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O romance indomável

Lançada há 70 anos, a obra de Guimarães Rosa segue a desafiar artistas que buscam levá-la aos palcos e telas

O romance indomável
O romance indomável
“Traduções”. Bia Lessa transformou o livro numa exposição, em 2006, numa peça teatral, em 2017, e no filme O Diabo na Rua no Meio do Redemunho, em 2023 – Imagem: Globo Filmes
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Pouco antes da chegada de Grande Sertão: Veredas às livrarias, em 16 de julho de 1956, um ansioso João Guimarães Rosa adiantou-se à editora José Olympio e propôs um panfleto de divulgação da obra. “Sensacional. Estranho. Poderoso”, assim iniciava o texto. “Sendo o amor impossível. Onde narra sua vida o ex-jagunço Riobaldo. O sertão está em toda a parte.” Seguiam-se mais algumas frases e o arremate: “Carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem”.

A editora, quando publicou o anúncio do “esperado romance” de Rosa nos jornais do Rio de Janeiro, modificou o texto. De todo modo, o lançamento teve grande repercussão.

Essa e outras anedotas, além de registros minuciosos sobre a vida de Guimarães Rosa (1908–1967), compõem João Guimarães Rosa, Biografia (Nova Fronteira/Topbooks, 736 págs., 199,90 reais), do jornalista e historiador Leonencio Nossa.

“Voltei para a ilha de edição umas cinco ou seis vezes. Fui maturando e entendendo o filme aos poucos”, diz Bia Lessa

Com base em ampla pesquisa documental, Nossa examina de que modo as vivências do escritor, diplomata e médico mineiro, da infância à idade adulta, repercutiram em sua produção literária.

Considerado uma das obras canônicas do século XX, Grande Sertão: Veredas, que acaba de ganhar uma edição comemorativa, pela Companhia das Letras (608 págs., 209,90 reais), é o único romance escrito por Guimarães ­Rosa, autor também de seis coletâneas celebradas de contos e novelas e do livro de poe­mas Magma. Desde seu aparecimento, Grande Sertão: Veredas tem provocado desnorteio, fascínio e estranhamento.

“Como um monstro, ele emerge intempestivamente na discreta, ordeira e suficientemente autocentrada vida cultural brasileira, então em plena euforia político-desenvolvimentista”, definiu o ficcionista e crítico Silviano Santiago.

Além da sofisticada recriação da fala sertaneja e da sintaxe rebelde, uma trama nada linear entrelaça as indagações metafísicas de Riobaldo sobre o bem e o mal, relatos dos combates no sertão e, sobretudo, a confissão de seu amor por Diadorim, companheiro de jagunçagem.

Sete décadas depois, esse monstro de “beleza selvagem”, nos termos de Santiago, continua a desafiar as tentativas de “domesticação” expressas por leituras que, diante das ambiguidades do romance, tentam determinar o “indecidível”, impondo perspectivas redutoras.

Riobaldo e Diadorim. A minissérie de 1985 era protagonizada por Tony Ramos e Bruna Lombardi. No filme de 2024, o sertão virou uma comunidade urbana periférica – Imagem: Globo Filmes/Paris Filmes e Acervo TV Globo

Talvez por conta dessa característica indomesticável, a adaptação de Grande Sertão: Veredas para outras linguagens artísticas pareça uma missão tão atraente quanto complexa.

A encenadora Bia Lessa está entre os que não se intimidaram. Sua primeira “tradução” do romance foi a exposição concebida para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em 2006.

“Qualquer imagem que eu usasse seria um empobrecimento”, conta. “O sertão é metafísico, está dentro da gente, não se trata de um lugar específico no norte de Minas ou na Bahia.” A saída foi criar uma exposição de palavras, apoiada em materiais de construção, como tijolos, terra, cimento e madeira, valorizando o trabalho de linguagem de Guimarães Rosa.

“Esse é um livro do qual não me livro, me acompanha como um rio”, diz ela. Por isso, quando decidiu voltar a fazer teatro após quase dez anos de pausa, quis levar para a cena o romance.

Como nenhum dos escritores convidados aceitou realizar a adaptação, a própria Bia selecionou trechos e situações que lhe pareciam importantes. “Fiz um recorte. Não mexi na linguagem, não criei uma palavra a mais. Apenas mudei o tempo verbal em alguns momentos.”

“Como um monstro, ele emerge (…) na discreta, ordeira e suficientemente autocentrada vida cultural brasileira”, definiu Santiago

Nos primeiros ensaios, os dez atores e atrizes brincavam cenicamente com frases do texto a fim de criar intimidade com a linguagem de Rosa. Com a definição gradativa das personagens, a preocupação de Bia voltou a ser a ausência de imagens.

Ela optou, então, por um jogo entre revelar e esvanecer. As cenas não se fixavam, se transformavam de modo abrupto. As figuras humanas viravam pássaros, bichos, peixes, buritis ou pedras – eram jagunços, mas também natureza. A encenadora quis ressaltar a não centralidade do humano no romance.

Depois de quatro meses de ensaios, a montagem de Grande Sertão: Veredas estreou em setembro de 2017 no Sesc Consolação, em São Paulo, e mais adiante circulou por outras cidades.

Com o mesmo elenco e igual despojamento cênico, Bia Lessa fez uma versão cinematográfica, em 2023. Batizou-a de O Diabo na Rua no Meio do Redemunho, a epígrafe da obra. “Voltei para a ilha de edição umas cinco ou seis vezes”, conta ela. “Fui entendendo o filme aos poucos.”

