Cultura
O baú do repórter
Fernando Morais prepara o lançamento de um centro de memória a partir dos próprios e de arquivos doados
Biógrafo de Lula, Olga Benário e Assis Chateaubriand, o escritor e jornalista Fernando Morais pretende tornar públicos arquivos reunidos ao longo de uma carreira profissional iniciada em 1961. “Entre as pessoas que guardam coisas e as que jogam coisas fora, faço parte da metade que guarda. Eu guardo tudo. Se você deixar um bilhetinho aí, eu pego”, declara. “Fui juntando coisas, primeiro, juntando material de entrevistas, como jornalista. Comecei cedo, com 14, 15 anos”, conta o premiado autor mineiro, que completará 80 anos em julho.
O que poderia ser mera acumulação de bens tornou-se, porém, um audacioso projeto cultural. O autor está na fase de montagem do centro “Brasil Memória – Arquivos de Fernando Morais”, a partir de acervos, documentos, cartas, objetos, vídeos e fotografias de grandes personalidades e episódios relevantes da nossa história contemporânea, material acumulado em seis décadas como jornalista, escritor e político. “Comecei guardando fitas de rolo, cassetes e textos originais. Quando fiz minha inflexão do jornalismo cotidiano para a publicação de trabalhos em livros, o volume de entrevistas aumentou muito. Para fazer o Chatô, fiz mais de 200 entrevistas”, recorda Morais. Em seus cálculos, presume ter entrevistado cerca de mil pessoas. “Suponho ter feito a última entrevista com a Alzira Vargas, filha do Getúlio. Fui para falar do Chatô, mas ela falou 10% dele e 90% do pai. Tem uma passagem que ela comenta do momento em que Getúlio, com a morte do filho, jovem, passou a acreditar em Deus.”
A intenção é disponibilizar ao público em geral o acesso aos arquivos, de forma digital ou física. Além disso, o centro pretende ser espaço de debates, oficinas, exposições e atividades culturais. “Embora eu tenha sido um instrumento para acumular o material, isso é uma propriedade social”, considera.
Concebido há cerca de sete anos para ser instalado na cidade histórica de Mariana, onde nasceu o autor, o centro adquiriu proporção que o obrigou a transferi-lo para São Paulo. Segundo a empresa transportadora, o conteúdo do acervo pesava, à época da transferência, aproximadamente, 9 toneladas.
Em julho de 2025, Morais firmou convênio com a Fundação Escola de Sociologia e Política do Estado de São Paulo, por meio do qual a tradicional instituição de ensino paulista estabelecerá parceria com o Brasil Memória para organização, catalogação e digitalização dos documentos. Os primeiros a serem objeto da parceria deverão ser os acervos dos ex-presidentes da República Dilma Rousseff, Fernando Collor e Jânio Quadros, os três em processo de incorporação ao instituto dirigido pelo escritor. O convênio prevê ainda seminários, workshops e edição de livros.
A biblioteca possui, por enquanto, cerca de 10 mil volumes, com ênfase na política brasileira, especialmente do período que vai da Revolução de 1930 ao golpe de 1964. O lote de fotografias inclui centenas de imagens digitalizadas, realizadas ao longo dos últimos 40 anos, em virtude das atividades de Morais como jornalista e político. O lote de cartas contém cerca de mil missivas trocadas por ele com políticos, chefes de Estado, prêmios Nobel, cardeais e outras figuras públicas. Já as entrevistas abrangem cerca de 400 horas de gravações com Luís Carlos Prestes, Paulo Coelho, Roberto Marinho, Juracy Magalhães, Fidel Castro, Alfredo Stroessner, Anastácio Somoza, Yasser Arafat e Muammar Kadhafi, para citar alguns.
“Guardo tudo. Se você deixar um bilhetinho aí, eu pego”
Entre os atrativos há objetos de memorabilia, feito uma coleção de 28 bustos e estatuetas em bronze e louça de Getúlio Vargas, Mao Tsé-Tung, Carmen Miranda, Cartola e Machado de Assis. A placa original do veículo que transportava o pistoleiro que matou o major Vaz, no chamado “Atentado da Rua Toneleros”, que redundaria no suicídio de Vargas, integra o material. Há também caixas de charutos com dedicatórias de Castro e de Lula, e um relógio Rolex, de ouro, com o rosto de Kadhafi no visor, doado pelo próprio dirigente líbio. Uma espada entregue ao então general Henrique Teixeira Lott, pela celebração de um ano do contragolpe que possibilitou a posse de Juscelino Kubitschek, em 11 de novembro de 1956, faz um curioso contraponto à carta do conspirador Carlos Luz dizendo-se no exercício da Presidência “a bordo do Tamandaré”, datada de um ano antes.
Os maiores destaques são, no entanto, os lotes de arquivos pessoais de nomes como Antônio Carlos Magalhães, Samuel Wainer, José Dirceu e Sérgio Motta, alguns doados pelos próprios personagens. “Após seis anos de entrevistas com ACM, ele me cedeu seus arquivos”, conta Morais. “José Dirceu me procurou e ofereceu um material que tem mais de 2 mil fotos, desde a época do movimento estudantil.”
Parte dos documentos possui informações reveladoras da história recente do País. A correspondência mantida por Carlos Lacerda e seu amigo e advogado Fernando Cícero Veloso por 30 anos serviu de fonte de pesquisas para livros de Carlos Heitor Cony, Mário Magalhães e Lira Netto. Caixas com cerca de 300 entrevistas realizadas pelo brasilianista estadunidense J. W. Foster Dulles incluem conversas com o embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, e seu adido militar, o general Vernon Walters, figuras-chave do golpe de 1964. E o acervo depositado em 114 caixas de papelão preto forneceu conteúdo para a minissérie da HBO-MAX A Caixa Preta de Fernando Morais, a ser exibida em junho de 2026.
Enquanto prepara o site do “Brasil Memória”, o escritor procura uma sede própria e parcerias para apoiar o centro. “Contamos com pequenos recursos de uma instituição europeia e de doadores daqui, mas farei um tour pelo exterior para buscar instituições comprometidas com a memória e que se disponham a contribuir com o projeto.” Um dos planos é conseguir financiamento para trazer de volta os documentos relacionados ao Brasil guardados em instituições dos EUA. “Há uma quantidade brutal de arquivos de política brasileira em universidades norte-americanas. Recuperar essa documentação é um negócio de uma vida.” •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O baú do repórter’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



