Cultura

O Brasil do Quiproquó

Como a comédia teatral de costumes serviu para reiterar a ascensão econômica da burguesia brasileira

O Brasil do Quiproquó
O Brasil do Quiproquó
Antologia do Teatro Brasileiro
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Antologia do Teatro Brasileiro (séc. XIX – Comédia) –


Org, Alexandre Mate e Pedro M. Scharcz –


Penguim e Companhia das Letras. 480 págs. R$ 29

 

O Brasil é o país do quiproquó desde ao menos o século XIX, como atestaram Martins Pena, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Machado de Assis, França Júnior, Artur Azevedo e Qorpo-Santo em suas tramas de burlas, moralismos e reviravoltas. Malvista e reconhecida, essa produção de teatro cômico ganha agora uma coletânea cuja apresentação é assinada pelo maior especialista brasileiro no assunto, o professor da Universidade de São Paulo João Roberto Faria.

Claro ao escrever e adepto da pesquisa rigorosa, Faria explica como a comédia teatral de costumes se inseriu no cenário cultural para reiterar a ascensão econômica da burguesia brasileira, pronta a derrubar o pensamento rural da antiga aristocracia. As comédias do período comentavam a escravidão, a submissão da mulher, a farra dos dotes, o sexo refreado, o amor ao dinheiro e a indecência dos políticos, tudo com a sem-cerimônia permitida a um gênero que, como todos os outros, recebia censura federal, mas ao qual, por sua especificidade, era permitido exercer o pensamento crítico. Para fazer rir, os autores se arriscavam em expor os podres de pobres e ricos.

“Se se perdessem todas as leis, escritos, memória da história brasileira dos primeiros 50 anos deste século XIX, que está a findar, e nos ficassem somente as comédias de Pena, era possível constituir por elas a fisionomia moral de toda essa época”, escreveu o crítico Silvio Romero. Faria demonstra como Pena sofreu para exercer a veia cômica. Ele tentou a escrita séria, sem sucesso, mas com O Juiz de Paz da Roça (1838) fundou a comédia de costumes brasileira, revelando as contradições de uma família rural diante da nova realidade burguesa.

E o livro é ainda motivador por ampliar a dimensão da comédia brasileira daquele período, desde a pretensão “realista”, contrária ao baixo cômico e defendida por José de Alencar, aos insights de Qorpo-Santo, que avançou na temática familiar a ponto de encenar a homossexualidade. No meio do caminho, estavam Machado de Assis, sua melancólica ironia ensaiada no delicado O Caminho da Porta, e a plena realização da comédia de situações de Artur Azevedo. Ser cômico no século XIX significava desistir do reconhecimento crítico. Num desabafo, Azevedo lamentou que todas as suas tentativas de fazer um teatro mais sério apenas houvessem recebido “censuras, ápodos, injustiças e tudo isso a seco”, ao passo que, “enveredando pela bambochata”, jamais lhe tivessem faltado “elogios, festas, aplausos e proventos”.

Antologia do Teatro Brasileiro (séc. XIX – Comédia) –


Org, Alexandre Mate e Pedro M. Scharcz –


Penguim e Companhia das Letras. 480 págs. R$ 29

 

O Brasil é o país do quiproquó desde ao menos o século XIX, como atestaram Martins Pena, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Machado de Assis, França Júnior, Artur Azevedo e Qorpo-Santo em suas tramas de burlas, moralismos e reviravoltas. Malvista e reconhecida, essa produção de teatro cômico ganha agora uma coletânea cuja apresentação é assinada pelo maior especialista brasileiro no assunto, o professor da Universidade de São Paulo João Roberto Faria.

Claro ao escrever e adepto da pesquisa rigorosa, Faria explica como a comédia teatral de costumes se inseriu no cenário cultural para reiterar a ascensão econômica da burguesia brasileira, pronta a derrubar o pensamento rural da antiga aristocracia. As comédias do período comentavam a escravidão, a submissão da mulher, a farra dos dotes, o sexo refreado, o amor ao dinheiro e a indecência dos políticos, tudo com a sem-cerimônia permitida a um gênero que, como todos os outros, recebia censura federal, mas ao qual, por sua especificidade, era permitido exercer o pensamento crítico. Para fazer rir, os autores se arriscavam em expor os podres de pobres e ricos.

“Se se perdessem todas as leis, escritos, memória da história brasileira dos primeiros 50 anos deste século XIX, que está a findar, e nos ficassem somente as comédias de Pena, era possível constituir por elas a fisionomia moral de toda essa época”, escreveu o crítico Silvio Romero. Faria demonstra como Pena sofreu para exercer a veia cômica. Ele tentou a escrita séria, sem sucesso, mas com O Juiz de Paz da Roça (1838) fundou a comédia de costumes brasileira, revelando as contradições de uma família rural diante da nova realidade burguesa.

E o livro é ainda motivador por ampliar a dimensão da comédia brasileira daquele período, desde a pretensão “realista”, contrária ao baixo cômico e defendida por José de Alencar, aos insights de Qorpo-Santo, que avançou na temática familiar a ponto de encenar a homossexualidade. No meio do caminho, estavam Machado de Assis, sua melancólica ironia ensaiada no delicado O Caminho da Porta, e a plena realização da comédia de situações de Artur Azevedo. Ser cômico no século XIX significava desistir do reconhecimento crítico. Num desabafo, Azevedo lamentou que todas as suas tentativas de fazer um teatro mais sério apenas houvessem recebido “censuras, ápodos, injustiças e tudo isso a seco”, ao passo que, “enveredando pela bambochata”, jamais lhe tivessem faltado “elogios, festas, aplausos e proventos”.

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