Cultura
O maestro do Pajeú
O centenário de Moacir Santos, nascido no Sertão de Pernambuco, enseja uma discreta revisita a suas criações
Nascido em um casebre no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, em 26 de julho de 1926, o maestro, arranjador, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos é lembrado, este ano, por conta de seu centenário de nascimento. Os eventos em torno da data não são muitos, mas ajudam a colocar seu nome e sua história novamente em evidência.
Moacir não conheceu o pai e, aos 3 anos de idade, perdeu a mãe. Órfão, foi adotado por uma família da região. Sua atração pelos instrumentos de sopro foi precoce e, antes dos 10 anos completos, ele já fazia parte de uma banda municipal.
Empurrado pela música, ele saiu cedo de casa. Aos 15 anos, partiu para o Recife, depois voltou ao interior de seu estado, passou ainda por Salvador e, por fim, retornou à capital pernambucana.
Os dois anos desse intenso vaivém foram marcados por passagens por bandas filarmônicas – algumas comunitárias, outras financiadas pelas prefeituras locais – e bandas de sopro, muito comuns em Pernambuco naquela época. Outra marca daquele período foi a falta de dinheiro – até para comer e arrumar um lugar para dormir.
Embora aquém do legado do artista, as homenagens visam atrair mais gente para a sua obra
No Nordeste, seu talento foi sendo, aos poucos, reconhecido e ele começou a ganhar fama como “o saxofonista negro”.
À fase de bicos, seguiu-se uma passagem por João Pessoa (PB), onde trabalhou como músico contratado em uma emissora radiofônica. Em 1948, foi convidado a ingressar na orquestra da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. Ele tinha, então, 22 anos, uma mulher com quem havia se casado pouco antes e estava prestes a se tornar pai do filho que levaria seu nome.
“Ele fez essas mudanças de cidade na inquietude de ser músico”, explica a flautista Andrea Ernest Dias, autora da biografia Moacir Santos ou os Caminhos de Um Músico Brasileiro (Folha Seca). A obra, publicada em 2014, será relançada no segundo semestre como parte das celebrações do centenário do músico.
Outra iniciativa ligada à efeméride é o álbum Now I Know, lançado pelo João Marcondes Septeto em janeiro, nas plataformas digitais. O disco é dedicado às composições do maestro. Já o projeto Sesc Instrumental Brasil, realizado em São Paulo, terá, em março, apresentações organizadas em torno da obra do pernambucano.
Trilha sonora. Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra, e Ganga Zumba (1963), de Cacá Diegues, foram dois dos filmes nos quais trabalhou – Imagem: Cinemateca Brasileira
O mestre em música pela Unicamp, arranjador e trombonista Allan Abbadia, um dos nomes da programação do Sesc Instrumental, lamenta as poucas atividades previstas para lembrar o centenário do maestro. “Referências negras foram e continuam sendo apagadas”, diz ele, ao refletir sobre a falta de um maior reconhecimento do músico no Brasil.
Para Abbadia, a linguagem de Moacir Santos é muito autêntica: “Ele trouxe a identidade afrodiaspórica dos terreiros e festas populares para o seu estudo técnico musical. E fez isso em diálogo com outras linguagens, como o jazz”.
Sua formação deu-se pela cultura popular pernambucana – onde são fortes o maracatu e o baião –, pela prática nas bandas que integrou nas andanças pelo Nordeste e, por fim, pelo contato com os grandes maestros que conheceu no Rio.
Ele trabalhou na Rádio Nacional com o pianista e arranjador Radamés Gnattali e tornou-se assistente de regência do maestro Hans-Joachim Koellreutter. Com o também compositor Guerra-Peixe teve aulas de música. A isso tudo ele somou os estudos sobre as tradições afro-brasileiras. Essa mistura o fez criar composições com melodias surpreendentes para a época.
Com grande técnica e habilidade em vários instrumentos, Moacir Santos tornou-se também professor da nata da música brasileira dos anos 1960. Nara Leão, Sérgio Mendes, Carlos Lyra, João Donato e Baden Powell foram alguns de seus alunos.
Seu primeiro álbum, Coisas (1965), é considerado pela crítica especializada um dos principais trabalhos instrumentais brasileiros de todos os tempos. Chamam atenção o requinte orquestral colocado a serviço de temas curtos e de uma sonoridade harmoniosa. As dez músicas do disco são identificadas, cada uma, como “coisa”, e numeradas de 1 a 10, numa referência ao termo opus, usado na música clássica.
Uma delas é Coisa nº 5, apelidada de Nanã, a mais conhecida de Moacir Santos, que, posteriormente, recebeu letra de Mário Telles, compositor carioca ligado à Bossa Nova e à MPB. Antes do registro instrumental no álbum Coisas, a música foi gravada por Wilson Simonal em 1964.
Na década de 1960, o maestro também produziu uma boa quantidade de trilhas sonoras. São dele as trilhas de filmes como Seara Vermelha (1963), de Alberto D’Aversa, Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra, e O Beijo (1965), de Flávio Tambellini.
Na Rádio Nacional. Moacir trabalhou com Radamés Gnattali – Imagem: Acervo Maestro Radamés Gnatalli
O professor Lucas Bonetti – cujo mestrado resultou em um site com as partituras das trilhas de Moacir Santos – observa, por exemplo, que a estrutura harmônica empregada em Ganga Zumba (1963), de Cacá Diegues, antecipava muito da sonoridade que apareceria em Coisas.
A despeito do aparente bom trânsito no meio cultural brasileiro, Moacir Santos sofria com a escassez de trabalho e decidiu, em 1967, mudar-se para os Estados Unidos com a família.
Pouco tempo antes, ele tinha conhecido, no Rio, o cineasta polonês Zygmunt Sulistrowski, para quem produziu as trilhas sonoras de dois filmes: o documentário Love in the Pacific (1968) e a ficção Jungle Erotic (1970), analisados na pesquisa de Bonetti.
No país norte-americano, Moacir Santos começou a trabalhar como professor de piano e teoria musical. Paralelamente, mantinha suas criações. Em 1972, lançou seu primeiro álbum gravado no exterior: The Maestro. Esse trabalho foi indicado ao Grammy quando nem existia a versão Grammy Latino.
Depois, viriam os álbuns Saudade (1974), Carnival of the Spirits (1975) e Opus 3 nº 1 (1979). Nenhum dos discos foi lançado no Brasil.
“Ele chegou aos Estados Unidos com uma mão na frente e outra atrás, mas conseguiu a estabilidade financeira que não tinha aqui”, afirma Andrea Ernest Dias. O fato de ter fixado residência por quase 40 anos lá fora também fez com que seu trabalho fosse “esquecido” no Brasil.
Em 1995, o compositor foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), que deixou várias sequelas. Ele morreria quase dez anos depois, em 2006, em Pasadena, na Califórnia. Nos últimos anos de vida, ele veio ao Brasil com mais frequência graças à repercussão do álbum duplo que resgatou sua obra, Ouro Negro (2001), produzido por Zé Nogueira e Mário Adnet.
O disco, com algumas músicas do maestro letradas por diferentes parceiros, teve a participação de Milton Nascimento, Joyce e Gilberto Gil, entre outros. Os mesmos produtores de Ouro Negro fariam Choros e Alegria (2005), também resgatando composições de Moacir Santos. Esse disco recebeu a indicação ao Grammy Latino de 2006, pouco depois da morte do artista.
Espera-se que seu centenário – ainda que as homenagens, por ora, estejam aquém do tamanho do seu legado – contribua para que mais gente volte os olhos para esse gênio da música instrumental brasileira. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O maestro do Pajeú’
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