Cultura

O autorretrato secreto de Lucien Freud

Quase 25 anos atrás, um colecionador de arte suíço comprou, em um leilão, um quadro de Lucien Freud (1922-2011). Tratava-se de um nu masculino de corpo inteiro. Pouco tempo depois, ele recebeu um telefonema do artista britânico, que dizia querer comprá-lo. Os dois não se […]

Marca pictórica. Lucien Freud chegou a ligar para o colecionador para tentar comprar dele a obra
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Quase 25 anos atrás, um colecionador de arte suíço comprou, em um leilão, um quadro de Lucien Freud (1922-2011). Tratava-se de um nu masculino de corpo inteiro. Pouco tempo depois, ele recebeu um telefonema do artista britânico, que dizia querer comprá-lo. Os dois não se conheciam e o colecionador, educadamente, recusou a proposta. A razão era simples: ele havia gostado do quadro.

Segundo o colecionador, três dias depois, Freud telefonou novamente. Dessa vez estava furioso e disse que a menos que o novo proprietário da obra a vendesse, ele negaria tê-la pintado.

O colecionador, que pede anonimato, contou ao Observer: “Ele disse: ‘Eu lhe dou mais do que você pagou, eu dobro o valor’. Eu recusei, e ele ficou muito agressivo. No fim, afirmou: ‘Nesse caso, você nunca o venderá’”. Para sua consternação, posteriormente, o espólio de Freud recusou-se a autenticar o Nu Masculino em Pé.

Esse poderia ter sido o fim de uma triste história para o colecionador. Mas agora, após anos de pesquisa, ele ganhou uma nova esperança. Três estudos independentes concluíram que o Nu Masculino em Pé foi, muito provavelmente, pintado pelo mestre do século XX. E não só isso. Acredita-se agora que a pintura seja um autorretrato e que Freud talvez tivesse bons motivos para querer escondê-lo.

Freud é reverenciado por suas representações magistrais da carne nua de outras pessoas, muitas vezes com um realismo brutal. A representação em tamanho natural de sua musa Sue Tilley, também conhecida como Big Sue, foi vendida pelo equivalente a quase 300 milhões de reais, em 2015.

Nu Masculino em Pé, um óleo sobre tela inacabado, medindo 43 por 65 centímetros, estava entre os bens de um indivíduo falecido em Genebra, leiloado em 1997. A obra foi catalogada como sendo de Freud. No entanto, com a subsequente negação de autoria pelo artista, os leiloeiros não poderiam vendê-lo hoje – exatamente como Freud previu.

Após uma extensa pesquisa, o colecionador e um amigo, Thierry Navarro, investigador particular, defendem que o desespero de Freud para adquirir o quadro foi motivado pelo constrangimento com o fato de o nu masculino ser, provavelmente, um autorretrato. Visto por trás, com o rosto virado de perfil, seus traços faciais correspondem às fotos do pintor.

Embora Freud fosse conhecido por suas muitas amantes, acredita-se que, no início da vida adulta, ele teve casos gays. Navarro descobriu que o quadro tinha sido pendurado em um apartamento em Genebra, usado secretamente pelo colega Francis Bacon (1909-1992) e amigos, e que tinha Freud entre os visitantes.

“Há, em Genebra, uma testemunha viva da comunidade gay. Quando o colecionador fez uma exposição privada de suas pinturas, tal pessoa disse: ‘Conheço esse quadro’”, diz o investigador. “Essa testemunha sabia da relação entre Freud e ­Bacon”, diz Navarro. “Ele deu muitos detalhes. Disse que Bacon pediu a Freud para pintar o quadro para ele e que Bacon tinha essa e outra pintura na entrada do apartamento.”

De acordo com as pesquisas, o quadro passou anos em um apartamento usado por Francis Bacon

Navarro também ficou surpreso ao descobrir uma ligação entre o nu masculino e uma das fotos de atletas nus de Eadweard Muybridge, de 1880, presente em um livro intitulado The Human ­Figure in Motion (A Figura Humana em ­Movimento), cujas imagens homoeróticas também inspiraram Bacon. “Freud usou a foto Atleta Pegando Uma Bola desse livro. Há, nas costas da figura, uma mancha que foi reproduzida da fotografia, o que significa que há uma ligação direta”, afirma.

Questionado sobre o motivo de ­Bacon ter deixado a pintura em Genebra, Navarro­ especulou que a dupla pode ter se desentendido, levando Bacon a abandonar o quadro. “Freud, provavelmente, mentiu sobre essa pintura porque ela o constrangia e, talvez, ele preferisse destruí-la a vê-la nas mãos de alguém que tentasse vendê-la no mercado.”

Nicholas Eastaugh, um dos principais especialistas britânicos em análise científica de pinturas, pegou pigmentos minúsculos e os comparou com outros de pinturas autenticadas, na Tate. Os testes envolveram ainda o uso de imagens infravermelhas, que revelaram um desenho preliminar compatível com outros de Freud. “Encontramos um resultado comparativo positivo com Freud e uma ausência de indicadores negativos para sua autoria de Nu Masculino em Pé”, concluiu Eastaugh.

O historiador da arte Hector Obalk estudou a pintura e, no relatório, observou que “a maneira como a carne é retratada é bastante típica do artista”. Concluiu: “A meu ver, é certo que o autor dos gestos pictóricos necessários à execução não pode ser outro senão Lucian Freud, na medida em que reconheço a sua mão”.

Outro estudo foi conduzido por Carina Popovici, cientista e cofundadora da Art Recognition, empresa suíça que emprega nos testes científicos uma tecnologia inovadora de Inteligência Artificial. “Nossa IA classificou partes da pintura como sendo da mão de Freud com alta pontuação – um resultado positivo de até 95% –, o que pode significar também que a superfície restante foi pintada por outra pessoa.” Navarro aposta: “Esta é uma pintura única que une dois mestres, Bacon e Freud. Ela merece estar num museu”.

Cabe lembrar que, em 2016, um dos primeiros quadros de Freud foi atribuído a Bacon. O artista, aparentemente, havia se recusado a reconhecer o trabalho porque ele foi, originalmente, propriedade de ­Denis Wirth-Miller, artista com quem Freud tinha uma antiga rivalidade.

Procurado, o espólio de Lucien Freud não quis comentar.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1186 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE DEZEMBRO DE 2021.

CRÉDITOS DA PÁGINA: STEPHAN AGOSTINI/AFP E THIERRY NAVARRO

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