Outro artista de teatro que se lançou à aventura de levar o “monstro” aos palcos foi o ator Gilson de Barros, que já realizou, País afora, mais de 650 apresentações dos monólogos que compõem a trilogia Grande Sertão: Veredas.

No palco. O ator Gilson de Barros realizou mais de 650 apresentações dos monólogos da trilogia Grande Sertão: Veredas, dirigida por Amir Haddad – Imagem: Renato Mangolin

A primeira peça surgiu com a ajuda de um arquivo do Word no qual Barros copiou todas as marcações que havia feito em suas leituras do romance. “Aí vasculhei na internet mestrados e doutorados sobre o Grande Sertão: Veredas, sob todas as óticas, porque no começo você fica doido, não sabe o caminho a seguir”, conta.

Encontrou o trabalho sobre a importância dos amores na constituição do personagem Riobaldo. “Então, reli o livro e revi o arquivo de miscelâneas com o foco nos amores e fiz um primeiro recorte da peça, que chamei de Riobaldo”, diz. Submeteu o texto à avaliação de amigos, lendo-o em voz alta e fazendo ajustes. Chegou a realizar uma leitura na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, para alguns dos imortais.

“Levei dois anos até tomar coragem e apresentar o texto ao Amir Haddad, que se tornou o diretor”, lembra. “Naquele momento, eu pensava em uma peça com muita luz, som, movimento, totalmente diferente do que é hoje.”

Logo no primeiro ensaio, Haddad propôs que Barros permanecesse sentado e só contasse a história. “De cara, ele sacou a alma do texto”, afirma o ator. Ensaiaram o monólogo por cerca de sete meses antes de estrear no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio, em março de 2020.

Na semana seguinte, vieram as medidas de isolamento da pandemia e Barros e Haddad decidiram apresentar ensaios abertos sob a forma de lives no Instagram.

Com a reabertura dos teatros, Riobaldo continuou sua trajetória exitosa. Incentivado pela resposta do público, Barros voltou ao romance: “Eu tinha a ideia de fazer outra peça com a questão da dialética do bem e do mal, de Deus e do diabo. Para mim, é a parte mais importante do livro.”

O processo foi parecido: a pesquisa em trabalhos acadêmicos e a volta ao arquivo das “miscelâneas”. Estreou, então, No Meio do Redemunho em 2023 – também com a direção de Haddad e a simplicidade cênica de um personagem, sentado em um banco, contando sua história. No ano seguinte, veio o terceiro monólogo: O Julgamento de Zé Bebelo.

A peça retrata uma passagem importante do livro na qual o personagem do título, depois da captura pelo bando do jagunço Joca Ramiro – do qual Riobaldo participava –, tem a oportunidade de se defender publicamente das acusações.

Na estante. O aniversário do romance movimentou o mercado editorial brasileiro

Em relação à linguagem, Barros diz que não tenta imitar sotaque algum, o que soa­ria falso. “O que faço é respeitar a musicalidade do texto do Rosa, a fluidez poética dele.” O espectador se torna, então, o interlocutor do tortuoso relato de Riobaldo.

Se no teatro o sertão rosiano permaneceu indeterminado, na minissérie Grande Sertão: Veredas, dirigida por ­Walter Avancini com roteiro de Walter ­George Dürst e colaboração de José Antônio de Souza, as paisagens de veredas e buritis foram apresentadas aos brasileiros.

Exibida entre novembro e dezembro de 1985 pela TV Globo, a adaptação foi filmada em Paredão de Minas, vilarejo do distrito de Buritizeiro (MG).

Tony Ramos interpretou Riobaldo e Bruna Lombardi, Diadorim. O líder Joca Ramiro foi feito por Rubens de Falco e o terrível Hermógenes, antagonista de Riobaldo, por Tarcísio Meira.

Durante os três meses de filmagens, Bruna anotou suas experiências em papéis que carregava nos bolsos. A reunião desses escritos resultou no Diário do Grande Sertão publicado originalmente em 1986 e relançado neste ano pela Autêntica (160 págs., 79,80 reais). No livro, a atriz entrelaça comentários sobre o cotidiano das gravações e a composição da personagem à observação afetuosa sobre o sertão e seus moradores.

“Invadimos o sertão tipo choque do futuro”, escreve. “Diante do olhar perplexo do sertanejo, um imenso comboio técnico, equipado com a mais moderna eletrônica, acende as luzes, roda VTs, grava a cena. Aquilo é inimaginável, e aqui ninguém entende o que é.”

No cinema, os irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira foram os primeiros a se aventurar numa adaptação, em 1965. O filme, com roteiro e direção da dupla, foi rodado na região de Patos de Minas (MG). Com uma narrativa simplificada e sem qualquer ambiguidade em relação à personagem Diadorim, se inseriu no chamado “Ciclo do Cangaço”.

Mais recentemente, Guel Arraes e Jorge Furtado propuseram uma ousada versão cinematográfica, combinando a prosódia rosiana com cenas de ação. Em Grande Sertão (2024), os combates se dão entre facções, milicianos e polícia numa comunidade urbana periférica, em um futuro distópico. Riobaldo – vivido por Caio Blat, também protagonista da peça e do filme de Bia Lessa – é um professor que se junta à facção comandada por Joca Ramiro.

Se o filme dos irmãos Pereira foi a adaptação mais distante da metafísica e da poesia do romance, as obras teatrais talvez tenham sido as mais exitosas, pela força da palavra falada e pela maior abertura à imaginação do espectador.

Aos 70 anos, o “monstro selvagem” demonstra ter ainda muito a dizer aos artistas e aos leitores que acolhem, mas não temem, sua ferocidade. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O romance indomável’

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