que acontece dentro das favelas. Então, o funk pop ganha mais espaço”.

O funk tem poder de difusão muito grande na internet, quando outros gêneros musicais ainda usam as mídias tradicionais, como o rádio, para divulgar seus trabalhos.

“O funk é muito dinâmico e, por ter uma pegada bem independente, se movimenta mais rápido, se adaptando mais facilmente às mudanças, como as que aconteceram no cenário pandêmico. O TikTok nesse período foi um canal que possibilitou que as produções continuassem ativas, principalmente com os challenges (desafios para engajar seguidores, como fazer coreografias)”.

Além de MC Rebecca, que é personagem central do livro da expressão da mulher no funk, Tamiris vê também a MC Dricka como um potencial grande no gênero no que se refere à demonstração de empoderamento feminino.

“Acredito muito na Dricka como influência para as minas de periferia, principalmente de São Paulo. É uma mulher que vem dos fluxos, da cena underground, que vem ganhando cada vez mais espaço. É uma mulher preta, lésbica, da quebrada, que pega no microfone e canta putaria mesmo, mas não se prende só a essa vertente. Ela se posiciona, dá o papo reto. Ela rompe com muitos estereótipos, principalmente aqueles relacionados à estética feminina, as vestimentas que ela usa, a forma como se apresenta. É muito político”.

Rompendo os bons costumes da “bolha”, Tamiris vai revelando o Brasil real, onde palavrões em letras de música podem ter muitos significados a serem estudados. “Ainda chamam a mim e o meu trabalho de lixo, mas isso nunca me incomodou, pois tenho total consciência, com humildade, da importância do meu estudo para o movimento funk”.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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