Cultura

Crônica

O mar

por Alberto Villas publicado 07/07/2017 00h16, última modificação 06/07/2017 12h45
Só mesmo vendo como é que dói viver longe dele
Embratur
Rio

O mar do Rio de Janeiro

Sempre fui apaixonado pelo mar, eu mineiro, cercado de montanhas por todos os lados. Todos nós em casa. Sabíamos que não tínhamos e a vontade de ter um por perto era tão grande que a gente até se embaraçava.

Quando ia chegando julho, era uma animação. Sabíamos que o meu pai ia fazer uma revisão no velho Land Rover e pegar a BR-3 rumo ao Rio de Janeiro, férias de 30 dias em Copacabana.

Enquanto julho não chegava, durante o ano inteiro, ele colocava na vitrola GE os discos de Dorival Caymmi que espalhava aquele vozeirão em suas canções praieiras pela casa inteira.

O mar quando quebra na praia

É bonito, é bonito...

Mas as férias acabavam chegando e lá estávamos nós, branquinhos, instalados no apartamento da Prado Junior, olhando pela janela, ele, tão azul, lá longe.

O clima era outro. Cadeiras de lona empilhadas na sala, saídas de praia espalhadas pelo sofá, uma sombrinha colorida, de pé atrás da porta, o vidrinho de Cenoura & Bronze na mesinha de centro e um isopor na porta.

Aquele apartamento era nosso todo mês de julho. Lembro-me bem da geladeira Kelvinator com a porta enferrujada pela maresia, o aquecedor à gás no banheiro, o chão de porcelanato, coisas que não tínhamos em Minas Gerais.

O mar para nós era tudo e quando púnhamos os pés na areia branca, a piada do meu pai era sempre a mesma e velha.

- Encher aqui de água foi mole. O difícil foi salgar tudo isso...

A gente achava sempre engraçada a piada, mesmo contada pela décima vez.

Do mesmo jeito que Rita Lee contou em seu livro um segredo, que um dia lambeu a maçaneta da Apple, em Abbey Road, vou contar aqui que eu, escondidinho, sempre provava a água do mar pra sentir se continuava salgada.

Os cinco filhos nunca tiveram no dia-a-dia um mar por perto. Vivíamos confabulando porque diabos não juntavam Minas Gerais com o Espírito Santo para termos Guarapari e Santa Mônica só pra gente.

O tempo foi passando e até hoje continuamos sem mar nas nossas cidades. Três em Belo Horizonte, uma em Brasília e eu aqui em São Paulo.

Outras canções vieram. Ouvimos Marilia Medalha na tela da TV Record cantando Arrastão.

Eh! tem jangada no mar

Eh! eh! eh! Hoje tem arrastão

Eh! Todo mundo pescar

Longe daqui, senti na pele o que Gil quis dizer em Back in Bahia.

Do luar que tanta falta me fazia junto do mar

Mar da Bahia...

Ainda longe daqui, ouvi Caetano cantar Debaixo dos caracóis dos teus cabelos.

Um dia a areia branca

Teus pés irão tocar

E vai molhar seus cabelos

A água azul do mar

 Depois veio Eduardo Dusek, todo serelepe.

O mar passa saborosamente a língua na areia

Que bem debochada, cínica que é

Permite deleitada esses abusos do mar

Além da areia branca e do mar azul, havia muitas conchinhas em Copacabana, que íamos colocando uma a uma dentro de um balde vermelho da Trol pra depois, no décimo segundo andar daquele edifício da Prado Junior, escolher as maiores e mais bonitas para esnobarmos na volta às aulas na nossa Belo Horizonte.

Pensando bem, não era só o mar que era gostoso. Gostoso era também o sunday do Gordon, os caramelos Petrópolis, o sorvex na carrocinha amarela da Kibon e uma espécie de selfie que fazíamos todo ano no Cristo Redentor.

Ah, como aquele gostinho salgado de férias custava a passar. Na verdade, nunca passou.

registrado em: Rio de Janeiro, Minas Gerais