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O ilustrador da música brasileira

Elifas Andreato – Além da Moldura reúne uma centena de trabalhos do mais reverenciado capista do País

O ilustrador da música brasileira
O ilustrador da música brasileira
Identidade. Autodidata e ex-torneiro mecânico, Elifas passou a conhecer os artistas ao fazer a arte de fascículos sobre a MPB para a Editora Abril – Imagem: Acervo Instituto Elifas Andreata
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Para produzir a imagem da capa do LP de Clementina (1979), Elifas Andreato usou a marca deixada por um pé em um solo de terra úmida. Com isso, o ilustrador pretendia representar a caminhada, de pegadas férteis, empreendida por Clementina de Jesus no samba.

Um mês depois do lançamento do álbum, foi aberta uma exposição de Andreato.­ Convidada para a abertura, Clementina impôs a seguinte condição: ter os próprios pés gravados pelo artista gráfico numa caixa de barro. A sambista via, naquela capa, a representação ideal de seu trabalho.

E sempre foi isso, no fundo, que o ilustrador buscou. Bento Andreato, filho de Elifas, conta que o pai, toda vez que recebia a encomenda de um trabalho gráfico, fazia questão de conviver com o artista. “Ele dizia que precisava entender a ideia para definir a técnica artística”, conta ele, em entrevista a CartaCapital.

Foi por meio desse processo e da busca por uma compreensão do propósito por trás do trabalho de cada artista que ele produziu algumas das mais icônicas e sensíveis capas da era do vinil e do CD na música brasileira. Dentre os músicos com quem trabalhou estão Elis Regina, Clara Nunes, Chico Buarque, Gonzaguinha, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila – para quem produziu 34 capas.

São essas capas, mas também cartazes para peças teatrais e filmes, ilustrações e pinturas em tela que integram Elifas Andreato – Além da Moldura, em cartaz na Caixa Cultural São Paulo até setembro. A mostra foi feita para lembrar os 80 anos que ele completaria neste ano, se vivo estivesse – Andreato morreu em 2022.

“Muita gente conhece a obra, mas não sabe que é dele”, diz Bento, que preserva o legado do pai por meio do Instituto Elifas­ Andreato.

“Muita gente conhece a obra, mas não sabe que é dele”, afirma Bento Andreato, seu filho

A mostra reúne 117 trabalhos e, ainda, vídeos em que o próprio ilustrador detalha sete projetos nos quais usou diferentes técnicas – da pintura à marchetaria e à marcenaria – e expedientes para enfrentar a censura existente durante a ditadura.

Uma de suas capas mais famosas é a do magistral, mas melancólico, Nervos de Aço (1973), de Paulinho da Viola. Nela, o sambista, pintado com tinta acrílica e lápis, aparece com o semblante triste e lágrimas correndo pelo rosto. Nas mãos, segura um colorido buquê de flores.

Para Bento, o projeto mais impactante de Elifas foi aquele feito para A Arca de Noé (1980), que traz poemas de Vinicius de Moraes musicados e interpretados pela nata da MPB. O encarte trazia desenhos de bichos e da arca para serem recortados e colados em uma capa em branco.

“Esse disco foi uma ruptura na relação das crianças com o disco. Antes, elas não eram convidadas a manusear um LP”, explica Bento. O filho conta que, nos últimos anos de vida, Andreato vinha se dedicando a projetos infantis. Um deles, o disco Sem Você Não A (2017), de Tom Zé, trazia letras baseadas numa fábula do ilustrador.

Segundo Bento, o fato de o pai ter precisado trabalhar muito cedo, ainda criança, para ajudar no sustento da família, contribuiu para esse olhar autêntico sobre o universo infantil.

Nascido em Rolândia, no norte do Paraná, ele se mudou para São Paulo, com a família, aos 12 anos, e, pouco tempo depois, foi trabalhar como torneiro mecânico na Fiat Lux. Nesse mesmo período, começou a pintar. Apenas aos 18 anos foi alfabetizado.

Em 1967, já trabalhando com artes na Editora Abril, se dedicou à produção de fascículos de música brasileira, criando, assim, a relação com o meio artístico que perduraria até o fim da vida.

Engajado, Andreato também colaborou com veículos de oposição à ditadura e criou obras que remetiam à perseguição política, como um quadro que expõe o sofrimento do jornalista Vladimir Herzog­, morto pelo regime.

A celebração dos 80 anos de seu nascimento inclui ainda um documentário em fase de produção e o projeto Som das Capas, no Centro Cultural a Céu Aberto Elifas Andreato, na Praça Memorial Vladimir Herzog. Em agosto, setembro e outubro, músicos apresentarão repertório de três discos que levam, no projeto gráfico, sua assinatura. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O ilustrador da música brasileira’

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