…

O suicídio nosso de cada dia

Cultura

Era uma vez uma autora disposta a homenagear um poeta desobediente e um movimento poético-político desobediente. Gaúcha radicada no Maranhão, a cientista social Isis Rost enfrenta a tarefa em O Risco do Berro – Torquato, Neto – Morte e Loucura, devotado à figura evanescente do piauiense Torquato Neto (1944-1972), um dos idealizadores da Tropicália ao lado de gente bem mais conhecida que ele, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Rita Lee.

Isis começa a empreitada pelo óbvio ululante: não pode ser fundada na obediência uma homenagem a um desobediente suicida louco que escolheu morrer aos 28 anos. Opta por quebrar as regras, amparada pela desproteção do descompromisso com o que há lá fora (o livro é todo construído na tensão entre o “lá fora” e o “aqui dentro”).

Leia também:
Se o caso é chorar

Literariamente, faz isso fazendo o que supõe ter feito o homenageado: rompe com a cultura do silêncio, retira a morte do lugar de tabu da modernidade, respeita e reverencia o suicídio de Torquato como decisão própria e não como martelo do tempo ou responsabilidade da ditadura. Industrialmente (pois a Tropicália se constituía de poesia e política, tanto quanto de arte e mercado), alcança os objetivos gritando um sonoro “não” para os ditames, os cânones, os formatos, as etiquetas, as editoras, as estantes e as prateleiras. 

Capa de “O risco do berro”, de Isis Rost (Divulgação)

Trata Caetano o tempo todo como “Caretano”, o que não é inédito – mas quem mais tem feito o favor de não deixar ninguém esquecer que Caretano sempre foi a face careta do poeta que se suicidou aos 28? Chama o artesanato de Torquato de “escrita mosaica”, certamente falando de si própria – pois é assim que ela escreve, misturando-se à fala do homenageado e de outros, sem respeitar hierarquias ou direitos autorais (não é a porção lucrativa da Tropicália que ela quer ressaltar), jogando o livro de graça na internet. 

Isis escancara o tabu ao despi-lo diante de uma sociedade atarantada que dificilmente irá lê-la: “Para a poetisa também suicida Sylvia Plath, a morte era uma arte, como todo o resto; nessa lógica, alguns se suicidariam um pouquinho por dia durante anos, enquanto outros jogam tudo naquela única aposta e… quebram a banca”.

Leia também: Retorno àqueles dias “mal-ditos”

Onde tudo é suicídio, a autora também encontra seus pontos cegos. Ao render vivas a todos os suicidas geniais, parece dar a entender que só na morte a arte pode residir: “A morte aparece para Torquato como única saída, e justamente esse desejo de morte produz na mente dele o moto-contínuo para aferventar a força criativa com textos e poesias cruas, progressivamente mais próximo da verdadeira ruptura”.

Aqui, do lado de dentro e de fora, Torquato, Isis e seus leitores clamam por outra e mais original saída: é possível romper sem suicidar, não para morrer, mas para dar um basta ao que está sendo assassinado, com requintes de crueldade, um pouquinho todo dia?

O Risco do Berro – Torquato Neto – Morte e Loucura
De Isis Rost. 272 págs. Edição da autora.
Disponível para download aqui.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem