Cultura
O incômodo como proposta estética
Em Vortex, o diretor Gaspar Noé radicaliza seu estilo vertiginoso ao retratar um casal de idosos
Mesmo rebatizada como a melhor idade, a velhice não deixa de ser o preço que se paga pela longevidade, com a perda do vigor físico, as doenças e a solidão. Vortex, mais recente trabalho de Gaspar Noé, diretor argentino radicado na França, retrata esse processo com o estilo vertiginoso que o caracteriza.
O longa-metragem, disponível na plataforma MUBI, segue o cotidiano de um casal na faixa dos 80 anos. O marido é interpretado por Dario Argento, diretor célebre de “giallos”, gênero de suspense com molho italiano que teve seu apogeu nos anos 1960 e 1970. A esposa é vivida por Françoise Lebrun, atriz francesa cuja trajetória ficou marcada pelo papel de mulher liberada no clássico A Mãe e a Puta (1973).
A escolha não é fortuita. Ambos os intérpretes encarnam aquele momento histórico em que a juventude foi identificada como protagonista das ideias de liberdade, progresso e crença no bem comum. Vortex, portanto, não registra somente a decomposição imposta pelo envelhecimento físico. O filme também capta, de modo oblíquo, a aniquilação daqueles ideais.
O pessimismo da visão de Noé não é novidade para quem conhece Irreversível (2002), registro de uma sádica situação de estupro. Em Vortex, ele radicaliza sua estética crua e incômoda. Durante 2h20, a câmera acompanha o cotidiano cada vez mais frágil dos personagens. O marido sofreu um AVC e dedica-se a escrever um livro sobre a relação entre o cinema e os sonhos. A esposa é uma psiquiatra aposentada que está com demência senil, tem esquecimentos e requer atenção constante.
A temática lembra a de Amor (2012), filme em que Michael Haneke registrava como entomologista a proximidade da morte no cotidiano de um casal idoso. Vortex acentua a proposta de observação por meio de um recurso audiovisual que intensifica o mal-estar.
Após um breve prólogo, a imagem é dividida em duas faces, correspondentes aos ângulos de cada personagem. De um lado, vemos o marido e, de outro, a esposa. A divisão permite seguir cada um em seus gestos e reações, impaciências e preocupações, e nos permite, ainda, vê-los de modo simultâneo e isolados, percebê-los unidos e solitários.
O filme é ambientado quase somente no interior da casa e em ângulos fechados. Essa escolha captura a vida, os afetos, a conexão profunda do casal por meio dos objetos acumulados. E também fortalece a impressão de aconchego e de enclausuramento. Vortex é um cinema que confronta, e leva o espectador a lugares que ele talvez preferisse evitar. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1229 DE CARTACAPITAL, EM 12 DE OUTUBRO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O incômodo como proposta estética”
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